Por que esta faculdade existe
Sobre um pressuposto que a psicologia moderna herdou sem examinar, e sobre o que a tradição católica tem para pôr no lugar.
IA pergunta
Por que todas as escolas modernas de psicologia partem de uma fundamentação filosófica tão diferente da visão católica do ser humano?
A resposta que se costuma dar é que elas escolheram outra antropologia. Não foi isso o que aconteceu, e a diferença importa.
Quase nenhuma delas escolheu. A maior parte herdou uma posição filosófica e declarou que examiná-la não era assunto seu. E isso não é acusação nossa: está escrito pelos próprios fundadores, com todas as letras, nos livros que fundaram as disciplinas.
IIEles declararam a fronteira, e foram honestos ao fazê-lo
William James abre os Principles of Psychology, em 1890, dizendo que toda ciência natural assume certos dados sem os criticar. E sobre esses dados escreve:
«a discussão deles chama-se metafísica e cai fora do domínio deste livro.»
William James, The Principles of Psychology, prefácio, 1890
A fronteira metodológica está anunciada na primeira página, com todas as letras. Nada disto ficou escondido. James sabe exatamente o que está deixando de fora, e o diz.
E é honesto até o fim. Mais adiante, ao tratar da alma, escreve a frase que se costuma citar contra ele — e a frase seguinte, que quase nunca se cita:
«A teoria da Alma é, portanto, uma completa superfluidade, no que toca a dar conta dos fatos verificados da experiência consciente. Até aqui, ninguém pode ser obrigado a subscrevê-la por razões científicas definidas. O caso pararia aqui, e o leitor ficaria livre para escolher, não fossem outras exigências de ordem mais prática. A primeira delas é a Imortalidade.»
James, Principles I, 348
Leia as duas metades juntas e o sentido se inverte. James não está dizendo que a alma foi refutada. Está dizendo que ela não cabe no método que ele escolheu — e que a questão continua de pé por outras razões, das quais nomeia a imortalidade em primeiro lugar. São coisas muito diferentes, e a geração seguinte deixou de distinguir uma da outra.
IIIO endurecimento
O que aconteceu entre uma coisa e outra tem uma forma reconhecível, e leva cerca de duzentos anos.
Em 1732, Christian Wolff — que inventou a palavra «psicologia» no sentido em que a usamos — propõe que a psicologia empírica proceda como a física experimental: observando, medindo, sem discutir a natureza última daquilo que observa. Como programa de trabalho, é razoável, e foi fecundo.
Mas um programa de trabalho é uma restrição voluntária, e restrições voluntárias tendem a ser esquecidas por quem herda os resultados. Ao longo de cento e cinquenta anos, o «vamos estudar apenas o mensurável» foi virando «apenas o mensurável é real». Ninguém precisou defender essa passagem, porque ela nunca chegou a ser anunciada.
John Watson, em 1925, deixa a costura à vista. Na frase mais citada do behaviorismo, aquela dos doze bebês saudáveis que ele treinaria para ser o que quisesse, ele continua assim:
«Estou indo além dos meus fatos, e admito isso — mas os defensores do contrário também têm feito o mesmo, e há milhares de anos.»
John B. Watson, Behaviorism, 1925
Nove citações em dez cortam antes dessa linha. E ela é a mais importante das duas, porque nela o fundador da escola reconhece que a sua posição sobre a natureza humana não decorre dos seus dados. É uma aposta filosófica, e ele sabe disso.
IVA divergência tem data, e tem nome próprio
Até aqui falamos de método. Falta a divergência de conteúdo, e ela não é difusa: tem um autor, e os próprios fundadores da neurofisiologia moderna o nomeiam sem constrangimento.
«Dos pontos em que a fisiologia e a psicologia se tocam, o lugar está na emoção. […] Foi Descartes quem primeiro promoveu as emoções ao cérebro.»
Charles Sherrington, The Integrative Action of the Nervous System, 1906, p. 256
E Ivan Pávlov, em 1927, abre as suas conferências dizendo que o ponto de partida do seu trabalho foi a ideia cartesiana do reflexo nervoso. Dois fundadores, vinte e um anos de distância, o mesmo nome.
