← Studium Animae ← Sala de Aula · Catálogo · STAN 003

Conhecemos a coisa, não a nossa ideia

STAN 003 · Bloco 1 — Gnoseologia

Quando você conhece uma coisa, o que é que a sua mente alcança: a coisa, ou uma imagem dela? A resposta desta tradição é anterior a Descartes em quase quatro séculos, e é o que separa este curso de quase tudo o que veio depois dele. É a disciplina central do bloco.

Aula 1A pergunta de uma frase que decide tudo

Ouvir

Você olha para uma laranja em cima da mesa. Alguma coisa acontece dentro de você naquele instante — uma cor aparece, um peso esperado se anuncia, um cheiro se insinua. Vamos chamar isso, por enquanto, de a impressão. Agora responda com calma: o que foi, exatamente, que você conheceu ali?

Existem só duas respostas possíveis para essa pergunta, e elas parecem, à primeira vista, quase iguais — quase a mesma coisa dita de dois jeitos diferentes.

A primeira resposta possível: você conheceu a impressão, e foi a partir dela que você concluiu, por dedução, que existe uma laranja ali na mesa. A segunda resposta possível: você conheceu a laranja diretamente, e a impressão foi apenas o meio, o instrumento, pelo qual você chegou a conhecê-la.

Pode parecer só uma diferença de escola filosófica, um daqueles detalhes que só interessa a especialista. Não é. É a diferença entre duas civilizações inteiras de pensamento, dois jeitos radicalmente diferentes de entender o que é conhecer — e a segunda dessas duas respostas é, no fundo, a própria razão de este curso existir.

Soriano de Souza enuncia a posição desta casa numa frase só, em português, lá em 1871:

«Não é a imagem a cousa que a faculdade conhece, mas sómente aquillo em que ella conhece o objecto exterior […] Por aqui se distingue a theoria escholastica da de Locke.» José Soriano de Souza, Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral, Pernambuco, 1871, Lição XXX, § 44

E, no plano mais técnico do intelecto, a mesma ideia aparece resumida em quatro palavras latinas que vale a pena guardar de cor. A espécieNão é «tipo» nem «categoria». Aqui é o nome técnico da forma da coisa tal como ela fica dentro de quem conhece — aquilo por meio do qual você conhece a laranja, e não uma segunda laranja dentro da cabeça.:

Non est id quod intelligitur,
sed id quo intelligitur.
Não é aquilo que se entende: é aquilo pelo que se entende.

O que acontece com quem escolhe a primeira resposta

Soriano não se contenta em simplesmente afirmar a sua posição e seguir em frente. Ele mostra, passo a passo, qual é o preço de escolher a outra saída — e mostra isso como uma verdadeira reação em cadeia:

«Se os sentidos só conhecem ditas imagens, segue-se que os corpos são puras imagens […] e eis o idealismo; ou que não temos motivo racional para affirmar a existencia real dos corpos, e eis o scepticismo.» Soriano de Souza, Lições, Lição XXX, § 44

Essa cadeia de consequências não é um efeito retórico, um exagero de estilo para impressionar o leitor: é uma consequência lógica mesmo, inevitável. Se o objeto imediato do conhecimento é a minha própria representação mental, e não a coisa em si, então eu nunca saio de dentro de mim mesmo. Tudo aquilo que eu chamo de «mundo» passa a ser apenas uma inferência, uma dedução feita a partir de dados que só existem dentro da minha cabeça. E pior: é uma inferência sem nenhum termo de comparação disponível — porque, para comparar a minha imagem mental com a coisa real, eu precisaria ter algum acesso direto à coisa em si, e é exatamente esse acesso que, por hipótese, eu não tenho nessa visão.

A ideia é… …o que se conhece — a impressão …aquilo pelo que se conhece a coisa nunca saio de mim idealismo, e daí ceticismo conheço a coisa, e a ideia é o meio, e não o objeto realismo — e há mundo
Duas respostas, e a segunda parece a mesma coisa dita de outro jeito. Não é: a da esquerda torna o mundo uma hipótese que nunca se confirma, porque conferir a imagem com a coisa exigiria um acesso à coisa que a própria posição negou. Soriano montou essa cadeia em 1871, em Recife.
Antes de seguir

Faça este teste agora: olhe para um objeto qualquer que esteja perto de você neste momento. Agora responda rápido, sem pensar demais: o que você está vendo — o objeto em si, ou a imagem dele dentro da sua cabeça?

Quase todo mundo hesita nessa pergunta, gagueja um pouco antes de responder. E essa hesitação, esse momento de dúvida, é justamente o assunto central desta disciplina inteira — e ela é bem mais antiga do que Descartes, que muita gente pensa que foi quem inventou esse problema.

Fica então em aberto a pergunta que a Aula 2 vai responder: se a ideia não é o próprio objeto conhecido, o que é ela exatamente, então? Porque simplesmente dizer «é um meio» ainda não explica muita coisa — existem muitos jeitos diferentes de uma coisa ser meio de outra, e é preciso saber qual é o jeito certo aqui.

Gostaria de ter uma aula particular sobre este tema com o professor Thácio Siqueira?

Aula particular — R$ 180/hora

Aula 2A luz, a espécie e o espelho

Ouvir

São dez da noite e você está lendo um livro sob a luz do abajur. Pergunte a si mesmo: você está olhando para a lâmpada? Claramente não. Mas sem ela, você não conseguiria ver absolutamente nada na página — e, mesmo assim, não é para a lâmpada que você está olhando.

Você vê o rosto, e não vê o vidro. E no entanto é pelo vidro que o rosto aparece. É a diferença entre aquilo que se conhece e aquilo por onde se conhece.

Agora você levanta os olhos do livro e vê o seu próprio rosto refletido no vidro escuro da janela, por causa da noite lá fora. Você está vendo o vidro em si? Também não — você está vendo a si mesmo, através do vidro, no vidro.

Acabaram de acontecer três coisas bem diferentes entre si, todas descritas pela mesma expressão em português — «por meio de» — e nenhuma das três é, propriamente, a coisa que foi vista. É aqui que esta disciplina ganha algo raro de se encontrar em filosofia: em vez de apenas uma tese solta, ela ganha uma verdadeira máquina conceitual, com peças bem definidas. E essa máquina vem de um lugar completamente inesperado, de onde ninguém costuma procurar — de um tratado sobre signos, escrito por um dominicano português lá pelo século dezessete.

