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O fantasma e a abstração

STAN 002 · Bloco 1 — Gnoseologia

Você viu este cão, depois aquele, depois mais um, e ficou sabendo o que é um cão. Nenhum animal dá esse passo. Esta disciplina mostra como ele se dá, e por que ficar com a ideia não é esquecer os cães que você viu.

Aula 1A palavra que você aprendeu ao contrário

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Se você estudou em escola brasileira, é bem provável que tenha aprendido a palavra «abstrato» mais ou menos assim: abstrato é o oposto de concreto, é aquilo que é vago, difuso, que você não consegue segurar na mão nem apontar com o dedo. E, junto com essa ideia, você aprendeu — mesmo sem perceber que estava aprendendo uma teoria inteira — que «abstrairTirar da imagem de uma coisa concreta aquilo que vale para todas as da mesma espécie. Cuidado: no sentido antigo é colher, e não apagar.» funciona como uma espécie de subtração. Pense assim: você está diante de uma cadeira de verdade, com sua cor, seu tamanho, seu tipo de madeira. Aí você vai tirando: tira a cor, tira o tamanho, tira o material. O que sobra, depois de você ter tirado tudo isso, seria o "conceito puro" de cadeira — uma espécie de casca vazia que ficou depois da poda.

Pois bem: se você carregar essa ideia de subtração para dentro desta disciplina, vai acabar entendendo tudo o que vem a seguir de cabeça para baixo, como quem lê um mapa ao contrário. E não é culpa sua — ninguém nasce sabendo que a palavra mudou de sentido ao longo da história. O que aconteceu foi que, em algum momento, o sentido moderno (o de "vago", "impreciso") passou a dominar e empurrou o sentido antigo para escanteio. Quem marca esse ponto de virada, mais adiante nesta mesma aula, é o próprio Maher — e ele está apontando uma mudança histórica, uma data, e não apontando o dedo para um culpado.

Michael Maher, jesuíta inglês, deixou esse aviso registrado numa nota de rodapé de 1908 — quase como quem avisa o leitor futuro: "cuidado aqui, essa palavra vai te enganar":

«Os escolásticos empregavam as palavras abstração e abstrair na significação inversa daquela que prevaleceu desde Kant. Nos autores modernos, a abstração intelectual significa primariamente ignorar ou omitir os atributos a que não se atende; entre os escolásticos, entendia-se que ela significava primariamente o lado positivo da operação. […] Um processo de abstração, portanto, antigamente significava tomar alguma coisa; hoje significaria negligenciar alguma coisaMichael Maher, Psychology: Empirical and Rational, Londres, 1908, cap. XIV, nota 31, p. 307 — «…formerly signified the taking up of something; now it would signify the neglect of something». A passagem para o português é nossa.
A mesma palavra, girada porque abstrair quer dizer hoje o contrário do que queria dizer séc. XIII hoje Kant abstrahere — tirar de dentro e levar consigo o intelecto ganha o que a imagem tinha escondido abstrair — deixar de fora, esvaziar o conceito perde o que a coisa tinha
Uma palavra, dois sentidos contrários. Kant está no meio do caminho entre um e outro. Quem lê um texto escolástico com o dicionário moderno na cabeça entende exatamente o inverso do que está escrito — e não percebe, porque a palavra é a mesma.

Vamos direto ao ponto que muda tudo. Para o moderno, abstrair é apagar; para esta tradição, abstrair é colher. Repare bem na diferença entre as duas imagens: apagar é ir riscando, tirando, subtraindo — como um escultor que lasca a pedra até sobrar uma forma vaga, meio fantasmagórica. Não é isso que a tradição escolástica quer dizer. Você não pega uma cadeira e vai riscando propriedades até sobrar um fantasmaA imagem que fica na cabeça depois de os sentidos terem trabalhado — o retrato interno de uma coisa concreta. Não tem nada de assombração: é o termo técnico para a imagem sensível guardada. pálido, meio apagado, meio sem vida. O que acontece é outra coisa completamente diferente: você olha para esta cadeira aqui, concreta, com todos os seus detalhes, e retira dela — como quem colhe um fruto de uma árvore — algo que já estava lá dentro, algo que é até mais real do que a cor que você vê: a natureza «cadeira», aquilo que faz uma cadeira ser cadeira e não mesa, e que existe tanto nesta cadeira quanto existiria em qualquer outra cadeira do mundo.

Fica então a frase que resume tudo, e que vale muito a pena guardar de cor: o conceito não é o resto que sobra depois de uma perda. O conceito é o achado — é aquilo que você ganhou, e não aquilo que sobrou depois de você ter perdido tudo o mais.

Agora vamos combinar uma coisa importante, porque ela vai valer para o resto da disciplina inteira. Mais adiante você vai ler frases do tipo: abstrair «larga» a matéria, ou o entendimento «separa» o que na realidade está junto. Ao ler isso, você pode se assustar e pensar: "opa, agora sim está falando de apagar, de subtrair". Calma — não é contradição nenhuma do que acabamos de ver. Colher e largar são, na verdade, a mesma operação vista por dois ângulos diferentes, como duas fotos do mesmo evento tiradas de lados opostos. Colher é o lado positivo: é o que acontece com a natureza, é o que o intelecto ganha, é o que ele passa a ter em mãos. Largar, aqui, nunca quer dizer apagar, nem negar, nem fingir que algo não existe: quer dizer apenas não levar aquilo em conta naquele momento. Pense assim: quando você forma o conceito de "cadeira", o individual — esta cadeira específica, com este arranhão na perna — não é riscado nem apagado da realidade; ele simplesmente fica de fora do conceito, porque o conceito nunca precisou dele para funcionar. É exatamente a mesma distinção que a Aula 4 vai batizar com nome e sobrenome — a diferença entre não falar de uma coisa e negá-la —, só que aqui ela já aparece, silenciosamente, dentro do próprio significado da palavra «abstração».

