A origem sensível de todo conhecimento
Tudo o que você sabe entrou pelos olhos, pelos ouvidos, pela pele. Não existe outra porta. Esta disciplina mostra o que essa afirmação obriga a aceitar, e por que ela não transforma o pensamento numa soma de sensações.
Aula 1De onde veio isso que você sabe
Pare um instante e pense numa coisa que você sabe com toda a certeza, mas que não dá para segurar na mão, sentir o cheiro ou apalpar. Pode ser a justiça. Pode ser o número sete. Pode ser Deus. Escolha uma dessas — ou qualquer outra parecida que lhe vier à cabeça agora — e fique com essa ideia por alguns segundos, quase como quem pega um objeto para examiná-lo de perto.
Agora chega a pergunta, que parece simples demais, quase infantil: por onde foi que essa ideia entrou dentro de você?
A resposta que esta disciplina dá — e que, no fundo, é a resposta de toda a tradição que estamos estudando — costuma causar um certo desconforto na primeira vez que alguém a ouve, porque ela derruba uma expectativa que a gente carrega sem nem saber que carrega. A resposta é simples: entrou pelos olhos, pelos ouvidos, pela pele. Não existe nenhuma outra porta de entrada, por mais elevada que seja a ideia em questão. Você aprendeu o que é justiça vendo, com seus próprios olhos, alguém sendo tratado de um jeito que doeu no seu peito. Aprendeu o número sete contando nos dedos, ou contando pedrinhas, ou contando os seus irmãos. E o que você sabe sobre Deus chegou até você através de palavras que alguém pronunciou, de uma imagem pendurada na parede de uma igreja, de um pedaço de pão partido em cima de uma mesa numa celebração.
Existe uma frase curta em latim que resume tudo isso de uma vez, e vale muito a pena guardar de cor, porque ela vai voltar o curso inteiro:
quod prius non fuerit in sensu. Nada está no intelecto que não tenha estado primeiro nos sentidos.
Por que isso não é óbvio
Na primeira vez que alguém ouve essa frase, costuma concordar depressa demais, quase sem pensar. Parece óbvio, uma simples constatação de bom senso — é claro que a gente aprende olhando o mundo, isso ninguém discute. Mas essa frase é bem mais exigente do que parece à primeira vista, porque ela fecha várias portas que muita gente atravessa sem perceber que está atravessando.
A primeira porta que ela fecha é a ideia de que a gente já nasce sabendo as coisas. Existe uma linha de pensamento bastante respeitada, que remonta a Platão, segundo a qual a alma já traria consigo, antes mesmo de nascer, o conhecimento das realidades verdadeiras — e aprender seria apenas recordar algo que já estava lá dentro. Você vai encontrar essa ideia mais adiante no curso, bem defendida e explicada. Mas aqui, nesta disciplina, ela é recusada — e já vale a pena saber que essa recusa não foi decisão de um dia: custou séculos de discussão filosófica.
Ela também fecha a porta para a ideia de um "olho interior", um sexto sentido misterioso que enxergasse as essências das coisas direto, sem passar pelo corpo. Aqui não existe esse atalho: tudo o que se sabe sobre qualquer coisa — mesmo as mais elevadas, como Deus e a justiça — entrou exatamente pela mesma porta que tudo o mais.
E fica, com isso, uma pergunta em aberto que vai importar bastante para o resto do curso. Se todo o conhecimento entra pelos sentidos, o que dizer do conhecimento que você tem de si mesmo, da sua própria alma? Ele também precisou entrar por algum lugar — mas por qual, já que a alma não é uma coisa colorida, com formato e tamanho, que a gente possa simplesmente olhar como olha uma cadeira?
Essa pergunta fica para depois, e adianto: a resposta não é a que o senso comum espera. A quinta disciplina deste bloco vai dedicar cinco aulas inteiras só a ela.
O que Aristóteles diz, e é mais radical do que se espera
No tratado Sobre a Alma, exatamente no ponto em que discute como funciona o pensamento, Aristóteles escreve uma frase curta que foi repetida, comentada e discutida durante mil e quinhentos anos:
Repare com atenção no advérbio dessa frase, porque é ele que carrega o peso da afirmação inteira. Não é que a alma pense melhor quando tem uma imagem por perto, como se a imagem fosse um simples reforço opcional. É que simplesmente não existe pensamento humano sem que alguma imagem esteja presente — mesmo quando o assunto do pensamento não tem forma nem cor nenhuma, como acontece com a justiça ou com Deus.
Vamos experimentar um teste bem rápido, que não engana ninguém e leva dez segundos. Pense em «justiça» de novo, do mesmo jeito que fez lá no começo, e observe o que surge junto com essa palavra na sua cabeça. Pode ser uma balança. Pode ser o rosto de alguém que você conhece. Pode ser a própria palavra escrita, ou o som dela. Alguma coisa apareceu — ninguém consegue pensar em "justiça" olhando para um vazio total. Essa "alguma coisa" tem nome grego: phántasma, que não quer dizer fantasmaA imagem que fica na cabeça depois de os sentidos terem trabalhado — o retrato interno de uma coisa concreta. Não tem nada de assombração: é o termo técnico para a imagem sensível guardada. no sentido de assombração de filme de terror — é, de modo bem mais simples, a imagem que fica guardada na imaginação depois que os sentidos fizeram o trabalho deles.