João de São Tomás — cujo nome de batismo era João Poinsot, nascido em Lisboa em 1589 — escreveu, dentro do seu curso de lógica, um tratado chamado De Signis que é uma das coisas mais finas e mais precisas já produzidas sobre essa questão inteira. E ele começa esse tratado distinguindo três maneiras completamente diferentes de uma coisa funcionar como meio dentro do processo de conhecer:

«Medium in cognitione est triplex: medium sub quo, ut lumen sub cujus illustratione res aliqua videtur; medium quo, scilicet species qua res videtur; medium in quo, scilicet id in quo alia res videtur, ut in speculo video hominem.» João de São Tomás, Cursus Philosophicus I, Ars Logica, II Pars, q. XXII, art. 1 — «O meio no conhecimento é de três espécies: o meio sob o qual, como a luz sob cuja iluminação alguma coisa é vista; o meio pelo qual, a saber, a espécie pela qual a coisa é vista; e o meio no qual, a saber, aquilo em que outra coisa é vista, como no espelho vejo o homem». Passagem nossa, da edição Vivès, Paris, 1883.

São três palavrinhas em latim, mas representam três coisas completamente diferentes entre si — e o português, ao traduzir todas elas simplesmente como «meio», acaba apagando essa diferença importante, o que gera boa parte da confusão que vamos desfazer aqui.

Três meios, e só um é o «pelo qual» porque a luz é o sob o qual, o espelho o no qual, e a espécie o pelo qual quem vê a coisa a luz — meio sob o qual a espécie — meio pelo qual o espelho — meio no qual A luz e o espelho podem ser olhados; a espécie não. Pô-la na coluna das coisas vistas é o erro moderno inteiro.
A imagem que faz a coisa grudar. Você está lendo esta página graças à luz, e não está olhando para a luz. Você vê alguém no espelho, e não vê o espelho. A ideia funciona assim — e o erro moderno inteiro cabe numa frase: pôr a espécie na coluna das coisas vistas.
Antes de seguir

Agora procure, dentro da sua própria casa, um terceiro exemplo de «meio pelo qual» que ninguém em sã consciência confunde com a coisa vista em si: pode ser os óculos que você usa, a lente da câmera do seu telemóvel, o som do telefone que carrega a voz de alguém do outro lado da linha.

Depois se pergunte: por que será que a ideia é o único, entre esses quatro casos, em que a confusão realmente acontece na prática?

O caso do meio é o que mais interessa para esta disciplina. A espécie é aquilo pelo qual a coisa se torna presente à potênciaA capacidade de vir a ser ou de vir a fazer alguma coisa, antes de a fazer. A semente tem em potência a árvore. que conhece — e não é, de jeito nenhum, uma coisa que se veja diretamente, como se fosse um objeto à parte. Se ela fosse vista diretamente como objeto, precisaria de uma outra espécie para ser vista, e essa segunda espécie precisaria de uma terceira, e assim por diante — e essa série nunca teria onde parar.

Por que ela não pode ser vista — e o argumento é curto

E isso não é uma questão de gosto pessoal ou de preferência filosófica: a hipótese contrária simplesmente desmorona sozinha quando você a leva até o fim.

Suponha, só para testar, que a espécie fosse conhecida como se fosse um objeto — ou seja, que para conhecer a laranja você tivesse primeiro que conhecer a impressão dela, como um passo intermediário. Mas conhecer a impressão é, ele mesmo, um atoO que já está acontecendo, em oposição ao que apenas pode acontecer. A árvore crescida é ato; a semente era potência. de conhecimento como qualquer outro — e, sendo assim, também precisaria de um meio próprio para acontecer. Seria preciso, então, uma segunda espécie só para conhecer a primeira. E, pelo mesmo raciocínio, uma terceira espécie para conhecer a segunda. A série simplesmente não tem onde parar, e, no final das contas, o conhecimento nunca chegaria sequer a começar.

É exatamente por essa razão que esta tradição insiste, com tanta firmeza, que a espécie é aquilo pelo que se conhece, e não aquilo que se conhece: o outro caminho simplesmente não chega a lugar nenhum, e o preço de admiti-lo seria que absolutamente nada seria conhecido — nem mesmo a própria impressão inicial.

Isso ajuda a esclarecer os outros dois exemplos de meio que já vimos. A luz também não pode ser vista enquanto está iluminando algo: se você olhar diretamente para a lâmpada, ela deixa imediatamente de funcionar como meio e passa a se tornar o próprio objeto olhado — e, nesse exato momento, você já não está mais lendo o livro. E o espelho, se você passa a examiná-lo como objeto em si (reparando na moldura, num risco no vidro), deixa de cumprir sua função de mostrar a pessoa refletida. Os três meios que vimos até aqui têm algo em comum importante: eles funcionam justamente enquanto não são olhados diretamente.

Os outros dois casos — a luz e o espelho — são tão familiares no nosso dia a dia que praticamente ninguém erra ao pensar sobre eles. Ninguém acha, seriamente, que está olhando para a lâmpada quando está lendo um livro à noite. Ninguém, ao ver o próprio rosto refletido num espelho, sai por aí dizendo «estou vendo um espelho» em vez de «estou me vendo». A confusão só acontece mesmo com a espécie — precisamente porque ela é interior, está dentro de nós, e aquilo que é interior a gente tende naturalmente a tratar como se fosse mais um objeto entre os outros.

Mas essa tendência natural, por si só, não é um argumento filosófico válido. A Aula 3 traz o argumento propriamente dito, e ele tem uma dureza lógica que não deixa saída nenhuma.

Gostaria de ter uma aula particular sobre este tema com o professor Thácio Siqueira?

Aula particular — R$ 180/hora

Aula 3A divisão que não deixa saída

Ouvir

Imagine uma porta com exatamente duas fechaduras, e nenhuma terceira fechadura escondida em lugar nenhum. Se a chave que você tem não abre a primeira fechadura, ela necessariamente abre a segunda — e não existe nenhuma outra porta no corredor para onde fugir dessa escolha. É exatamente esse tipo de argumento, sem escapatória, que vem agora nesta aula, e é o argumento mais forte que existe em toda essa discussão.