O que Descartes fez
Ele trocou uma substância por duas.
Na conta escolástica, a alma é a forma do corpo. Não é um hóspede que mora dentro de uma casa de carne: é o princípio que faz aquele corpo ser um corpo vivo, e não um cadáver. Há uma coisa só, o homem, com potências ordenadas dentro dela — a vegetativa, a sensitiva, a racional. Não há dois andares, e por isso não há problema de comunicação entre eles.
Depois de Descartes há duas substâncias, a pensante e a extensa, e junto com elas um problema que não tem solução: como é que elas se tocam.
E as escolas modernas são, quase todas, maneiras diferentes de conviver com esse problema insolúvel.
E é por isso que o nome desta faculdade não é ingênuo. «Alma», em «Antropologia da Alma», não é o oposto de corpo — é a forma dele, o que faz um corpo ser vivo e ser este tipo de vivo, como acabamos de ver. Quem lê o nome sem contexto pode ouvir nele um eco cartesiano, ou de espiritualidade solta, exatamente o par que este bloco desmontou. É o contrário: estudar a alma, nesta tradição, nunca foi estudar algo separado do corpo — é estudar o que faz o corpo ser mais do que matéria organizada. E «faculdade» carrega o mesmo duplo sentido de propósito: é a instituição, e é o nome antigo para uma potência da alma — intelecto, sentido, memória, vontade. Esta faculdade ensina sobre as faculdades.
VO que se perdeu no caminho: a causa final
Há uma categoria específica que a ruptura moderna descartou, e é dela que dependem as consequências práticas mais graves.
«não é para que tenham a potência de ver que os animais veem: eles têm a potência de ver para que vejam.»
Aristóteles, Metafísica IX (Θ), 8, 1050a10-11
A potência existe em vista do ato. O olho é para ver; e dizer o que uma coisa é implica dizer para que ela é. Retirada essa categoria, torna-se impossível dizer para que serve um ser humano.
E daí decorre a consequência que interessa a quem trabalha com gente: torna-se impossível dizer o que é saúde, a não ser de duas maneiras pobres. Ou estatisticamente, pelo que a maioria faz. Ou negativamente, pela ausência de queixa e de prejuízo funcional.
Repare aonde isso leva. Numa definição estatística de normalidade, o santo é tão anormal quanto o criminoso — os dois se afastam da média, e não há como distinguir os dois afastamentos sem uma noção de fim. É uma consequência da qual não se escapa por boa vontade, e é uma das razões de esta faculdade existir.
VIUma complicação honesta, e ela fortalece o argumento
Falta dizer uma coisa que enfraqueceria este texto se ficasse omitida, e que o fortalece por ser dita.
Não existe «a visão católica do ser humano» no singular.
A tradição discutiu isto por dentro, com discordâncias reais, e as posições em disputa são incompatíveis entre si e todas ortodoxas:
O que a tradição oferece, portanto, é um campo de pesquisa de mil e quinhentos anos que nunca parou, com discordâncias documentadas, critérios para resolvê-las, e a exigência de que cada posição responda pelas suas consequências.
VIIO que esta faculdade faz com isso
Nada do que está escrito acima exige polêmica com ninguém, e esta faculdade não a faz.
Não é preciso refutar as escolas modernas. O que elas viram, viram de verdade, e boa parte do que descobriram é sólido e útil. O problema não está no que elas afirmam; está no que elas assumem sem discutir, por terem declarado a discussão fora do seu escopo — o que era legítimo como método e deixou de ser quando o método virou visão de mundo.
Então o trabalho é este: tornar o pressuposto visível, e mostrar que existe outro. Com fontes, com história, e com as discordâncias internas à vista. Quem, depois disso, escolher o primeiro, escolheu de olhos abertos — e é só isso que uma faculdade pode e deve pretender.
É por isso que este currículo começa por onde começa. Antes de qualquer psicologia, dois blocos de fundamentos: como o homem conhece, e o que é o real. Não por gosto de filosofia, e sim porque toda escola de psicologia já respondeu a essas duas perguntas — a diferença é que aqui as respostas são declaradas, e podem ser discutidas.