Volte agora à coisa que você escolheu no começo desta aula — justiça, sete, Deus, tanto faz. Tente refazer o caminho de trás para frente, como quem puxa um fio: qual foi a primeira vez, na sua vida, em que você viu, ouviu ou tocou alguma coisa por causa da qual, hoje, você sabe o que sabe sobre isso?
Muito provavelmente você não vai conseguir chegar até a primeiríssima vez — a memória se perde lá atrás, na infância. Mas quase todo mundo consegue lembrar de alguma vez, algum episódio marcante. E é justamente essa lembrança que este curso vai chamar, daqui para frente, de porta.
Com isso estabelecido, surge a pergunta que a Aula 2 vai responder: se o intelecto precisa da imagem para começar a conhecer, será que ele consegue, depois de um tempo, se libertar dela e caminhar sozinho? Uma vez que o conhecimento já foi aprendido e está guardado, dá para pensar sem nenhuma imagem por perto? A resposta de Tomás é não — e ele traz dois motivos, sendo um deles, surpreendentemente, tirado da observação de doentes.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 2O corpo é a estrada, e não o obstáculo
Uma coisa é dizer que o conhecimento começa nos sentidos — isso a gente já viu na Aula 1, e não é difícil de aceitar. Outra coisa, bem mais forte, é dizer que o conhecimento nunca sai dali — que mesmo depois de já ter sido aprendida, uma coisa só pode ser pensada em atoO que já está acontecendo, em oposição ao que apenas pode acontecer. A árvore crescida é ato; a semente era potência., ou seja, efetivamente pensada aqui e agora, voltando-se de novo para uma imagem.
Antes de continuar a leitura, responda por si mesmo, com sinceridade: quando você entende, agora, o que é uma promessa, aparece alguma imagem na sua cabeça — ou o entendimento acontece de um jeito totalmente sem imagem, como um clique puro de significado? Guarde bem essa resposta, que vamos voltar a ela.
Pois é exatamente isso que Tomás de Aquino defende — e ele defende do jeito mais forte e mais fechado possível, sem deixar brecha:
«Fantasma», mais uma vez, é só a imagem guardada na imaginação. E repare bem no que essa frase não diz: ela não diz «é difícil», nem diz «é raro». Ela diz impossível, sem meio-termo. E ainda delimita com precisão até onde vale essa afirmação: no estado da vida presente, enquanto unido ao corpo — porque a tese vale para o homem tal como ele existe agora, com corpo, e não para a alma já separada depois da morte, nem para os anjos, que nunca tiveram corpo algum.
Essa operação tem um nome técnico em latim: conversio ad phantasmata, a conversão às imagensO movimento de o intelecto voltar-se para a imagem guardada sempre que quer entender alguma coisa em ato. Sem essa volta, não se entende nada.: para entender qualquer coisa, o intelecto precisa se voltar para o material que a imaginação lhe oferece. E não é uma vez só, no começo — é toda vez que você entende algo em ato, essa volta acontece de novo.
Os dois indícios, e o primeiro nasce de um doente
Tomás não pede que você acredite só na palavra dele. Ele traz duas provas, e a primeira delas é uma observação clínica de pacientes doentes, feita e escrita já no século treze — impressionante para a época.
O raciocínio é o seguinte, passo a passo. O intelecto, por ser uma potênciaA capacidade de vir a ser ou de vir a fazer alguma coisa, antes de a fazer. A semente tem em potência a árvore. que não usa órgão nenhum do corpo, em princípio não deveria sofrer nada com uma lesão corporal — se ele não depende de nenhum órgão, por que uma lesão o afetaria? Mas, na prática, ele é afetado sim. Quem tem a imaginação prejudicada por algum problema, ou a memória comprometida, perde o uso em ato de coisas que já sabia muito bem antes. Logo, o intelecto depende do trabalho de outras potências que, essas sim, têm órgão corporal:
Vale parar um momento para admirar isso: é um argumento empírico, tirado direto da observação de pessoas doentes, usado para resolver uma questão bastante abstrata de filosofia da mente — e escrito lá pelos anos mil duzentos e sessenta e poucos, muito antes de qualquer coisa parecida com neurociência existir.
O segundo indício que Tomás traz é ainda mais fácil de conferir: não precisa de hospital, nem de paciente nenhum. Precisa só de você, agora, fazendo um teste simples.
É um convite direto para você mesmo conferir. Tente entender agora o que é uma dívida, ou uma promessa quebrada, e preste atenção: aparece ou não aparece uma cena na sua imaginação? Aparece sempre. O texto está literalmente pedindo para você testar, e o teste funciona toda vez.
Ensinar é dar exemplo
E vem então a frase seguinte, que é, no fundo, a própria razão de esta faculdade escrever cada aula do jeito que escreve — inclusive esta que você está lendo neste momento:
Tomás está apenas descrevendo, com precisão, aquilo que qualquer bom professor faz sem pensar duas vezes: quando quer que alguém entenda de verdade, dá um exemplo. E ele explica por que isso funciona tão bem — o exemplo não serve só para ilustrar um conceito já pronto na cabeça de quem ensina; o exemplo é justamente a matéria-prima sobre a qual o intelecto do aluno vai trabalhar para formar o conceito pela primeira vez.