Uma tese filosófica pode se defender de dois jeitos diferentes. Um deles é ir acumulando razões a favor dela, uma por uma, até formar um peso convincente. O outro jeito, muito mais forte e definitivo, é mostrar que a alternativa simplesmente não existe — que as opções disponíveis são apenas duas, que se sabe exatamente quais são essas duas, e que uma delas leva inevitavelmente a um absurdo lógico.

É exatamente isso que João de São Tomás faz neste ponto — e é por causa desse argumento que esta acaba sendo a disciplina central de todo o bloco de estudos:

«Cum omne signum sit medium ductivum ad aliud, vel hoc medium est prius cognitum ad hoc ut aliud cognoscatur, vel non. Si est prius cognitum denominative seu objective, est signum instrumentale; si non est prius cognitum objective, et tamen repraesentat aliud, id facit formaliter, quia est ratio qua aliud redditur cognitum intra potentiam…» João de São Tomás, Ars Logica, II Pars, q. XXII, art. 1 — «Sendo todo signo um meio que conduz a outra coisa, ou este meio é conhecido antes, para que a outra seja conhecida, ou não é. Se é conhecido antes, é signo instrumental; se não é conhecido antes como objeto e no entanto representa outra coisa, fá-lo formalmente, porque é a razão pela qual a outra se torna conhecida dentro da potência». Passagem nossa.

Leia com calma o miolo dessa frase, a parte que realmente importa: ou o meio é conhecido antes da coisa, ou não é. Não sobra nenhuma terceira opção possível. É uma divisão que esgota completamente o campo de possibilidades, e é justamente por isso que ela decide a questão de uma vez por todas. Ninguém montou essa divisão por conveniência ou para facilitar o argumento — ela simplesmente esgota tudo o que é logicamente possível.

Uma pergunta, e não sobra terceira saída porque ou o meio é conhecido antes da coisa, ou não é O meio é conhecido antes? Sim Não é signo instrumental — a pegada, o fumo, a placa é signo formal — e é aqui que está o conceito Onde o idealismo se define Pôr o conceito na coluna da esquerda é o erro moderno inteiro — e a divisão mostra que não há meio-termo.
Uma aula que ensine só esta divisão já entregou a disciplina. Signo instrumental é o que você conhece primeiro e que depois o leva a outra coisa: você vê a pegada, e então pensa no animal. Signo formal é o que faz conhecer sem ele mesmo ser conhecido antes — e o conceito é assim. O idealismo é, tecnicamente, o gesto de arrastar o conceito da coluna da direita para a da esquerda.
Dois termos para desarmar já. Signum formale não quer dizer «signo solene» nem «signo oficial»: quer dizer o conceito, e «formal» aqui é o oposto de «instrumental». E signum ad placitum quer dizer signo por convenção, aquele cujo sentido foi combinado entre pessoas — as palavras, por exemplo. Os dois enganam pelo som em português, e enganam na primeira página.
Antes de seguir

Agora aponte, na sua própria vida hoje, um exemplo de signo instrumental e um exemplo de signo formal. O primeiro é fácil de encontrar: a luzinha acesa no painel do carro, o cheiro de queimado vindo da cozinha, a cara fechada de alguém que você conhece bem.

O segundo é bem mais difícil de apontar, e é difícil justamente porque ele não se deixa olhar diretamente, por definição. Se você achou um exemplo fácil e óbvio, é bem provável que você tenha errado a categoria.

Com isso, fica claro por que a resposta que esta tradição dá a Descartes é, na verdade, anterior a ele no tempo, mesmo que tenha sido formulada antes de Descartes ter nascido. Descartes vai partir do que está dentro da mente — as tais ideias claras e distintas — e vai tentar chegar até o mundo externo por um caminho complicado que atravessa a veracidade divina como garantia. Esta tradição escolástica não precisa desse caminho tortuoso, porque ela nunca ficou trancada do lado de dentro da mente, para começo de conversa. Para ela, o que está dentro da mente nunca foi o objeto conhecido; foi sempre apenas o meio pelo qual se conhece o que está fora.

E agora vem a parte mais honesta desta disciplina, a que exige mais cuidado. A tradição não fala com uma única voz neste ponto específico — e existe um desacordo real, entre dois santos doutores da Igreja. É o assunto da Aula 4.

Gostaria de ter uma aula particular sobre este tema com o professor Thácio Siqueira?

Aula particular — R$ 180/hora

Aula 4Agostinho do outro lado da mesa

Ouvir

Você encontra uma pegada na lama e imediatamente pensa no animal que deve ter passado por ali. Você vê fumaça subindo no horizonte e conclui que há fogo em algum lugar. Você ouve um grito e sabe, na mesma hora, que alguém se machucou. Em todos esses três casos, repare bem: você conheceu primeiro uma coisa, e foi através dela que chegou a conhecer outra.

Antes de seguir adiante, uma pergunta que decide o rumo desta aula inteira: nos três casos que acabamos de ver, você viu diretamente o animal, o fogo e a dor da pessoa — ou você viu outra coisa primeiro e chegou até eles por dedução? E, se você chegou até eles por dedução, o que exatamente você precisou conhecer primeiro, antes de tudo?

Esses três exemplos não são invenção minha: eles são de Santo Agostinho, e é justamente com eles que ele define o que é um signo. João de São Tomás abre o seu De Signis recusando essa definição de Agostinho, e diz claramente de quem ela é: é «a definição vulgar que costuma circular entre os Teólogos, tirada de Agostinho».

E o autor que ele corrige, direto e sem rodeios, é o próprio Santo Agostinho em pessoa. A definição está no livro De doctrina christiana:

«Signum est enim res praeter speciem, quam ingerit sensibus, aliud aliquid ex se faciens in cogitationem venire: sicut vestigio viso transisse animal, cuius vestigium est, cogitamus, et fumo viso ignem subesse cognoscimus, et voce animantis audita adfectionem animi eius advertimus, et tuba sonante milites vel progredi se, vel regredi […] noverunt.» Agostinho, De doctrina christiana II, 1 — «Signo é a coisa que, além da espécie que introduz nos sentidos, faz por si vir ao pensamento alguma outra coisa: assim, vista a pegada, pensamos que passou o animal de quem ela é; e visto o fumo, conhecemos que há fogo por baixo; e ouvida a voz do animal, percebemos a afeição do ânimo dele; e ao soar a trombeta, os soldados sabem que devem avançar ou recuar». Passagem nossa. Sii^n um est enim onde está impresso Signum est enim.