«L'astrazione è l'operazione intellettiva di separare e di afferrare un contenuto intelligibile a partire dall'esperienza.» Juan José Sanguineti, Introduzione alla gnoseologia, EDUSC, Roma, 2008, cap. 3, «La comprensione concettuale», § 2, p. 88 — «A abstração é a operação intelectiva de separar e de agarrar um conteúdo inteligível a partir da experiência.» (trad. nossa do italiano)

Repare no verbo que Sanguineti escolhe: afferrare, agarrar, segurar com força — não «esvaziar», não «reduzir». É o mesmo colher desta aula, escrito mais de um século depois de Soriano, por um professor de gnoseologia do próprio Ateneo Pontifício onde este curso se formou. A tradição não parou em 1871: continua dizendo a mesma coisa, com a mesma força.

Para fixar essa virada de sentido, vale a pena olhar para frases que você mesmo já usou no dia a dia, sem nunca ter parado para pensar nelas filosoficamente. Primeiro exemplo: «Arte abstrata». Quando alguém olha para um quadro e diz "isso é abstrato", está querendo dizer que aquele quadro não é retrato de coisa nenhuma — não tem uma pessoa, uma paisagem, um objeto reconhecível ali. É puro vazio de referência. Esse é o sentido moderno em estado puro. Segundo exemplo: «Isso é muito abstrato», dito sobre uma explicação chata e sem gancho com a realidade. Aqui a pessoa está dizendo que a explicação não desce a nenhum caso concreto, fica flutuando no ar, não dá para agarrar com as mãos — de novo, sentido moderno. Terceiro exemplo, direto da aula de português: «Substantivo abstrato». Palavras como «beleza», «coragem», «liberdade» — coisas que você não consegue tocar nem apontar com o dedo. Esse uso também é moderno, e note bem: ele não está errado dentro do seu próprio universo. A gramática escolar não cometeu erro nenhum; ela simplesmente fala uma língua diferente da que Tomás de Aquino falava. São dois dicionários diferentes usando a mesma palavra.

Antes de seguir

Agora é a sua vez de treinar o ouvido. Para cada frase abaixo, diga se «abstrato» está sendo usado no sentido escolástico (colhido, retirado de dentro da coisa) ou no sentido moderno (vago, sem referência concreta):

1. «O pesquisador abstraiu, de centenas de casos, o padrão que se repetia em todos.» 2. «Não gostei do quadro, é abstrato demais, não dá pra saber o que é.» 3. «Explica isso de um jeito menos abstrato — me dá um exemplo concreto.»

Vamos conferir juntos. A primeira frase é o sentido colhido: o pesquisador tirou de dentro dos casos particulares algo que valia para todos eles — exatamente a operação que estudamos até aqui. As outras duas são modernas: a segunda fala de um vazio de referência (o quadro não representa nada reconhecível), e a terceira pede uma distância menor entre a explicação e um caso concreto. Percebeu como é a mesma palavra fazendo dois trabalhos completamente diferentes? Só o contexto da frase diz qual dos dois sentidos está em jogo — e é justamente por isso que ler um texto antigo sem saber dessa troca de sentido é a receita certa para o mal-entendido.

Na Aula 2 vamos entender por que essa operação de abstrair não é um luxo nem um capricho, mas sim uma necessidade — e por que ela é, especificamente, a operação de um tipo de ser que não é nem bicho nem anjo. Já adianto: esse "ser no meio" é você.

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Aula 2A posição média

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Comece pensando num cachorro. Ele reconhece perfeitamente o dono, reconhece a coleira, sabe a hora do passeio de cor — e nunca, em toda a sua vida canina, precisou formar um único conceito abstrato para viver tudo isso. Ele vive muito bem sem abstrair. Agora vá para o outro extremo: um anjo, segundo esta tradição, também não abstrai — só que, ao contrário do cachorro, ele vive melhor ainda, porque conhece de um jeito mais elevado do que nós.

E nós, seres humanos, ficamos exatamente no meio dessas duas pontas. Nós precisamos abstrair. Abstrair é o trabalho de quem está no meio do caminho — nem puro instinto animal, nem pura intuição angélica — e vale a pena perguntar, com calma, por que é assim.

Tomás de Aquino monta esse argumento como uma escada de três degraus, e o corrimão que sustenta essa escada inteira é o mesmo princípio que já apareceu na disciplina anterior: o objeto conhecível se proporciona à potênciaA capacidade de vir a ser ou de vir a fazer alguma coisa, antes de a fazer. A semente tem em potência a árvore. que conhece. Em outras palavras: o tipo de coisa que você consegue conhecer depende diretamente do tipo de "ferramenta de conhecer" que você tem.