Daí sai uma conclusão prática importante para quem ensina qualquer coisa: ensinar só com definição pura, sem exemplo nenhum, é pedir ao ouvinte uma operação que ele simplesmente não tem como fazer. O problema, nesse caso, não é falta de didática — é falta de matéria-prima.
E o corpo, nisso tudo, não é castigo
Cabe aqui uma observação que muda o clima de tudo o que vimos até agora. Numa visão de mundo em que o corpo fosse tratado como um estorvo, essa dependência do intelecto em relação à imagem seria vista como uma desgraça, uma limitação lamentável. Nesta tradição, não é assim.
Tomás explica por que a coisa funciona desse jeito, e a explicação, além de precisa, é bonita. A capacidade de conhecer é sempre proporcionada — do tamanho certo — para aquilo que ela tem de conhecer. O intelecto do anjo, que não tem corpo, tem como objeto próprio a substânciaAquilo que existe por si, e não dentro de outra coisa. Um cavalo é substância; a cor dele não é. separada, algo que já existe sem depender de matéria nenhuma. Já o intelecto do homem, que está unido a um corpo, tem como objeto próprio «a quididadeO que a coisa é — a resposta à pergunta «que coisa é esta?». Vem do latim quid, «o quê». ou natureza existente na matéria corpórea» — a natureza das coisas do jeito que elas realmente existem, sempre dentro de um indivíduo concreto. Uma pedra não existe em algum lugar como "pedra em geral": ela existe como esta pedra específica. E é assim, encarnada nesta matéria, que ela precisa ser conhecida.
Fica então uma imagem para guardar: o corpo não é um obstáculo entre você e o que há para conhecer. O corpo é a estrada — o caminho pelo qual o conhecimento chega até você, e não uma pedra jogada nesse caminho. Foi assim que Deus fez o homem, e é assim que o homem conhece. Uma tradição que dissesse o contrário teria de explicar, em algum momento, por que motivo o Verbo se fez carne.
Agora faça o teste que Tomás propõe, e faça de verdade, sem pular. Tente entender o que é uma promessa quebrada. Espere, com calma, para ver o que surge na sua imaginação.
Depois responda com sinceridade: apareceu alguma cena? E, se apareceu, de quem era ela?
A Aula 3 vai abrir essa máquina toda e mostrar as peças por dentro. Se tudo passa pelos sentidos e pela imagem, é importante saber quantas peças, exatamente, existem entre a coisa lá fora e o pensamento aqui dentro — e a resposta vai surpreender: são mais do que cinco.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 3Cinco sentidos por fora, quatro por dentro
Qualquer pessoa sabe contar cinco sentidos de cor: vista, ouvido, olfato, gosto, tato. Isso a escola ensina a todo mundo. O que quase ninguém aprende, e é o que esta aula vai mostrar, é que a tradição escolástica conta mais quatro sentidos — sentidos internos — e que esses quatro decidem se você vai conseguir entender ou não boa parte do que este curso trata daqui em diante.
Antes de ver a resposta de Tomás, tente responder você mesmo. Primeira pergunta: um cachorro vai direto buscar a coleira, mesmo quando ela não está à vista. Que operação é essa, que nenhum dos cinco sentidos externos consegue fazer sozinho? Segunda pergunta, mais intrigante ainda: a ovelha foge do lobo já na primeira vez que o vê, sem nenhuma experiência ruim anterior com ele. O que ela percebeu, se não foi a cor nem o tamanho?
O argumento de Tomás para justificar esses sentidos internos é de engenharia funcional, não de autoridade — ele não diz "é assim porque eu disse". Ele pergunta o que um animal precisa para conseguir sobreviver, e conclui que ele precisa de coisas que os cinco sentidos externos, sozinhos, não fazem.
E o argumento não vem de uma lista pronta para decorar: nasce de duas perguntas cruzadas. A primeira: o que se apreende — a forma sensível (cor, som) ou a intençãoAquilo que uma coisa significa para quem a percebe — perigo, utilidade, familiaridade. Não é cor nem cheiro, e no entanto se percebe. (o perigo, a utilidade). A segunda: o que se faz com aquilo — recebe apenas no instante, ou retém para depois. Duas perguntas, duas respostas cada, dão quatro combinações — e as quatro estão ocupadas. É daí que vêm as quatro potências, não de terem sido simplesmente contadas.
Primeira peça que falta: guardar
Pense: um animal precisa buscar o que não está diante dele agora — a coleira fora de vista, o alimento visto ontem em outro lugar. Se ele só apreendesse o que está diante dele no momento, nunca correria atrás de nada ausente — e é isso que os animais fazem o tempo todo. Logo, além de receber as formas sensíveis, é preciso retê-las. E receber e reter, explica Tomás com uma analogia da física da época, costumam caber a princípios diferentes: «as coisas úmidas recebem bem mas retêm mal; e o contrário acontece com as secas» — pense na diferença entre escrever na areia molhada (recebe fácil, some rápido) e gravar numa pedra seca (custa mais, mas dura).
Dessa necessidade de reter nasce a imaginação, que Tomás descreve com uma expressão para guardar: «um como tesouro das formas recebidas pelo sentido» — um verdadeiro cofre de imagens já captadas.