Agora conte com cuidado os exemplos que Agostinho usa ali: são quatro ao todo — a pegada, o fumo, a voz, a trombeta.

Os quatro são exemplos de signos instrumentais, sem exceção. Em todos os quatro, você conhece primeiro uma coisa — a marca deixada no chão, a coluna de fumaça subindo, o som ouvido — e só depois, partindo dela, chega até a outra coisa. É exatamente a coluna da esquerda do desenho que vimos na Aula 3.

E é exatamente aí que entra a objeção de João de São Tomás: essa definição de Agostinho, diz ele, só convém ao signo instrumentalO signo que você conhece primeiro e que só depois o leva a outra coisa: vê a pegada, e então pensa no animal., e não a todos os tipos de signo que existem. Ela deixa de fora justamente o caso que mais interessa para esta disciplina — o conceito, que representa uma coisa sem ter sido, ele mesmo, conhecido antes. Uma definição de signo que não consegue cobrir o conceito é, na prática, uma definição de apenas metade dos signos que existem.

A definição de Agostinho tem um portão porque define signo pelo que se conhece antes, e o conceito não é disso a pegada o fumo a voz a trombeta é conhecido antes, como objeto? é signo a espécie bate no portão e não passa: nunca foi vista antes como objeto Agostinho definiu signo pelo caso que lhe interessava, a leitura. João de São Tomás mostra que a definição, tomada como geral, exclui justamente aquilo por onde tudo o mais é conhecido.
Uma discordância real, entre dois autores que esta casa respeita. Não é um mal-entendido nem uma questão de palavras: Agostinho define signo pelo caso que lhe interessava — a leitura da Escritura, onde tudo é instrumental —, e João de São Tomás mostra que a definição, tomada como geral, exclui o caso central da teoria do conhecimento.

Signos que revelam sem querer

Feita essa correção necessária, é só justo reconhecer também o que essa mesma página de Agostinho tem de excelente — porque ela realmente tem algo valioso, e esse algo serve diretamente a uma disciplina de psicologia.

Logo em seguida, Agostinho divide os signos em duas categorias: naturais e dados (ou convencionais). Os naturais são aqueles que fazem conhecer outra coisa «sem vontade nem apetite algum de significar» por parte de quem os emite:

«Signorum igitur alia sunt naturalia, alia data. Naturalia sunt, quae sine voluntate atque ullo adpetitu significandi praeter se aliquid aliud ex se cognosci faciunt, sicuti est fumus significans ignem. Non enim volens significare id facit […] Et vultus irati seu tristis adfectionem animi significat, etiam nulla eius voluntate qui aut iratus aut tristis est.» Agostinho, De doctrina christiana II, 1 — «Dos signos, uns são naturais e outros dados. Naturais são os que, sem vontade nem apetite algum de significar, fazem conhecer por si alguma outra coisa além de si — como o fumo, que significa fogo; pois não o faz querendo significar. […] E o rosto de quem está irado ou triste significa a afeição do ânimo dele, mesmo sem nenhuma vontade daquele que está irado ou triste». Passagem nossa.

Leia essa última frase mais uma vez, devagar. Já no século quarto, dentro de um manual sobre como ler a Escritura, está descrita com precisão a expressão involuntária: o rosto de alguém revela o estado da alma daquela pessoa sem que ela queira revelar nada — e, às vezes, revela exatamente naquele momento em que ela mais quer esconder alguma coisa.

Isso é importante para este curso em dois pontos diferentes. Primeiro, porque desmonta de vez a ideia de que a tradição antiga só reconhecia a comunicação deliberada, proposital — isso simplesmente não é verdade, e a página que acabamos de ler está bem ali, provando o contrário. Segundo, e talvez mais importante ainda: porque estabelece que existe informação sobre uma pessoa que não passa pela intençãoAquilo que uma coisa significa para quem a percebe — perigo, utilidade, familiaridade. Não é cor nem cheiro, e no entanto se percebe. dela de comunicar, e que ler essa informação é perfeitamente possível. Quem acompanha pessoas de perto, no trabalho pastoral ou terapêutico, trabalha o tempo todo com esses signos naturais — o tom de voz, a pausa antes de responder, o que a pessoa faz com as mãos enquanto diz, com a boca, que está tudo bem.

E, de brinde, a mesma página já traz também a cautela necessária: o fumo significa fogo, diz Agostinho, «pela observação e pela anotação das coisas experimentadas» — quer dizer, por meio de experiência acumulada ao longo do tempo, que é exatamente o experimentumA competência de acertar em casos concretos, que se ganha decidindo muitas vezes e sendo corrigido. Não é a soma dos casos vistos. de que a quinta disciplina deste bloco vai tratar mais adiante.

É importante entender que Agostinho não errou por simples descuido ou falta de atenção. A definição dele foi escrita dentro de um livro específico sobre como interpretar a Escritura, e, naquele contexto, todos os signos de que ele estava tratando eram mesmo instrumentais: letras, palavras, figuras escritas. O problema real aparece só mais tarde, quando teólogos posteriores passam a usar essa definição como se fosse uma definição geral de signo, válida para todos os casos — e é contra esse uso posterior que João de São Tomás escreve, dizendo com todas as letras que a definição «costuma circular entre os Teólogos», já deturpada do seu contexto original.

Este curso tem uma posição própria e a declara com clareza, mas não existe para vencer nenhuma discussão com ninguém. Quando dois autores importantes da mesma tradição discordam entre si, a aula mostra os dois textos lado a lado e diz exatamente onde está o desacordo entre eles. Aqui, os dois textos estão praticamente no mesmo volume, a poucas páginas de distância um do outro.