«Há uma virtude cognoscitiva que é ato de órgão corpóreo, a saber, do sentido. […] Forçosamente toda potência da parte sensitiva é cognoscitiva só do particular. — Há, porém, outra virtude cognoscitiva que nem é ato de órgão corpóreo, nem está, de qualquer modo, conjunta com a matéria corpórea, como o intelecto dos anjos. […] — O intelecto humano, porém, ocupa uma posição média.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, Solução · trad. Alexandre Correia

Vamos ao primeiro degrau. Cada tipo de conhecimento consegue alcançar uma coisa e fica impedido de alcançar outra — como uma ferramenta que serve para um trabalho e não serve para outro. O sentido (a visão, o tato, o olfato) é atoO que já está acontecendo, em oposição ao que apenas pode acontecer. A árvore crescida é ato; a semente era potência. de um órgão do corpo, e todo órgão é feito de matéria. Como a matéria é justamente aquilo que faz uma coisa ser esta coisa aqui e não outra qualquer, tudo o que o sentido consegue alcançar é sempre individual, sempre particular. Pense bem: o seu olho vê esta cor específica, aqui, agora — ele nunca vê "a cor" em geral, como ideia. Agora vá para o outro extremo da escada: o anjo. Ele não tem olho, não tem nenhum órgão, não está preso a corpo nenhum. O que ele conhece é a forma que existe sem precisar de matéria nenhuma para sustentá-la, e é justamente por já estar dentro desse mundo imaterial que ele consegue, de lá de cima, enxergar também o que é material.

E nós ficamos exatamente no meio dessa escada. Lembre da regra: o objeto se proporciona à potência que conhece. A nossa capacidade de conhecer — o nosso intelecto — não depende de nenhum órgão físico para funcionar, e nisso ele se parece com o anjo. Mas essa mesma capacidade pertence a uma alma que é forma de um corpo, que está unida a um corpo — e nisso ele não se parece nada com o anjo. Junte as duas peças e a conclusão aparece sozinha: o que nos é próprio conhecer não pode ser a forma totalmente solta de qualquer matéria — isso é reservado ao anjo —, mas também não pode ser a forma grudada nesta matéria específica — isso é o que o sentido faz. Tem que ser outra coisa: a forma que existe dentro desta matéria aqui, mas que é conhecida por nós sem ficar presa a ela. É exatamente essa ideia que Tomás escreve, com todas as letras:

«É-lhe próprio conhecer a forma, existente, por certo, individualmente, na matéria corpórea, mas não enquanto existente em tal matéria. Pois, conhecer aquilo que existe na matéria individual, mas não enquanto está em tal matéria, é abstrair a forma, da matéria individual, representada pelos fantasmas.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, Solução
Nem bicho nem anjo porque o sentido não larga o órgão, e o anjo não parte da matéria o sentido o homem o anjo preso ao órgão sem matéria só aqui existe abstração Quem não larga o órgão não abstrai; quem nunca começou pela matéria não precisa. A abstração é a forma de um lugar só.
Nem bicho nem anjo. O sentido não abstrai porque não pode largar o órgão; o anjo não abstrai porque não precisa começar da matéria. Chamar-lhe defeito da inteligência humana, ou privilégio dela, é errar dos dois lados. A abstração é a forma exata da posição que ela ocupa.

No fim do artigo, Tomás faz questão de nomear quem, na história da filosofia, errou por não enxergar essa posição do meio. Platão, diz ele, «atendendo só à imaterialidade do intelecto humano e não ao fato de estar unido, de certo modo, a um corpo, disse que o objeto do intelecto são as ideias separadas». Traduzindo para uma imagem mais simples: Platão enxergou muito bem o topo da escada — a parte imaterial da nossa inteligência — mas esqueceu de olhar para baixo e ver que os nossos pés continuam bem plantados no chão, presos a um corpo.

Antes de seguir

Agora é a sua vez de fazer um pequeno experimento mental. Tente pensar numa cadeira que não tenha cor nenhuma, nem tamanho nenhum, nem seja feita de material nenhum. Tente de verdade — feche os olhos, se precisar, e dê a si mesmo uns dez segundos de esforço honesto.

Não conseguiu, certo? É impossível — sua imaginação sempre vai te entregar uma cadeira com alguma cor, algum tamanho, algum material, por mais vagos que sejam. E, no entanto, aqui está o ponto curioso: você sabe perfeitamente o que é uma cadeira, e esse saber vale igualmente para todas as cadeiras que existem ou vierem a existir. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo — você não consegue imaginar sem particularizar, mas consegue entender de modo universal.

E aqui chegamos à parte mais difícil de engolir. A imagem que a sua imaginação guarda é particular e material — é desta cadeira, com esta cor. Já o conceito é universalO que vale para todos os casos de uma espécie. «Homem» é universal; «este homem» não é. e imaterial — vale para todas as cadeiras, sem cor nenhuma grudada nele. A pergunta que fica no ar é: como é que uma coisa se transforma na outra? Como uma imagem particular dá origem a um conceito universal? Essa resposta tem um nome técnico, e é sobre ele que trata a Aula 3.

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Aula 3A luz que cai sobre a imagem

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Existe um degrau, bem no meio deste caminho que estamos percorrendo, que parece impossível de subir. Antes de resolvê-lo, vale a pena sentir bem o tamanho do problema — não pular direto para a solução. Tente formular você mesmo, com suas próprias palavras: a imagem que você tem de uma cadeira é desta cadeira específica, com esta cor, este tamanho. O conceito de cadeira, por outro lado, vale para todas elas, sem exceção. Como é que a primeira coisa dá origem à segunda, se — como diz o bom senso — ninguém dá aquilo que não tem?

Vamos separar bem as duas peças do problema. A imagem guardada na imaginação é uma coisa material: ela mora dentro de um órgão do corpo, é uma semelhança de um indivíduo específico, tem tamanho, tem cor. Já o conceito é uma coisa imaterial: ele não é desta cadeira nem daquela, vale para todas ao mesmo tempo, e não carrega cor nenhuma grudada nele. Agora aplique um princípio bem simples: o inferior não produz o superior — uma coisa mais limitada não pode, sozinha, gerar algo mais elevado do que ela mesma. Então como é que a imagem, sozinha, conseguiria fazer nascer o conceito?