Segunda peça que falta: perceber o que não se vê
A segunda pergunta — a da intenção — é mais sutil, e é ela que carrega boa parte do que acontece nas relações entre pessoas. Se um animal se movesse só pelo agradável e pelo doloroso, bastariam as formas sensíveis. Mas ele foge e busca por outros motivos:
«Inimigo» não é uma cor. «Útil para o ninho» não é um cheiro. São o que a tradição chama de intenções — o significado da coisa para quem a percebe, que não chega por nenhum dos cinco sentidos e ainda assim chega. Quem apreende essas intenções é a estimativaA mesma função da cogitativa, mas nos animais: o que faz a ovelha fugir do lobo sem nunca o ter visto antes.; quem as conserva é a memória.
As quatro casas, e por que são exatamente quatro
Colocando as duas perguntas lado a lado, como numa tabela, as quatro potências deixam de ser uma lista arbitrária para decorar e passam a ser as únicas combinações logicamente possíveis.
Do lado da forma: quem a recebe é o sentido comumA potência que junta o que os cinco sentidos trazem em separado. É ela que permite dizer que o amarelo e o doce são da mesma laranja. — é ele que permite afirmar que o amarelo e o doce pertencem à mesma laranja, coisa que nenhum dos cinco sentidos sozinho faz, porque cada um só alcança o seu. Quem retém é a imaginação.
Do lado da intenção: quem apreende é a estimativa. Quem conserva é a memória — e aqui vale uma distinção fina: a memória não guarda propriamente imagens, guarda significados. Guardar o rosto é trabalho da imaginação; guardar que aquele rosto pertence a quem lhe fez mal é trabalho da memória.
E no homem a terceira peça muda de nome — e de natureza
A quarta potência tem, no homem, um nome próprio e um estatuto bastante discutido, e é dela que dependem praticamente todas as disciplinas seguintes:
A ovelha foge do lobo por puro instinto. O homem chega à mesma percepção por comparação — comparando uma situação com outra já vivida —, e por isso a faculdade se chama, nele, razão particularOutro nome da cogitativa. Chama-se razão porque compara; chama-se particular porque compara casos concretos, e não ideias gerais.. Mas atenção a duas coisas, porque delas depende tudo: ela continua sendo uma potência sensitiva, e Tomás lhe atribui até um órgão corporal específico, com lugar marcado no corpo.
Vale grifar bem esse ponto, porque as próximas disciplinas do bloco vão precisar dele: a cogitativaA potência que, no homem, capta o significado das coisas concretas — que aquele cão é perigoso, que aquela pessoa é a sua mãe. Tomás também lhe chama razão particular. é sensitiva, e não intelectiva, mesmo o nome «razão particular» soando, à primeira vista, como se já fosse coisa do intelecto puro. Não é: ela continua do lado dos sentidos, com órgão e tudo — é apenas o sentido mais sofisticado que existe, aquele que mais se aproxima da razão sem chegar a ser razão de verdade. É justamente dessa linha fina, sensitiva mas quase razão, que vai depender, mais adiante, entender por que existe um problema real em conhecer esta pessoa aqui, com nome e rosto próprios, e não só «o homem» como ideia geral.
Por fora, com os cinco de sempre:
- vista
- ouvido
- olfato
- gosto
- tato
Por dentro, com as quatro desta aula:
- sentido comum — recebe a forma
- imaginação — retém a forma
- cogitativa — recebe a intenção (chama-se estimativa nos animais)
- memória — retém a intenção
Pense agora numa criança de dois anos que foge assustada de um cão grande que nunca a mordeu. Pergunte-se: o que ela percebeu, se não foi a cor do pelo nem o tamanho do cão?
Dê um nome a isso que você identificou. Depois confira: esse nome é uma das nove peças do desenho que estudamos nesta aula?
Fica uma dívida declarada em aberto, e a Aula 4 começa a pagá-la. Se tudo o que sabemos entra por esse aparelho todo que acabamos de montar, e esse aparelho, de vez em quando, parece se enganar — bastões que parecem quebrados na água, estrelas vistas onde já não estão mais —, então o edifício inteiro do conhecimento parece assentado sobre areia movediça.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 4O olho não erra
Faça este experimento: coloque uma colher dentro de um copo com água e olhe de lado. A colher parece partida bem na altura da água. Todo mundo já viu isso alguma vez, e ninguém acha, de fato, que a colher quebrou de verdade.
Mas guarde bem o que acabou de acontecer, porque isso representa uma acusação séria contra tudo o que esta disciplina afirmou até aqui. Se todo conhecimento entra pelos sentidos, e os sentidos entregam uma colher partida que, na realidade, não está partida, então parece que tudo o que sabemos está construído sobre um fundamento que, de vez em quando, falha.
Antes de responder: três coisas diferentes chegam ao mesmo olho
A resposta a isso não se entende sem uma divisão que a tradição escolástica faz e que quase nenhum curso costuma ensinar direito. Quando você olha para a colher na água, o seu olho não recebe uma coisa só. Ele recebe, na verdade, três coisas diferentes ao mesmo tempo, cada uma com um estatuto próprio.
Tomás descreve o terceiro tipo dessas coisas pelo modo como ele aparece — de repente, no exato encontro com a coisa sentida, sem nenhum passo intermediário perceptível: statim quod ad occursum rei sensatae apprehenditur intellectu. No instante em que você vê alguém se mover, você apreende, pelo intelecto, que aquilo tem vida. A vida não tem cor nenhuma — e, mesmo assim, chega junto com a cor, no mesmo instante.