Antes de seguir

Volte agora aos quatro exemplos de Agostinho — a pegada, o fumo, a voz, a trombeta — e tente, por conta própria, acrescentar um quinto exemplo que não caiba dentro do mesmo molde instrumental.

É bem difícil de fazer, e essa própria dificuldade é o ponto central da questão: quando alguém define uma coisa apenas pelos exemplos que tem à mão no momento, acaba sendo os próprios exemplos que decidem, sem querer, os limites da definição.

Gostaria de ter uma aula particular sobre este tema com o professor Thácio Siqueira?

Aula particular — R$ 180/hora

Aula 5«Isso é realismo ingênuo»

Ouvir

Mais cedo ou mais tarde, alguém sempre diz — e diz com uma pergunta que merece ser levada a sério: «mas a ciência já mostrou que a mesa é quase toda espaço vazio, e que a cor nem sequer está no objeto em si. Então vocês estão realmente defendendo que o mundo é exatamente como parece ser?»

É a objeção que toda sala de aula levanta em algum momento, e vale a pena enfrentá-la de frente, porque ela costuma vir de gente séria, que pensou de verdade sobre o assunto. Ela funciona mais ou menos assim: vocês estão dizendo que o mundo é exatamente como ele parece ser à primeira vista. Mas a ciência mostrou que não é bem assim — a cor não está de fato no objeto, o som é apenas onda sonora, a mesa é quase toda espaço vazio entre os átomos. Portanto, o realismoA posição de que as coisas existem fora da nossa cabeça e podem ser conhecidas como são. É a deste curso. de vocês é uma posição pré-crítica, ultrapassada.

A resposta que esta tradição dá a essa objeção tem duas partes, e curiosamente as duas foram escritas no mesmo ano, em 1913.

A primeira parte da resposta é que a posição que está sendo atacada nem sequer é a posição que esta tradição defende de fato. Joseph Gredt monta, numa única página, uma verdadeira escada com um nome próprio em cada degrau — ceticismo, idealismoA posição de que só alcançamos as nossas próprias representações. O mundo lá fora fica sendo hipótese., realismo críticoA posição que admite que os sentidos alcançam coisas fora de nós, mas sustenta que só se pode afirmar a existência delas depois, por um raciocínio., realismo natural parcial, realismo natural total exagerado — e situa a posição que ele defende no penúltimo degrau dessa escada, não no primeiro degrau, como a objeção sugere. Depois, sobre esse tal «realismo ingênuo»:

«Realismum proinde naturalem, nullo modo criticum, non invenies nisi in puerulo […] Hic proinde Realismus iure merito puerilis vocatur, qui nonnisi per manifestam injuriam confunderetur cum Realismo naturali a nobis proposito.» Joseph Gredt, De cognitione sensuum externorum, Roma, 1913, n. 54, escólio 1 — «o realismo natural que não é de modo algum crítico só o encontrarás numa criancinha; este realismo é por isso chamado com razão pueril, e só por manifesta injustiça se confundiria com o realismo natural que propomos». Passagem nossa.

A segunda parte da resposta é ainda melhor, porque ela não simplesmente devolve a acusação para quem a fez: ela mostra que a crítica que a ciência moderna faz não é, de forma alguma, uma invenção recente, acrescentada de fora por pensadores modernos. Na linha anterior a essa, Gredt já tinha escrito que o realismo de qualquer homem adulto normal já é, em maior ou menor grau, um realismo crítico — porque todo ser humano, pelo simples uso da razão e pela experiência acumulada ao longo da vida, sua e de outras pessoas, vai naturalmente purificando os próprios conhecimentos, corrigindo os erros que encontra pelo caminho. Quem já enfiou a mão na água e viu o próprio braço parecer «quebrar» na superfície aprendeu, ali mesmo, a corrigir essa percepção — e passa a corrigir desde então automaticamente, sem nem precisar pensar sobre isso. Isso já é crítica de verdade, e ninguém precisou esperar por Kant para conseguir fazê-la.

A escada inteira, com nome em cada degrau

A escada completa que Gredt monta é, no fundo, o mapa inteiro da questão moderna resumido numa única página — e vale a pena conhecê-la bem, porque saber exatamente onde a nossa posição se encaixa dentro dela evita metade das discussões inúteis que costumam surgir sobre esse tema.

Ele divide primeiro as posições pelo eixo do que chama de crítico: um realismo, ou submete ao juízoO ato de afirmar ou negar alguma coisa de outra — «a neve é branca». É só aqui que faz sentido dizer que alguém acertou ou errou. aquilo que os sentidos entregam, checando e corrigindo, ou simplesmente não submete nada a checagem nenhuma. O que não submete nada é o realismo puerilAceitar tudo o que os sentidos entregam sem nunca corrigir nada — a expressão é de Gredt, e ele diz que isso só se encontra numa criança pequena., e já vimos que essa posição só existe mesmo numa criança bem pequena, que ainda não aprendeu a corrigir suas próprias percepções.

Depois, ele divide o realismo crítico em duas subcategorias: natural e não natural. O natural faz a crítica exatamente onde ela deve ser feita — sobre o que, exatamente, cada sentido de fato entrega por si mesmo, sem exagerar o alcance dessa crítica. O não natural, por sua vez, presume fazer crítica sobre aquilo mesmo que já é atingido diretamente pelo sentido, perguntando se aquilo realmente foi atingido de verdade — e é exatamente aí, nesse excesso de dúvida, que mora o tal realismo crítico da escola de Lovaina.

E ele ainda divide o realismo natural em total e parcial, dependendo se a crítica cobre tudo o que se percebe ou apenas uma parte. O parcial, por sua vez, tem duas formas diferentes, e Gredt nomeia as duas: a dos que sustentam que, no início, só conhecemos diretamente o que se passa dentro de nós mesmos, e não o mundo extrapsíquico em si; e a dos que negam objetividade formal às chamadas qualidades secundárias — a cor, o som, o sabor, que existiriam só na nossa percepção, e não no objeto.

Sobra, no topo da escada, o realismo natural crítico total — que é a posição desta tradição. E este ainda se divide em suficiente e insuficiente — e é exatamente aqui que Gredt faz algo que mais o honra como pensador honesto:

«…confundindo em muitos casos o objeto por si com o objeto por acidente, como aconteceu aos velhos escolásticos por defeito de observação física.» Joseph Gredt, De cognitione sensuum externorum, Roma, 1913, Pars III, cap. II, § 2. Passagem nossa do latim.