A resposta curta é: não consegue, sozinha. Tomás é bem explícito sobre isso:

«Os fantasmas, sendo semelhanças de indivíduos, e existindo em órgãos corpóreos, não têm o mesmo modo de existir que tem o intelecto humano […] e, portanto, não podem, pela sua virtude, imprimir nada no intelecto possível.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, resposta à terceira objeção

Soriano, escrevendo em português já em 1871, diz exatamente a mesma coisa, e ainda acrescenta a regra geral que está por trás disso:

«Como sensivel e material que é, não póde a imagem sensível se unir ao entendimento […] Mister é portanto que seja depurada das condições individuaes que a determinão.» José Soriano de Souza, Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral, Pernambuco, 1871, Lição XXXIV, § 82
«Depurar» é palavra de quem tira. Fique atento a ela, porque vai reaparecer. Depurar soa a filtrar, a expurgar, a ficar com menos do que se tinha — e é exatamente o vocabulário que a Aula 1 avisou que ia soar assim sem deixar de ser verdadeiro. O que Soriano está descrevendo é a imagem perdendo o direito de trazer consigo estas condições individuais para dentro do conceito — não a coisa perdendo cor, tamanho ou matéria. O que fica depurado é a via de acesso, não o achado.

Então falta uma peça: um agente, alguém que faça o trabalho de passar da imagem particular para o conceito universal. E o nome técnico dessa peça é intelecto agenteA atividade da inteligência que trabalha, em vez de receber. É ela que ilumina a imagem e tira dali o que serve para todos os casos. — provavelmente uma das ideias mais mal compreendidas de toda essa tradição, porque o próprio nome engana: parece sugerir que existe um segundo personagem, um segundo sujeito, morando dentro da sua cabeça. E não é nada disso.

«Essa força ou faculdade, a que os antigos philosophos chamavão entendimento activo, intellectus agens […] é em abstracto actividade intellectualSoriano de Souza, Lições, Lição XXXVI, § 101

Esqueça a imagem de um homenzinho escondido dentro do seu cérebro fazendo esse trabalho. O intelecto agente é, na verdade, a própria atividade da sua inteligência — só que olhada pelo lado em que ela age, em vez de pelo lado em que ela recebe. E o que essa atividade faz com a imagem guardada na imaginação, Tomás descreve com uma metáfora tão boa que vale a aula inteira sozinha:

«Os fantasmas são iluminados pelo intelecto agente; e, depois, por virtude desse mesmo intelecto, as espécies inteligíveis são abstraídas deles. […] Os fantasmas, por virtude do intelecto agente, tornam-se aptos para que sejam deles abstraídas as intenções inteligíveis.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, resposta à quarta objeção
A luz não é um terceiro objeto porque sem ela não se veria nada, e mesmo assim não é para ela que se olha O intelecto agente A imagem A espécie particular, num órgão universal, no intelecto «Os fantasmas são iluminados pelo intelecto agente» Tomás, Suma I, q. 85, a. 1, resposta à quarta objeção A imagem sozinha não imprime nada no intelecto — ela é material, e ele não. A luz é que a torna apta a ser lida.
A luz não é um terceiro objeto. Quando você lê um livro, não está olhando para a luz da sala — e no entanto sem ela não leria nada. O intelecto agente está para o conceito como a luz está para a leitura: torna visível sem nunca ser aquilo que se vê. E a mesma imagem que estava lá antes é a que fica depois; o que mudou foi que agora ela pode ser lida.

A metáfora da luz é excelente, mas carrega um risco de mal-entendido: ela pode sugerir que existe, dentro de você, um segundo sujeito que fica ali iluminando as coisas para que um primeiro sujeito as veja — como se houvesse duas pessoas dentro da sua cabeça, uma acendendo a lanterna e outra olhando. Não existe esse segundo sujeito, e a tradição fecha essa porta com duas afirmações que, curiosamente, quase nunca são citadas juntas — e que, juntas, resolvem o mal-entendido de uma vez.

A primeira afirmação: o intelecto agente não entende nada. Michael Maher é direto ao dizer isso, sem rodeios nem meio-termo:

«O intellectus agens deve ser concebido como instintivo ou cego; a sua ação «abstrativa» é produtiva de inteligência, mas não é ela mesma formalmente inteligenteMichael Maher, Psychology: Empirical and Rational, Londres, 1908, cap. XIV — «must be conceived as instinctive or blind; its «abstractive» action is productive of intelligence, not formally intelligent itself». Passagem nossa.

A segunda afirmação: quem de fato entende é o intelecto possívelA capacidade da inteligência que recebe e guarda o que a outra produziu. Chama-se possível porque começa vazia e pode vir a ter. — aquela capacidade da mente de ser modificada, de "ganhar forma", de modo a passar a exprimir a essência da coisa dentro de um conceito. Junte as duas peças: o lado ativo (que ilumina) é cego, não compreende nada; e o lado que de fato compreende é o lado que recebe. Não são dois sujeitos discutindo dentro da sua cabeça — são duas faces de uma única e mesma operação, como as duas mãos de uma mesma pessoa fazendo um trabalho em conjunto.