Com essa divisão em mãos, a pergunta sobre a colher muda de figura completamente. A figura partida é um sensível comumAquilo que mais de um sentido alcança: a figura, o tamanho, o movimento, o número. A vista e o tato alcançam os dois a forma de uma coisa., e não um sensível próprioAquilo que só um sentido alcança: a cor, para a vista; o som, para o ouvido. Nenhum outro sentido chega lá.. O que está em jogo é o contorno, a forma. A cor não entra nessa discussão. E é justamente sobre esse ponto que a tradição foi cobrada, ao longo da história, a dar uma resposta.
A resposta, e ela começa antes de onde costuma ser citada
E a tradição não fugiu dessa cobrança, muito pelo contrário. Em 1913, o beneditino luxemburguês Joseph Gredt, professor em Roma, dedicou a terceira parte inteira de um livro seu sobre o conhecimento sensorial a esse problema específico — cinquenta e nove páginas discutindo apenas se os sentidos merecem ou não crédito. E a frase que resolve a questão de vez começa um pouco antes de onde ela costuma ser citada:
A frase em negrito é a que faz o trabalho pesado. A infalibilidade dos sentidos tem um recorte estreito e específico: é garantia apenas sobre aquilo que cada sentido sente por si mesmo, diretamente. Fora desse recorte, a tese não promete nada — e é justamente por isso que ela não é ingênua.
E, na sequência da mesma frase, Gredt explica o que cabe dentro desse recorte: aquilo que cada sentido apresenta positivamente e por si mesmo, seja por si em primeiro lugar — o sensível próprio —, seja por si em segundo lugar — o sensível comum. Os dois estão incluídos na garantia. A figura da colher, sendo sensível comum, está dentro dela, não fora.
Então a colher está partida?
A resposta de Gredt é ainda mais dura, e mais interessante, do que a que costuma circular em sala de aula. Ele não diz simplesmente que a vista erra e um juízoO ato de afirmar ou negar alguma coisa de outra — «a neve é branca». É só aqui que faz sentido dizer que alguém acertou ou errou. posterior corrige. Ele nega o próprio pressuposto da pergunta:
Pense na física do fenômeno: a luz que sai da colher atravessa duas substâncias de densidade diferente — o ar e a água — e chega ao seu olho já desviada do caminho original. Esse desvio é um fato do mundo físico, não uma falha do olho. O que está diante da sua vista, naquele instante e naquelas condições, é de fato uma figura quebrada — e sua vista está simplesmente mostrando isso de forma correta. Gredt chega a escrever, na segunda parte do livro, que o bastão dentro da água realmente está partido enquanto essa imagem chega à retina.
O erro entra depois, num momento posterior, por meio de uma pergunta que o olho, sozinho, nunca fez nem poderia fazer: como é a colher fora da água? Essa pergunta não é da vista. Quem eventualmente a responde mal é outra faculdade.
E o «erro negativo», que a frase menciona e ninguém explica
Gredt admite, sim, um segundo tipo de erro — e é preciso entender bem o que é, porque à primeira vista ele parece contradizer tudo o que acabamos de dizer.
O erro positivo é mostrar algo que não está lá. Já o erro negativoVer de menos, e não ver ao contrário: falta uma informação que não chegou, em vez de chegar uma informação falsa. Um retrato desfocado não mente. é diferente: é não mostrar tudo o que está — ver de menos, não ver invertido. Gredt dá um exemplo: olhando de longe para duas cores próximas, a vista as vê, sim, mas imperfeitamente, sem distinguir os limites de uma e outra. Com isso, ela acaba vendo as duas como se fossem uma só.
Repare: nada foi inventado — as duas cores realmente estão lá, e as duas realmente foram vistas. Faltou apenas a percepção da fronteira entre elas — uma informação que não chegou, e não uma informação falsa que chegou.
É a mesma diferença entre uma foto desfocada e uma foto de outra pessoa. A foto desfocada não mente — só não mostra tudo com clareza.
Essas são as três únicas saídas possíveis diante de um aparente engano dos sentidos, e não existe uma quarta. Ou aquilo que se viu de menos foi realmente visto de menos — erro negativo. Ou o engano está no que foi acrescentado, o sensível por acidenteAquilo que chega junto com o que se sentiu, mas não pelo sentido: que aquilo é uma colher, que é sua, que é uma pessoa viva. — e aí a falha é de outra faculdade. Ou, terceira opção, não houve erro algum: alguém perguntou à vista uma coisa que não é da conta dela.
O que Gredt admite contra os seus
Na mesma seção, Gredt monta uma escada de posições possíveis — ceticismo, idealismoA posição de que só alcançamos as nossas próprias representações. O mundo lá fora fica sendo hipótese., realismo crítico total, realismo crítico parcial, realismo natural parcial, realismo natural total exagerado — e situa a sua no topo dessa escada. E, ao classificar cada posição, admite sem cerimônia que os escolásticos antigos se enganaram em pontos por falta de física adequada:
Vale notar o que está acontecendo aqui: é um escolástico, num livro escolástico, dizendo abertamente que os escolásticos antigos erraram porque a física deles era ruim. E a correção que ele propõe é precisa: eles confundiam o objeto por si com o objeto por acidente — a mesma divisão que vimos nesta aula, agora aplicada de volta à própria tradição, para corrigi-la por dentro.