Quer dizer, em outras palavras: o degrau «insuficiente» dessa escada inteira é ocupado justamente pelos próprios escolásticos antigos, os mestres da própria tradição de Gredt — e a razão que ele dá para isso é que a física que eles tinham disponível, na época deles, era simplesmente ruim, insuficiente para o trabalho. A posição desta casa fica no degrau logo seguinte, mais avançado — e para chegar até lá, foi preciso corrigir os próprios antigos pelo caminho. Não é, portanto, uma tradição que se defenda simplesmente dizendo que sempre teve razão em tudo, desde sempre.

Quatro perguntas, não uma lista para decorar cada resposta risca uma posição, até sobrar só a de cima 1 · Critica o que os sentidos entregam? 2 · A crítica é só sobre o que o sentido alcança? 3 · A crítica cobre tudo o que se percebe? 4 · Separou certo o «por si» do «por acidente»? não → realismo pueril, só numa criança não → crítico não natural — Mercier, Lovaina não → natural parcial não → insuficiente — os velhos escolásticos, por física ruim sim ↓ sim ↓ sim ↓ sim ↓ Sim às quatro: realismo natural, crítico, total, suficiente — é aqui, e só aqui, que esta tradição fica. É a pergunta 4 que resolve «a mesa é quase toda espaço vazio»: separa o que o sentido garante do que a física acrescenta depois.
Uma escada de perguntas, não uma lista de nomes. Cada degrau elimina uma posição e deixa a seguinte para ser testada. A objeção do início da aula — «a ciência mostrou que a cor não está no objeto, e a mesa é quase espaço vazio» — é respondida pela pergunta 4, não pelas outras três: ela não nega o que o sentido alcança por si, só separa isso do que a física acrescenta por cima.

O outro lado, e ele é católico

Vale a pena saber que existe, dentro da própria tradição católica, quem discorde dessa posição — e não se trata de ninguém pequeno ou pouco importante. Désiré Mercier, cardeal e fundador do Instituto Superior de Filosofia de Lovaina, defendeu o que ele mesmo chamou de realismo crítico: a tese de que a existência do mundo externo não é dada diretamente na percepção, mas precisa ser conquistada depois, por meio de uma justificação racional posterior.

Gredt refuta essa posição diretamente, citando o nome de Mercier, em latim, dentro da mesma seção do seu livro. E ele descreve a posição de Mercier com uma precisão bastante desconfortável: Mercier ensina que os sentidos externos percebem, sim, imediatamente, objetos que estão fora do sujeito que percebe — mas não como tais, ou seja, sem perceber que eles realmente existem lá fora —, de modo que a realidade extramental desses objetos «não pode ser atingida senão argumentativamente, pela força do princípio de causalidade».

Vinte e seis anos depois, do outro lado da Europa, e sem sequer citar Gredt, Étienne Gilson chega exatamente à mesma conclusão por um caminho completamente diferente, e dá um nome a essa posição:

«É por isso que é impossível negar que a doutrina do cardeal Mercier constitui, neste ponto preciso, um ilacionismo de variedade cartesianaÉtienne Gilson, Thomist Realism and the Critique of Knowledge, Ignatius Press, San Francisco, 1986, p. 29, nota 2 (trad. nossa do inglês)

Ilacionismo é a palavra que Gilson cunha para «qualquer doutrina que prova a existência do mundo externo aplicando o princípio de causalidade a um conteúdo particular do pensamento». É exatamente a mesma coisa que Gredt já tinha descrito em latim, anos antes. Dois autores que nunca se leram um ao outro, chegando à mesma acusação, mirando exatamente o mesmo alvo.

E Gilson leva esse argumento até as últimas consequências, num capítulo cujo próprio título já entrega a conclusão de antemão — A impossibilidade do realismo crítico:

«A crítica do conhecimento é essencialmente incompatível e irreconciliável com o realismo metafísico. Não há meio-termo. Ou você começa como realista pelo ser, e então terá um conhecimento do ser; ou começa como idealista crítico pelo conhecimento, e então nunca entrará em contacto com o ser.» Étienne Gilson, Thomist Realism and the Critique of Knowledge, cap. 6, p. 149 (trad. nossa do inglês)

Cornelio Fabro, que o mesmo programa de estudos manda ler antes de Gilson, chega a esse mesmo ponto por um caminho diferente. Ele observa que existem duas formas completas de conhecer — a percepção, em que os objetos concretos se fazem presentes de fato diante de nós, e o juízo, em que essa presença deles se torna explícita, formulada em palavras. E então ele faz a pergunta que decide tudo de uma vez: uma fundamentação crítica do conhecimento deve começar pela percepção, ou pelo juízo? Quem responde «pelo juízo» já começou, sem perceber, de dentro da própria mente — e já perdeu o jogo antes mesmo de começar a jogar.

É exatamente a mesma forma de argumento que vimos nesta aula inteira: uma divisão que esgota completamente o campo de possibilidades e não deixa nenhuma terceira porta de saída. Quem admite, de saída, que a existência do mundo precisa ser provada por um raciocínio já concedeu, sem perceber, justamente o ponto que mais interessava — o de que o conhecimento começaria trancado do lado de dentro da mente.

O que muda, na prática

Fica valendo, então, uma coisa que parece pequena à primeira vista, mas não é nada pequena. Se a ideia é realmente o meio pelo qual conhecemos, e não o objeto conhecido em si, o conhecimento deixa de ser uma espécie de cópia que precisa, depois, ser comparada com o original para ver se bateu certo. E a pergunta clássica «como é que eu sei que a minha imagem mental corresponde à realidade lá fora?» simplesmente perde o sentido que parecia ter: nunca houve, de fato, duas coisas separadas para comparar entre si.

Antes de seguir

Pense: você já corrigiu, sem nem parar para pensar sobre isso, alguma coisa que os seus próprios sentidos lhe entregaram? A colher que parece torta dentro do copo d'água, a estrada que parece molhada lá longe num dia claro de sol forte, a voz que parecia ser de uma pessoa e, na verdade, era de outra completamente diferente.