Vale explicar por que esse lado ativo precisa existir, porque não é capricho de filósofo que gosta de multiplicar peças. O motivo é simples: ninguém dá o que não tem, e nada puramente material contém dentro de si, pronto para dar, aquilo que é puramente espiritual. Como a imagem guardada na imaginação é material e o conceito é imaterial, precisa haver algo que faça essa ponte — e é exatamente esse "algo" que a peça do intelecto agente resolve.

O resultado desse trabalho, que fica guardado no intelecto possível, não é uma cópia fotográfica da imagem — não é como tirar um print da imaginação. É uma semelhança que representa a coisa quanto à sua natureza, quanto ao que ela é por dentro. A esse resultado a tradição dá o nome técnico de espécieNão é «tipo» nem «categoria». Aqui é o nome técnico da forma da coisa tal como ela fica dentro de quem conhece — aquilo por meio do qual você conhece a laranja, e não uma segunda laranja dentro da cabeça. inteligível.

Antes de seguir

Aqui vai um exercício para sentir a metáfora na pele, não só entender ela na cabeça. Você está lendo esta página graças à luz que ilumina o texto — mas, enquanto lê, você não fica olhando para a luz em si; ela simplesmente faz o trabalho dela em segundo plano. Agora procure, no seu próprio dia a dia, outra coisa que funcione desse mesmo jeito: algo que faz acontecer, sem ser aquilo em que você repara diretamente.

Um exemplo: os óculos de quem os usa há muitos anos — a pessoa enxerga através deles o dia inteiro e quase esquece que eles estão ali. Outro exemplo: a língua em que você pensa — você usa as palavras para pensar, mas raramente para de pensar sobre as palavras enquanto pensa. Agora tente achar um terceiro exemplo, seu, tirado da sua própria vida.

Fica ainda uma última objeção — e é a mais séria de todas. Se abstrair é considerar uma coisa separada daquilo que, na realidade, está junto com ela, então será que abstrair não é, no fundo, ver o que não existe? E ver o que não existe, do jeito que existe, não seria simplesmente mentir?

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Aula 4Abstrair não é mentir

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Imagine a cena: um professor de anatomia está diante da turma e mostra o desenho de um coração pendurado na parede. Aquele coração desenhado não é de ninguém em particular — ele não bate, não tem dono, não está dentro do peito de nenhuma pessoa real. E, mesmo assim, é exatamente através daquele desenho que a turma inteira vai aprender o que é, de fato, um coração.

Não bate, não tem dono, não está em peito nenhum. E é dele que a turma aprende o que é um coração — que é exatamente o que esta aula tem de explicar.

Alguém na turma poderia levantar a mão e fazer uma objeção — e essa objeção é antiga, limpa e nada boba: "professor, aquilo que o senhor desenhou não existe". De fato, na realidade concreta, não existe cor sem um corpo colorido que a carregue, nem existe humanidade sem que ela esteja encarnada neste homem específico aqui. Então, se o intelecto separa em pensamento o que na realidade está sempre junto, ele estaria representando as coisas de um jeito que não corresponde a como elas realmente são. E representar algo de um jeito diferente do que ele é tem um nome bem conhecido: falsidade.

Soriano formula exatamente a definição que torna essa objeção praticamente inevitável — e, logo na frase seguinte, já entrega a resposta:

«A abstracção define-se a operação pela qual o entendimento separa mentalmente cousas que na realidade existem inseparaveis […] porque de fato na abstracção não ha verdade nem erro.» Soriano de Souza, Lições, Lição XXXVI, § 104. O adágio latino que ele imprime entre as duas frases é abstrahentium non est mendacium — «não há mentira em quem abstrai» —, e ele o atribui aos antigos, sem dar autor. É lugar-comum da escola, e não frase de um livro só.
A frase que Soriano escreveu é perigosa, e é o próprio Soriano quem a desarma. «Separa mentalmente cousas que na realidade existem inseparaveis» é, lida sozinha, a descrição exata do que a objeção acusa: cortar em dois o que estava inteiro. É essa frase, e nenhuma outra, que torna a objeção inevitável. Mas Soriano não parou aí — na mesma sentença, sem pausa, ele já emenda que «na abstracção não ha verdade nem erro» e chama o adágio antigo para testemunhar. A tensão não é nossa: está dentro da frase dele, e ele mesmo resolve. O resto desta aula é mostrar, com Tomás, por que ele tinha razão nos dois pontos.

Mas afinal, por que não há falsidade nenhuma nisso? Tomás distingue com muito cuidado dois modos diferentes de separar uma coisa de outra dentro do pensamento — e é essencial não confundir os dois. No primeiro modo, você afirma explicitamente que uma coisa está sem a outra, ou que uma está separada da outra — e aí, sim, você pode estar mentindo, dependendo do caso. No segundo modo, você simplesmente considera uma coisa sem falar da outra, sem entrar nesse assunto — e aí você não afirmou nem negou absolutamente nada a respeito dela. É essa a distinção que ele escreve, com precisão cirúrgica:

«De dois modos se pode abstrair. De um modo, compondo e dividindo; assim, quando inteligimos que uma coisa não está em outra ou está separada desta. De outro, considerando simples e absolutamente; assim, quando inteligimos uma coisa sem considerar nada de outra.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, resposta à primeira objeção

E aqui vem o exemplo que resolve o problema inteiro de uma vez, de um jeito quase óbvio quando você vê. Se eu disser que a cor não está no pomo, ou que ela está separada dele, aí sim eu menti — porque afirmei algo falso sobre a relação entre a cor e o pomo. Mas se eu simplesmente considerar a cor e as propriedades dela, sem falar nada sobre o pomo, eu não menti coisa nenhuma — apenas deixei de falar do pomo naquele momento. É a diferença entre dizer "essa cadeira não tem cor" (mentira) e simplesmente falar sobre a forma da cadeira sem mencionar a cor dela (nem mentira, nem verdade — apenas silêncio sobre um assunto).