E a acusação de ingenuidade, respondida de frente
Toda sala levanta a mesma objeção: «isso é realismo ingênuo, é achar que o mundo é exatamente como parece». Gredt responde com uma distinção que fecha a questão:
E, na linha anterior, ele já tinha explicado por quê: «o realismo de todo homem adulto é mais ou menos crítico, porque todo homem, pelo uso da razão e por experiência múltipla, sua e de outros homens, purifica os seus conhecimentos dos erros». Ou seja: essa crítica já é algo que qualquer adulto faz naturalmente, sem que a filosofia moderna tenha precisado trazer isso de fora.
Quando alguém insiste numa leitura torcida da própria história dizendo «eu vi com meus próprios olhos», a resposta desta tradição não é duvidar da pessoa. É perguntar o que exatamente foi visto, e o que foi acrescentado depois àquilo. Duvidar da percepção original não entra na conta.
Na maioria esmagadora dos casos, o olho registrou certo. O que falhou está sempre uma casa mais adiante, e a tarefa de quem pensa bem é achar exatamente onde.
Uma página sobre o sono
O artigo seguinte, na mesma questão, pergunta se o juízo do intelecto fica impedido quando os sentidos estão privados — no sono, por exemplo. A resposta de Tomás é sim, pela mesma razão de antes: «todas as coisas que inteligimos, no estado da vida presente, nós as conhecemos por comparação com as coisas sensíveis naturais».
Mas o que interessa aqui é a objeção. Alguém observa que, dormindo, uma pessoa às vezes claramente raciocina — o que sugeriria que o intelecto funcionaria sem os sentidos. E a resposta é, surpreendentemente, uma página inteira de observação do sono, escrita no século treze:
A explicação fisiológica está errada — não são vapores da digestão. Mas leia o que a página descreve, deixando de lado a física ruim: quatro estados de sono, distinguidos pelo que acontece com a imagem em cada um. Primeiro, sem imagem nenhuma. Depois, imagem desordenada, como num delírio febril. Em seguida, imagem ordenada. E, no último grau, a pessoa que sonha e sabe que está sonhando. É difícil ler isso sem pensar no que hoje chamamos de sonho lúcido — aproximação nossa, não do próprio Tomás: o que ele descreve é o discernimento entre as coisas e suas semelhanças, num sono em que o sentido comum ficou parcialmente livre.
O método desta disciplina inteira está aqui, em miniatura. A tese central — não há entendimento em ato sem imagem — é testada contra o caso que parece derrubá-la, o do homem que raciocina dormindo. E a defesa, longe de ser jogo de palavras, é uma descrição graduada dos estados de sono conforme o que sobra da imaginação em cada um. A teoria prevê os graus, e os graus existem.
Pense numa vez em que você teve certeza de ter visto ou ouvido algo, e depois se provou que não era assim.
Com o desenho na mão, aponte o degrau exato: foi o olho que falhou, ou foi um passo seguinte? A resposta muda o que você faz na próxima vez.
Falta uma última coisa, e é justamente ela que impede o mal-entendido mais comum sobre esta disciplina. É o assunto da Aula 5.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 5Por que isto não faz de você um empirista
Quem chegou até aqui pode ter uma suspeita legítima. «Tudo entra pelos sentidos, nada há no intelecto que não tenha vindo de fora, o corpo é a estrada» — não é isso quase palavra por palavra o que Locke e Hume disseram? Será que este curso não acabou de assinar embaixo do empirismoA escola que faz todo o conhecimento nascer da experiência sensível, sem admitir uma operação de outra ordem. inglês sem perceber?
A resposta é não. Mas a diferença não é a que costuma ser dita, então vale desmontar primeiro a versão fácil, e só depois mostrar a diferença de verdade.
O que o empirismo não diz
A versão fácil é: o empirista acharia que a mente só recebe passivamente, e nós acharíamos que a mente também trabalha. Confortável de dizer, mas falsa — um aluno que já leu o Ensaio de Locke desmonta isso em dez segundos.
Locke tem duas fontes de ideias, não uma: a sensação e a reflexãoVoltar-se sobre o próprio ato: em vez de olhar para a coisa, olhar para o ato de conhecer que acabou de acontecer., e atribui à mente comparar, compor e abstrairTirar da imagem de uma coisa concreta aquilo que vale para todas as da mesma espécie. Cuidado: no sentido antigo é colher, e não apagar.. O próprio Soriano, que refuta essa escola, registra sem hesitar que ela admite «as operações intellectuaes, reflexão, abstracção e raciocínio». E Hume não nega atividade mental nenhuma: o que ele nega é a existência de uma conexão necessária entre causa e efeito.
Sanguineti descreve os dois com precisão, e é dele a frase que fecha a questão:
Onde a separação acontece
Aí está a diferença de verdade — e não é questão de quantidade de trabalho mental. É questão do que esse trabalho consegue produzir. Comparar, compor, dividir, associar — tudo isso trabalha sobre imagens e devolve imagens, mais finas e organizadas, mas do mesmo gênero. Uma elaboração refinada da percepção continua sendo percepção.
Esta tradição afirma uma operação a mais, de outra ordem inteiramente. Ela está no artigo imediatamente anterior ao que já lemos na Aula 2:
Leia devagar, prestando atenção nesta expressão: a matéria da causa. O sentido entrega só o material bruto — e material bruto não é a coisa toda, pronta. Falta algo que trabalhe sobre ele. E o que trabalha é o que Tomás chama, logo em seguida, de lume do intelecto agenteA parte da inteligência que trabalha, em vez de receber. É ela que ilumina a imagem e tira dali o que serve para todos os casos.: «é necessário o lume do intelecto agente para que conheçamos, imutavelmente, a verdade, nas coisas mutáveis, e discernamos as coisas mesmas, das suas semelhanças».