Conte pelo menos três exemplos desses, tirados da sua própria vida. Depois responda: quem foi que lhe ensinou a fazer essas correções, afinal?

Tudo isso tem uma consequência bem direta e prática para quem trabalha de perto com pessoas. Quando alguém diz «essa é a minha verdade», essa pessoa está usando, sem saber, exatamente o vocabulário da coluna da esquerda que vimos: a ideia tratada como se fosse o próprio objeto conhecido, cada um com a sua versão particular e intransferível. A resposta que esta tradição dá a isso é técnica, precisa, e ninguém aqui está pedindo humildade nem fazendo sermão moral: a ideia simplesmente não é um objeto que possa pertencer a alguém como propriedade privada, porque ela é o meio pelo qual se conhece uma coisa que está fora de nós dois — de quem fala e de quem escuta — e não aquilo que, propriamente, se conhece.

Gostaria de ter uma aula particular sobre este tema com o professor Thácio Siqueira?

Aula particular — R$ 180/hora

SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas

Ouvir

Esta é a disciplina central de todo o bloco, e agora já dá para explicar exatamente por quê. As duas primeiras disciplinas estabeleceram de onde vem o conhecimento e como, exatamente, ele se forma dentro de nós. Esta aqui responde à pergunta que decide se todo esse trabalho anterior consegue alcançar alguma coisa fora de nós mesmos, ou se fica preso dentro da nossa própria cabeça.

E a resposta veio de uma divisão que esgota completamente o campo de possibilidades: ou o meio pelo qual conhecemos é, ele mesmo, conhecido antes da coisa, ou não é. Se o conceito fosse do primeiro tipo, ficaríamos trancados para sempre dentro de nós mesmos; se ele for do segundo tipo, o mundo está alcançado desde o primeiro instante do conhecimento, sem intermediários problemáticos. E o conceito é, de fato, do segundo tipo — porque um meio que precisasse ser conhecido antes exigiria um outro meio para ser conhecido por sua vez, e esse outro exigiria mais um, e assim por diante, sem fim.

1 · A pergunta que decide 2 · A luz, a espécie, o espelho 3 · A divisão sem terceira saída 4 · Agostinho do outro lado 5 · Não é realismo ingênuo a ideia é o objeto, ou é o meio? três meios, e ninguém erra nos outros dois conhecido antes, ou não: o campo se esgota a definição dele só cobre metade dos signos todo adulto já corrige o que os sentidos dão A seguir, STAN 004 — e este João aqui, como o conheço?
Um caminho, cinco estações. A terceira é o argumento; as outras quatro existem para que ele seja entendido, aceito e defendido. Quem guardar só a primeira tem uma opinião; quem guardar a terceira tem uma prova.

O que fica valendo

Uma régua útil para ler filosofia moderna. Sempre que um autor começar a argumentação pelo que está dentro da mente — impressões, dados dos sentidos, representações, aquilo que hoje se chama de qualia — e depois precisar construir uma ponte até o mundo externo, você já sabe, de antemão, onde esse autor colocou o conceito na sua teoria. E você já sabe também que essa ponte não vai conseguir chegar até o outro lado, porque não sobra nenhum outro lado que não tenha sido negado logo na primeira página do argumento.

Uma resposta possível a «cada um tem a sua própria verdade». Vale entender isso como uma simples observação, e não como uma repreensão moral a quem fala assim: essa frase, dita quase sempre sem pensar muito, pressupõe uma teoria inteira do conhecimento por trás dela — e pressupõe, sem saber, que essa teoria tem um problema técnico bem conhecido, identificado já desde o século dezessete.

Uma nota sobre a edição usada. As referências ao De Signis seguem, neste curso, a edição Vivès de 1883; já a literatura mais recente, do século vinte, costuma citar a edição Reiser, de 1930, cuja paginação é completamente diferente. Por isso, todas as referências aqui são feitas por parte, questão e artigo — que é o sistema que bate entre as duas edições —, e nunca por número de página.

O fechamento

O fechamento desta disciplina é um exercício de fichamento: explique, com as suas próprias palavras e citando a fonte, qual é a diferença entre um signo instrumental e um signo formalO signo que faz conhecer sem ele mesmo ser conhecido antes. A ideia é assim: você não a olha, você olha por ela., e diga em qual dos dois grupos se encaixa uma fotografia, um termômetro e a sua própria ideia de «cadeira».

ProvaCinco perguntas antes de seguir

Não é para pegar ninguém de surpresa: cada resposta mostra na hora se está certa e por quê você acertou ou errou. Quem acertar quatro das cinco perguntas destranca a disciplina seguinte na Sala de Aula. Quem não acertar essa marca simplesmente volta às aulas que as explicações apontarem, refaz o que for necessário, e tenta de novo — quantas vezes quiser, sem pressa nenhuma.

Ementa

Conhecemos a coisa, não a nossa ideia

Código
STAN 003
Bloco
1 — Gnoseologia
Aulas
5 e uma síntese
Narração
42 min
Pré-requisito
STAN 002
Regime
Sem prazo

O que a disciplina trata

A espécie como aquilo pelo qual se conhece e não como aquilo que se conhece. Uma pergunta de uma frase que decide se o mundo é alcançável ou não.

A tríplice divisão dos meios de conhecimento em João de São Tomás: o meio sob o qual, o meio pelo qual e o meio no qual. A doutrina agostiniana do signo e a razão pela qual a espécie não satisfaz essa definição. A divisão exaustiva de Soriano de Souza, que leva de «conhecemos a imagem» ao idealismo ou ao ceticismo, sem terceira saída. O realismo crítico de Mercier e a resposta de Gredt. A acusação de realismo ingênuo, e o que ela acerta.

Objetivo

Que o aluno saiba responder, com a distinção certa, à pergunta de se conhecemos o mundo ou apenas as nossas representações dele.