Um modo pode mentir, o outro só se cala dizer que a cor não está no pomo é diferente de simplesmente não falar do pomo Modo 1 — compor e dividir Modo 2 — considerar só tira a cor de dentro do pomo e diz que ela não está lá — pode ser falso olha só para a cor e não diz nada do pomo Abstrair é silêncio, e não negação.
Não falar de uma coisa não é negá-la. A abstração é silêncio, não negação — e é por isso que ela não pode ser falsa: só há verdade e falsidade onde há afirmação ou negação, e abstrair não afirma nem nega nada. O erro de Platão, diz Tomás no mesmo lugar, foi tomar o modo 2 pelo modo 1: ele viu que o intelecto considera a espécie sem a matéria e concluiu que a espécie existe sem a matéria.

E ainda fica a razão mais profunda por trás de tudo isso:

«Não há falsidade em ser um o modo do intelecto ao inteligir, e outro o da coisa, enquanto existe; pois, a coisa inteligida está em quem intelige, imaterialmente, ao modo do intelecto; não porém, materialmente, ao modo da coisa material.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, resposta à primeira objeção

Vale a pena repetir esta frase até ela grudar: conhecer não é fotocopiar. A pedra existe dentro da pedra ao modo da pedra — pesada, dura, ocupando espaço. Mas ela existe dentro de você, quando você a conhece, ao modo do intelecto — sem peso, sem ocupar espaço na sua cabeça. Se ela existisse dentro de você exatamente ao modo da pedra, você teria, literalmente, uma pedra alojada na sua cabeça — e isso não seria conhecimento nenhum, seria apenas uma pedra a mais no mundo.

Antes de seguir

Agora um exercício prático, para sentir a diferença na própria boca. Diga em voz alta duas frases sobre alguém da sua casa: uma frase que deixe de mencionar um defeito dessa pessoa, e outra frase que negue esse mesmo defeito.

Repare: são duas coisas completamente diferentes — e só a segunda delas é mentira. A primeira é apenas silêncio; a segunda é negação explícita.

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Aula 5O que a abstração não tira: as carnes e os ossos

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É muito fácil, e muito tentador, imaginar que subir espiritualmente significa ficar cada vez mais leve — ir largando o corpo pelo caminho, largando o barulho do mundo, largando tudo o que é material, até sobrar só o essencial, quase como se o corpo fosse um peso morto que atrapalha a subida.

Esse é um mal-entendido muito comum, e ele costuma sobreviver mesmo depois de tudo o que já explicamos até aqui. Ele funciona mais ou menos assim: abstrair seria subir — ir deixando o corpo para trás, ficando cada vez mais fino, mais espiritual, mais etéreo, até chegar a um conceito que não tem absolutamente nada de matéria dentro dele, como se o objetivo final fosse escapar do corpo por completo.

Só que não é assim que funciona. E Tomás fecha essa porta com uma distinção técnica que vale muito a pena conhecer bem, porque ela funciona como o antídoto exato contra o angelismo — que podemos chamar de a doença crônica de toda espiritualidade que trata o corpo como um estorvo a ser descartado.

«A matéria é dupla: a comum e a signada ou individual. A comum é, p. ex., a carne e o osso; a individual, estas carnes e estes ossos. Ora, o intelecto abstrai a espécie de uma coisa natural, da matéria sensível individual, e não da matéria sensível comum.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, resposta à segunda objeção

E aqui está o remate, a frase que fecha a questão:

«Abstrai a espécie do homem, de tais carnes e tais ossos determinados […] Mas a espécie do homem não pode ser abstraída, pelo intelecto, das carnes e dos ossos.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 85, a. 1, resposta à segunda objeção

Vale a pena ler essa frase outra vez, bem devagar, deixando cada palavra assentar. O conceito de homem deixa de fora estas carnes — as suas carnes, as minhas, as de João, com todas as suas particularidades. Mas a carne, tomada de modo geral, faz parte da própria definição de homem — não é um acessório opcional. Ter um corpo entra na definição de homem; ter este corpo específico, com este rosto e esta altura, não entra. Um conceito de ser humano do qual o corpo tenha sido completamente removido não é um conceito mais puro ou mais elevado — é simplesmente o conceito de outra coisa, que já não é mais o homem.

É exatamente por isso que a matemática funciona de um jeito diferente. As espécies matemáticas, diz Tomás nesse mesmo lugar, podem ser abstraídas da matéria sensível — e até mesmo da matéria comum. Um triângulo, por exemplo, não precisa ser feito de madeira, nem de giz, nem de coisa nenhuma; ele funciona igual em qualquer material ou até sem material nenhum. Mas o homem é diferente: ele precisa ser de carne, e qualquer filosofia que esqueça isso vai acabar produzindo uma antropologia que, no fim das contas, não descreve nenhum ser humano real.

Essa diferença entre o triângulo e o homem é só o primeiro degrau de uma escada bem mais longa: a matemática ainda sobe mais um degrau além deste, largando também a matéria comum; e a metafísica sobe até o último degrau de todos. Essa escada completa é assunto do Bloco 2 deste curso — aqui, por enquanto, fica só o degrau que interessa a esta disciplina: o do corpo.