Lume — essa palavra marca a fronteira exata entre as duas posições. O empirista concede várias operações à mente, mas nenhuma delas produz luz nesse sentido técnico — nenhuma retira de dentro de uma imagem particular um universalO que vale para todos os casos de uma espécie. «Homem» é universal; «este homem» não é. em ato. Aqui concede-se essa operação a mais, e é ela que faz o conceito nascer de verdade. Os sentidos dão a matéria; o intelecto dá a luz. Sem a primeira, não há o que entender; sem a segunda, o material continua sendo só material bruto.
O preço de Hume
O caso de Hume mostra o que acontece a quem não concede essa operação. Sanguineti resume: as ideias de substância, sujeito pensante, causa e lei física perdem validade racional em Hume, e a expectativa de que o futuro se pareça com o passado vira mero hábito psíquico. Hume não parou a mente — o que acontece é que, sem uma operação de outra ordem, essa mente não tem como chegar ao necessário.
A frase brasileira, e o que ela resolve
Falta uma última consequência, e é a mais importante das três.
Se as ideias entram pelos sentidos, surge a pergunta: o que se conhece, afinal — a coisa lá fora, ou a impressão dela cá dentro? Parece escolar, mas não é. A resposta errada abre a porta para o idealismo moderno, e daí se cai no ceticismo por consequência quase automática: se o que conheço é minha própria representação, nunca saio de mim, e o mundo vira hipótese não comprovada.
Soriano resolveu isso em português, já em 1871, numa frase:
Ou seja: quando você vê a cor e sente o peso de algo, você não conhece primeiro a cor e o peso para depois deduzir que existe uma coisa por baixo. Você está conhecendo a própria coisa, através da cor e do peso. A ideia não é aquilo que se conhece; é aquilo pelo que se conhece a coisa.
Essa distinção é tão decisiva que ganhou uma disciplina inteira só para ela, a terceira deste bloco. Aqui basta ter visto de onde ela nasce.
Imagine que alguém lhe diga que aprendeu tudo sozinho, só pensando por conta própria. Sem discutir com essa pessoa, faça a conta por dentro: de onde vieram, afinal, as palavras com que ela pensou tudo isso?
Agora faça a mesma conta consigo — mais difícil, e mais útil.
Gostaria de ter uma aula particular sobre este tema com o professor Thácio Siqueira?
Aula particular — R$ 180/horaSínteseO que estas cinco aulas eram, juntas
Síntese não é resumo. Resumo é a mesma lista, mais curta. Síntese é o momento em que as partes aparecem articuladas como uma coisa só — e é isso que a palavra contemplação significa aqui: não uma atmosfera vaga, mas uma capacidade que se ganha com esforço.
Então: o que aconteceu, no fundo, ao longo destas cinco aulas?
Começamos com uma frase de sete palavras em latim, que foi ficando mais rica a cada aula. Na Aula 1, ela fechava duas portas: você não nasce sabendo, e não existe olho interior. Na Aula 2, deixou de ser só sobre a origem e passou a ser sobre o funcionamento permanente — o conhecimento continua precisando dos sentidos a cada ato de entender. Na Aula 3, virou uma máquina com nove peças, quatro das quais ninguém aprende na escola. Na Aula 4, sobreviveu à objeção que ameaçava derrubá-la, e mostrou onde o erro realmente se aloja. E na Aula 5, mostrou que não é bem o que parecia: a mesma fórmula que o empirismo usa significa outra coisa aqui, porque falta metade da explicação do lado empirista.
O que fica valendo
Ficam três lições, todas voltam mais adiante no curso. A primeira é uma regra de leitura de si mesmo: você não tem acesso direto à própria alma. A introspecção também passa por imagem, memória e juízo, e está sujeita aos mesmos enganos de qualquer outro conhecimento. Isso não torna o autoconhecimento impossível — torna-o um trabalho, com método próprio. É a matéria da quinta disciplina deste bloco.
A segunda diz onde procurar o erro. O sentido não mente; quem mente é o juízo. Sempre que alguém disser «eu vi com meus próprios olhos» para justificar uma leitura torta da própria história, a resposta é que os olhos provavelmente viram certo, e o problema está uns três degraus adiante. Isso é primeiro uma questão filosófica, e só depois moral.
E a terceira é uma cautela contra a própria tradição. Nesta disciplina, o manual da casa errou num ponto, e um autor da mesma escola admitiu que os antigos se enganaram por falta de física. As duas coisas ficaram registradas com honestidade. Este curso tem posição própria e a declara, mas não existe para vencer discussão — e, quando a tradição erra, a aula diz que errou.
O fechamento
O fechamento é um fichamento: escreva, com suas palavras e citando a fonte, o que você entendeu de I, q. 84, a. 7 — e diga onde, na sua própria vida, já usou a distinção da Aula 4 sem saber que tinha nome.
ProvaCinco perguntas antes de seguir
Não é para pegar ninguém: cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quem acerta quatro das cinco destranca a disciplina seguinte na Sala de Aula. Quem não acertar volta às aulas que as explicações apontarem e refaz, quantas vezes quiser.