Metas — o que o aluno sai sabendo fazer

  1. Enunciar a diferença entre aquilo pelo qual se conhece e aquilo que se conhece, e aplicá-la a um caso.
  2. Reconhecer os três meios e dizer a que ordem pertence cada um.
  3. Mostrar por que a espécie não é signo, tomando a definição de Agostinho ponto por ponto.
  4. Percorrer a divisão exaustiva e apontar o passo exato em que o idealismo se instala.
  5. Separar o realismo desta tradição do realismo pueril de que Gredt fala, e responder à acusação de ingenuidade.

Conteúdo programático

  • Aula 1A pergunta de uma frase que decide tudo
  • Aula 2A luz, a espécie e o espelho
  • Aula 3A divisão que não deixa saída
  • Aula 4Agostinho do outro lado da mesa
  • Aula 5«Isso é realismo ingênuo»
  • SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas

Como a disciplina funciona

Cada aula é um texto e a mesma coisa narrada em voz, para quem prefere ouvir; a velocidade da voz é escolhida pelo aluno. As aulas abrem em ordem, e a seguinte destranca quando ele chega na anterior. O que se explica melhor desenhado do que dito vem em esquema. Ao fim de cada aula há um exercício que pede a aplicação do que se acabou de ler a um caso do próprio aluno. A síntese fecha a disciplina e traz o fichamento, que é a página que fica depois de esquecido o resto.

A disciplina inteira pode ser baixada em PDF pelo botão no alto da página, com os esquemas e as fontes.

Verificação

A verificação tem três peças, e nenhuma delas dá nota. O exercício ao fim de cada aula, que só se responde aplicando a distinção a um caso concreto. O fichamento da síntese. E a prova de cinco perguntas que fecha a disciplina: quem acerta quatro abre a disciplina seguinte na Sala de Aula, e quem não acertar refaz quantas vezes quiser, porque cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quando o exercício não sai com as palavras do aluno, o sinal é de reler a aula antes de seguir.

Bibliografia básica

  • JOÃO DE SÃO TOMÁS. Cursus Philosophicus ThomisticusDe Signis, II Pars, q. XXII, a. 1. Paris: Vivès, 1883.Peça central da disciplina: os três meios e a divisão exaustiva. Em latim.
  • AGOSTINHO. De doctrina christiana, II, 1. Leipzig: Tauchnitz, 1838.A definição de signo e os quatro exemplos: a pegada, o fumo, a voz, a trombeta.
  • SOUZA, José Soriano de. Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral. Recife, 1871. Lição XXX, § 44; Lição XXXIV, § 85.A aula inteira em português, em três parágrafos. Por isso abre a disciplina.
  • GREDT, Joseph. De cognitione sensuum externorum. Roma: Desclée, 1913. n. 54.A escada de posições e a resposta à acusação de ingenuidade.

Bibliografia complementar

  • GILSON, Étienne. Thomist Realism and the Critique of Knowledge. Trad. Mark A. Wauck. San Francisco: Ignatius Press, 1986. Cap. 6, pp. 149-170.Original: Réalisme thomiste et critique de la connaissance, Vrin, 1939. Leva a divisão exaustiva desta disciplina até à sua conclusão: não há meio-termo entre começar pelo ser e começar pelo conhecimento.
  • MERCIER, Désiré. Critériologie générale. 7.ª ed. Lovaina, 1918.A posição que Gredt e Gilson refutam pelo nome. Está aqui para ser lida pela pena do próprio autor, e não só pela dos adversários.
  • TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 85, a. 2.O artigo em que Tomás põe a mesma pergunta desta disciplina — se as espécies inteligíveis são aquilo que se intelige — e responde diretamente.
  • SANGUINETI, Juan José. Introduzione alla gnoseologia. Roma: EDUSC, 2008 (1.ª ed. Le Monnier, Florença, 2003). Cap. 8, «La giustificazione della verità».O problema crítico posto de novo, e respondido, num manual de hoje.
  • LLANO, Alejandro. Gnoseología. 3.ª ed. Pamplona: EUNSA, 1991. Cap. IV, «Examen del escepticismo».Manual curto da escola de Navarra. O capítulo IV percorre o ceticismo, que é a primeira das saídas que a divisão desta disciplina fecha.
  • FABRO, Cornelio. La fenomenologia della percezione. In: Opere Complete, vol. 5, a cura di Christian Ferraro. EDIVI, 2006 (1.ª ed. Vita e Pensiero, Milão, 1941).Fabro põe a pergunta desta disciplina noutros termos: uma fundamentação crítica deve começar pela percepção ou pelo juízo?

De onde veio cada frase

A voz antiga aparece em serifa, sempre com a referência ao lado. O que está em letra sem serifa é comentário nosso. Onde a passagem para o português é nossa, está dito na própria referência.

c. 397
Agostinho, De doctrina christiana II, 1
A definição de signo e os quatro exemplos — a pegada, o fumo, a voz, a trombeta. Edição Tauchnitz, Leipzig, 1838, no mesmo volume do Enchiridion. Sii^n um est enim.
1631-1635
João de São Tomás, Cursus Philosophicus I — De Signis
Lisboa, 1589 — Madri, 1644. A II Pars, q. XXII, art. 1 traz os três meios e a divisão exaustiva; é a peça central desta disciplina. Edição Vivès, Paris, 1883. ⚠️ Volume de duas colunas: a extração automática intercala as linhas e parte as frases ao meio — nunca conclua que uma frase não está no livro por causa disso.
1871
José Soriano de Souza, Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral
Recife. Lição XXX, § 44 — a tese, o erro nomeado e a consequência em cadeia até o ceticismo, tudo em três parágrafos. É a aula inteira em português, e por isso abre a disciplina. E a Lição XXXIV, § 85, para o mesmo no plano do intelecto.
1913
Joseph Gredt, De cognitione sensuum externorum
Roma, Desclée. A escada de posições e a resposta à acusação de ingenuidade (n. 54). li por h: Reahsmus por Realismus. Uma citação correta é reprovada pela busca automática neste volume.
1918
Désiré Mercier, Critériologie générale
Lovaina, 7.ª edição. A posição refutada, e ela não é de ninguém pequeno: Mercier era cardeal e fundou o Instituto Superior de Filosofia de Lovaina. Gredt refuta-a em 1913, Gilson em 1939.

Onde ler a fonte, de graça

Estas obras estão em domínio público e podem ser lidas ou baixadas inteiras.