Antes de seguir

Agora é a sua vez de colocar a mão na massa. Escreva a definição de «pessoa humana» que você usaria se alguém te perguntasse isso agora, de repente. Depois, releia com cuidado e confira: o corpo entrou na sua definição?

Se não entrou, não se preocupe — mas repare que você acabou de fazer, na prática, exatamente aquilo que Tomás diz que não se pode fazer. E fez sem perceber, que é justamente como esse erro sempre acontece: silenciosamente, sem alarme nenhum.

Fica ainda uma pergunta em aberto para mais adiante neste bloco, e vale a pena já plantar essa semente na sua cabeça: se o que o intelecto alcança diretamente é sempre o universal — «homem», e não João, este homem específico — então como é que se volta a pensar nesta pessoa aqui, com este rosto único? É dessa volta, desse caminho de retorno ao particular, que depende a existência da clínica.

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Aula particular — R$ 180/hora

SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas

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A disciplina anterior já tinha estabelecido que tudo o que conhecemos entra pela porta dos sentidos. Esta disciplina respondeu à pergunta que ficou em aberto ali: se os sentidos só entregam casos particulares, um de cada vez, de onde afinal vem o universal? De onde vem essa capacidade de pensar "homem" em vez de só "este homem aqui"?

O universal colhe-se de dentro do próprio caso particular,
por uma atividade que a imagem não podia fazer sozinha.

Mas nenhuma das cinco aulas era dispensável para chegarmos até essa linha final — cada uma cumpriu um papel próprio na construção do argumento. A Aula 1 desarmou a palavra «abstrato», que hoje em dia quer dizer praticamente o contrário do que queria dizer originalmente. A Aula 2 mostrou por que essa operação de abstrair existe: por causa da posição exata que a inteligência humana ocupa, no meio do caminho entre o bicho e o anjo. A Aula 3 deu nome ao agente responsável por essa operação e o comparou à luz — algo que não é aquilo que se vê diretamente, mas sem o qual nada mais poderia ser visto. A Aula 4 respondeu à objeção pesada de que abstrair seria uma forma de mentir, usando a distinção entre não falar de uma coisa e negá-la. E a Aula 5 fechou de vez a porta do angelismo: o corpo entra sim na definição do homem, só que não este corpo específico, com este rosto.

1 · A palavra invertida 2 · A posição média 3 · A luz sobre a imagem 4 · Abstrair não é mentir 5 · Estas carnes, não a carne abstrair é colher, e não descartar nem bicho nem anjo: por isso abstraímos o intelecto agente torna a imagem legível não falar de uma coisa não é negá-la o conceito de homem não larga o corpo A seguir, STAN 003 — a ideia não é o que se conhece.
Um caminho, cinco estações. A terceira é a peça técnica, a quarta é a defesa, e a quinta é a que impede o uso errado. Quem guardar só a primeira sai daqui com um vocabulário novo e nenhuma doutrina.

O que fica valendo

Se o conceito se colhe de dentro da imagem — e não se fabrica do nada —, então ensinar por definição pura, sem imagem nenhuma por trás, é como pedir para alguém colher frutos de um campo vazio. Foi exatamente por isso que esta aula começou pela lembrança da escola brasileira, e não direto pela palavra latina abstractio: era preciso primeiro plantar a imagem, para só depois colher o conceito. Fica então uma regra de leitura bem prática para você levar consigo: sempre que um texto antigo usar a palavra «abstrato», leia mentalmente «colhido», e não «vago». Essa troca silenciosa de sentido, ao longo da história, é responsável por uma quantidade impressionante de mal-entendidos entre a tradição escolástica e a filosofia moderna — e é bom lembrar que esse é um problema de dicionário, de vocabulário que mudou com o tempo, e não um problema de doutrina.

E fica, por fim, um antídoto para levar para a vida prática. Qualquer espiritualidade que trate o corpo como algo do qual é preciso se livrar para finalmente chegar ao alto está trabalhando com uma abstração feita do jeito errado — está, na prática, negando aquilo que deveria apenas estar deixando de mencionar por um instante. A frase de I, q. 85, a. 1, sobre as carnes e os ossos, funciona como a régua que mede se uma espiritualidade está no caminho certo ou se escorregou para o angelismo.

O fechamento

O fechamento desta disciplina é um exercício de fichamento: escreva, com as suas próprias palavras e citando a fonte, a diferença entre os dois modos de abstrair que a Aula 4 apresentou — e dê um exemplo seu, tirado da sua própria vida, de algo que você já viu alguém negar quando, na verdade, estava apenas deixando de mencionar aquilo.

ProvaCinco perguntas antes de seguir

Não se preocupe, esta prova não é para pegar ninguém de surpresa: cada resposta mostra na hora se você acertou e, mais importante, por quê você acertou ou errou. Quem acertar quatro das cinco perguntas destranca a disciplina seguinte na Sala de Aula. Quem não acertar essa marca simplesmente volta às aulas que as explicações apontarem, refaz o que for preciso, e tenta de novo — quantas vezes quiser, sem pressa.

Ementa

O fantasma e a abstração

Código
STAN 002
Bloco
1 — Gnoseologia
Aulas
5 e uma síntese
Narração
43 min
Pré-requisito
STAN 001
Regime
Sem prazo

O que a disciplina trata

A operação pela qual o intelecto tira da imagem sensível a espécie inteligível. O sentido escolástico da palavra abstração e a inversão que ela sofreu depois de Kant, que faz o aluno moderno entender o resto ao contrário se ninguém avisar.