Ementa
A origem sensível de todo conhecimento
- Código
- STAN 001
- Bloco
- 1 — Gnoseologia
- Aulas
- 5 e uma síntese
- Narração
- 52 min
- Pré-requisito
- Nenhum
- Regime
- Sem prazo
O que a disciplina trata
O princípio de que nada está no intelecto que não tenha estado primeiro nos sentidos, e o que ele obriga. A dependência do intelecto humano em relação ao corpo, verificada pelo que acontece quando um órgão adoece. Os cinco sentidos externos e os quatro internos: senso comum, imaginação, cogitativa (a razão particular) e memória.
A infalibilidade do sentido próprio quanto ao seu objeto próprio, e os dois lugares por onde o erro entra: o sensível por acidente e o juízo. A separação entre esta tese e o empirismo moderno, que parte da mesma frase e chega a outro lugar.
Objetivo
Levar o aluno a sustentar, com o texto na mão, que todo conhecimento humano começa nos sentidos sem que isso reduza o conhecimento à sensação.
Metas — o que o aluno sai sabendo fazer
Conteúdo programático
- Aula 1De onde veio isso que você sabe
- Aula 2O corpo é a estrada, e não o obstáculo
- Aula 3Cinco sentidos por fora, quatro por dentro
- Aula 4O olho não erra
- Aula 5Por que isto não faz de você um empirista
- SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas
Como a disciplina funciona
Cada aula é um texto e a mesma coisa narrada em voz, para quem prefere ouvir; a velocidade da voz é escolhida pelo aluno. As aulas abrem em ordem, e a seguinte destranca quando ele chega na anterior. O que se explica melhor desenhado do que dito vem em esquema. Ao fim de cada aula há um exercício que pede a aplicação do que se acabou de ler a um caso do próprio aluno. A síntese fecha a disciplina e traz o fichamento, que é a página que fica depois de esquecido o resto.
A disciplina inteira pode ser baixada em PDF pelo botão no alto da página, com os esquemas e as fontes.
Verificação
A verificação tem três peças, e nenhuma delas dá nota. O exercício ao fim de cada aula, que só se responde aplicando a distinção a um caso concreto. O fichamento da síntese. E a prova de cinco perguntas que fecha a disciplina: quem acerta quatro abre a disciplina seguinte na Sala de Aula, e quem não acertar refaz quantas vezes quiser, porque cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quando o exercício não sai com as palavras do aluno, o sinal é de reler a aula antes de seguir.
Bibliografia básica
- ARISTÓTELES. Sobre a Alma, III, 7 (431a16). Tradução inglesa de W. A. Hammond. Londres, 1902.Citado pela tradução inglesa; o latim confere.
- TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 78, a. 4; q. 84, a. 6 e a. 7. Tradução de Alexandre Correia.Base das aulas 2, 3 e 4. Citada sempre por questão e artigo, para conferir em qualquer edição.
- SOUZA, José Soriano de. Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral. Recife, 1871. Lição XXX, § 37; Lição XXXI, § 47.O primeiro manual tomista escrito em português.
- GREDT, Joseph. De cognitione sensuum externorum. Roma: Desclée, 1913. nn. 53, 54 (escólio 1) e 55.O n. 55 é a formulação operacional do princípio da infalibilidade.
Bibliografia complementar
- MAHER, Michael. Psychology: Empirical and Rational. Londres: Longmans, 1908.Manual de psicologia escolástica em inglês; útil para quem quiser o mesmo assunto tratado mais devagar.
- GILSON, Étienne. Thomist Realism and the Critique of Knowledge. Trad. Mark A. Wauck. San Francisco: Ignatius Press, 1986.Original: Réalisme thomiste et critique de la connaissance, Vrin, 1939. Sobre o que se compromete quem faz do conhecimento o ponto de partida da filosofia.
- SANGUINETI, Juan José. Introduzione alla gnoseologia. Roma: EDUSC, 2008 (1.ª ed. Le Monnier, Florença, 2003). Cap. 2, «La sensibilità».Manual contemporâneo da mesma tradição, usado no curso de gnoseologia do Ateneo Pontificio Regina Apostolorum. O capítulo 2 trata a sensibilidade em conversa com a psicologia e a ciência cognitiva de hoje.
- FABRO, Cornelio. La fenomenologia della percezione. In: Opere Complete, vol. 5, a cura di Christian Ferraro. EDIVI, 2006 (1.ª ed. Vita e Pensiero, Milão, 1941).Quinhentas páginas sobre a percepção, e é o lugar onde Fabro sustenta que os primeiros princípios apenas sancionam, na ordem dos valores, o que já consta na apresentação imediata dos objetos.
De onde veio cada frase
A voz antiga aparece em serifa, sempre com a referência ao lado. Onde a passagem para o português é nossa, está dito na própria referência.
Onde ler a fonte, de graça
Estas obras estão em domínio público e podem ser lidas ou baixadas inteiras.
- Suma Teológica I, qq. 84-89, em latim (edição Leonina) → Corpus Thomisticum
- Aristóteles, De Anima, na tradução de Hammond → Internet Archive
- Gredt, De cognitione sensuum externorum → Internet Archive · em latim
- Maher, Psychology: Empirical and Rational → Internet Archive · edição de 1903, com paginação diferente da de 1908