A posição média do intelecto humano entre a potência que só conhece o material e a que conhece sem matéria nenhuma. Intelecto agente e intelecto possível, distinguidos pelo ato de cada um. Os dois modos de abstrair — por composição e divisão, e por consideração simples — e a razão de o segundo não falsear. Matéria comum e matéria signada: o que fica no conceito e o que não fica.

Objetivo

Fazer o aluno acompanhar, passo a passo, a passagem da imagem singular ao conceito universal, e defender que essa passagem não falsifica a coisa.

Metas — o que o aluno sai sabendo fazer

  1. Usar a palavra «abstração» no sentido escolástico e apontar onde o uso corrente a inverteu.
  2. Situar o intelecto humano entre os dois extremos e dizer o que essa posição obriga.
  3. Distinguir a função do intelecto agente da do intelecto possível pelo ato de cada um.
  4. Mostrar, pelo exemplo da cor e do pomo, por que abstrair não é afirmar uma separação que não existe.
  5. Explicar por que o conceito de homem guarda as carnes e os ossos e larga estas carnes e estes ossos.

Conteúdo programático

  • Aula 1A palavra que você aprendeu ao contrário
  • Aula 2A posição média
  • Aula 3A luz que cai sobre a imagem
  • Aula 4Abstrair não é mentir
  • Aula 5O que a abstração não tira: as carnes e os ossos
  • SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas

Como a disciplina funciona

Cada aula é um texto e a mesma coisa narrada em voz, para quem prefere ouvir; a velocidade da voz é escolhida pelo aluno. As aulas abrem em ordem, e a seguinte destranca quando ele chega na anterior. O que se explica melhor desenhado do que dito vem em esquema. Ao fim de cada aula há um exercício que pede a aplicação do que se acabou de ler a um caso do próprio aluno. A síntese fecha a disciplina e traz o fichamento, que é a página que fica depois de esquecido o resto.

A disciplina inteira pode ser baixada em PDF pelo botão no alto da página, com os esquemas e as fontes.

Verificação

A verificação tem três peças, e nenhuma delas dá nota. O exercício ao fim de cada aula, que só se responde aplicando a distinção a um caso concreto. O fichamento da síntese. E a prova de cinco perguntas que fecha a disciplina: quem acerta quatro abre a disciplina seguinte na Sala de Aula, e quem não acertar refaz quantas vezes quiser, porque cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quando o exercício não sai com as palavras do aluno, o sinal é de reler a aula antes de seguir.

Bibliografia básica

  • TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 85, a. 1 — solução e respostas 1 a 3. Tradução de Alexandre Correia.A disciplina inteira sai de um artigo só; vale ler o artigo antes das aulas e outra vez depois.
  • SOUZA, José Soriano de. Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral. Recife, 1871. Lição XXXIV, § 82; Lição XXXVI, §§ 101 e 104.A definição de abstração em português, e o adágio.
  • MAHER, Michael. Psychology: Empirical and Rational. Londres: Longmans, 1908. Cap. XIV, nota 31, p. 307.A nota que documenta a inversão da palavra depois de Kant. Abre a disciplina.
  • SANGUINETI, Juan José. Introduzione alla gnoseologia. Roma: EDUSC, 2008 (1.ª ed. Le Monnier, Florença, 2003). Cap. 3, «La comprensione concettuale», § 2, p. 88.A definição contemporânea de abstração, na mesma linha do Ateneo Pontifício onde este curso se formou.

Bibliografia complementar

  • ARISTÓTELES. Sobre a Alma, III, 4-5.Leitura de fundo: é onde a distinção entre o intelecto que faz e o intelecto que recebe aparece pela primeira vez.
  • TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 84, a. 6.Retomada de STAN 001: a matéria da causa e o lume do intelecto agente.

De onde veio cada frase

A voz antiga aparece em serifa, sempre com a referência ao lado. O que está em letra sem serifa é comentário nosso. Onde a passagem para o português é nossa, está dito na própria referência.

1266-1268
Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 85, a. 1
A disciplina inteira sai de um artigo só. Solução — os três graus e a posição média. ad 1 — os dois modos de abstrair, a cor e o pomo, o erro de Platão. ad 2 — a matéria comum e a signada, as carnes e os ossos. ad 3 — a imagem não imprime nada por virtude própria. ad 4 — os fantasmas iluminados. Tradução de Alexandre Correia, em domínio público.
1871
José Soriano de Souza, Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral
Recife. Lição XXXIV, § 82 (a imagem precisa ser depurada), Lição XXXVI, § 101 (o intelecto agente é atividade intelectual) e § 104 (a definição de abstração e o adágio). nota sobre o latim: as fórmulas latinas foram trazidas de edição crítica, não copiadas do arquivo.
1908
Michael Maher, Psychology: Empirical and Rational
Londres, Longmans. Capítulo XIV, nota 31, p. 307 — a inversão do sentido da palavra «abstração» depois de Kant. É a nota que abre esta disciplina, e sem ela o aluno entende o resto ao contrário.
2008
Juan José Sanguineti, Introduzione alla gnoseologia
EDUSC, Roma; primeira edição Le Monnier, Florença, 2003. Professor de filosofia do conhecimento na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, e um dos autores da bibliografia do ateneu onde este curso se formou. Usado o capítulo 3, «La comprensione concettuale», § 2, p. 88 — a definição formal de abstração como operação de separar e agarrar um conteúdo inteligível a partir da experiência. Passagem nossa do italiano.

Onde ler a fonte, de graça

Estas obras estão em domínio público e podem ser lidas ou baixadas inteiras.