O problema do singular
A pessoa à sua frente é única, e a sua inteligência trabalha com o que há de comum entre as pessoas. Como é que ela chega, então, a esta, com nome e rosto? Sem resposta a essa pergunta não há clínica possível.
Aula 1O intelecto não alcança João
Uma pessoa está sentada à sua frente. Chame-a de João. Ela tem um rosto que você reconheceria numa multidão, uma história que ninguém mais teve, um jeito de calar que é dele e de mais ninguém.
Agora a pergunta desta disciplina, e ela é incômoda: o que é que a sua inteligência alcança quando você olha para João?
A resposta da tradição que este curso estuda é dura, e é preciso ouvi-la sem amaciar:
O motivo já foi estabelecido nas duas disciplinas anteriores, e agora ele cobra. O princípio pelo qual esta coisa é esta e não outra é a matéria individual. O intelecto entende abstraindo a espécieNão é «tipo» nem «categoria». Aqui é o nome técnico da forma da coisa tal como ela fica dentro de quem conhece — aquilo por meio do qual você conhece a laranja, e não uma segunda laranja dentro da cabeça. justamente dessa matéria. Logo, o que ele alcança nunca é este; é sempre tal.
E Tomás não deixa a coisa em abstrato — dá o exemplo, que é dele, e é o que salva a doutrina de parecer absurda:
Olhe a proposição com atenção, porque ela é a disciplina inteira em quatro palavras. «Sócrates» vem de um lado: da imagem, do sentido, do particular. «Homem» vem do outro: da espécie inteligívelO que o intelecto tira da imagem e passa a ter dentro de si: aquilo que vale para todos os casos, e não só para este., do universalO que vale para todos os casos de uma espécie. «Homem» é universal; «este homem» não é.. E o verbo «é» é o lugar onde os dois se encontram. Não há nenhuma frase humana que não faça esse movimento.
Mas antes é preciso encarar o problema de frente, porque ele é sério e tem quem o levante há setecentos anos. É a Aula 2.
Descreva alguém que você conhece muito bem, mas usando só palavras que serviriam para outra pessoa também: generoso, ansioso, calado, teimoso.
Leia o que saiu e responda: alguém que conhecesse essa pessoa reconheceria a descrição? E o que ficou de fora?
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Aula particular — R$ 180/horaAula 2A acusação, e ela é justa como pergunta
Imagine que você leva essa doutrina a um psicólogo de consultório e a enuncia como ela é. Ele vai parar você na terceira frase: «espere. Você está dizendo que a inteligência humana não alcança a pessoa que está sentada na minha frente?»
É uma objeção justa, e é a mais séria que se faz a esta filosofia. Se o indivíduo material não é diretamente inteligível, então a inteligência humana, na sua operação própria, não alcança pessoa nenhuma. E daí sai uma acusação que atravessa a história da filosofia como um rio: esta doutrina não serve para pensar gente.
Ela não é nova nem vem de fora. Martín Echavarría, que fez o levantamento, chama-lhe, com uma expressão de Canals, a lenda negra do tomismo: desde o escotismo, o ocamismo e o suarismo — e, mais recentemente, desde o personalismo — acusa-se esta posição de negar o conhecimento intelectual do singularEste caso concreto, e não outro: esta pessoa, esta dor, este rosto. O contrário de universal., «tão patente à experiência cotidiana».
E o problema não foi inventado por Tomás: ele o herdou. A repartição que o cria — o singular para os sentidos, o universal para o intelecto — está em Aristóteles, e Tomás recebe-a junto com o resto do aparelho.
Echavarría remete a repartição à Física I, 5, e Tomás enuncia-a numa fórmula que se repetiu por séculos:
intellectus vero universalium. O sentido é dos particulares; o intelecto, dos universais.
Quem acusa a doutrina está acusando essa fórmula, que é anterior a ela.
Isso muda o lugar da acusação. Quem a faz não está flagrando um erro de Tomás; está recusando uma divisão de trabalho que a tradição inteira aceitava. Serve de consolo pobre, e vale registrá-lo assim mesmo: o problema é de família, e Tomás foi dos primeiros a dizê-lo com todas as letras em vez de o deixar por baixo do tapete.
A formulação mais dura é do padre Lucien Laberthonnière, e é exatamente a que um psicólogo faria. No sistema tomista, diz ele, o indivíduo «é do domínio do ininteligível, do irracional. A esse título, não deveria existir…»
O problema não é uma esquisitice tomista
Convém dizer de onde a dificuldade vem, porque quem a apresenta como invenção de Tomás está atacando o autor errado.
Ela é intrínseca à tradição aristotélica. Aristóteles já sustenta que o conhecimento do singular cabe aos sentidos e que ao intelecto cabe o universal — e a partir daí a pergunta «como alcanço então este homem?» fica de pé para qualquer um que o siga, tomista ou não. Tomás não criou o problema: foi, segundo os estudiosos que fizeram o levantamento, dos primeiros da tradição a enunciar a posição com clareza, em vez de a deixar implícita.
E há uma diferença entre as duas coisas que vale para o resto da vida intelectual de quem estuda aqui. Um sistema que enuncia com clareza um problema difícil fica exposto a ser atacado por causa dele. Um sistema que o deixa implícito parece não o ter. Parecer não ter um problema e não o ter são coisas diferentes, e quase toda a vantagem aparente de uma escola sobre outra, neste campo, é dessa espécie.
Rudolf Allers formulou a regra num paralelo que vale guardar: todo sistema filosófico tem problemas que só a ele pertencem, e que noutros sistemas não existem ou ficam na periferia. Allers era psiquiatra vienense, aluno da última turma de Freud, convertido ao tomismo, e é uma das figuras do Bloco 8 deste curso. Quem escolhe uma escola escolhe também a lista de problemas que vai ter de carregar. A honestidade está em conhecer a própria lista.
Usar a palavra do outro, sem se render a ela
Ao levantar a história desta discussão, Echavarría defende o direito de usar palavras que a própria tradição não tinha:
Duas coisas saem daqui. A primeira é uma licença: um curso desta tradição pode usar palavras que a tradição não tinha — «personalidade», «trauma», «apego» — sem por isso se estar rendendo. A segunda é uma cautela: pode, mas tem de saber o que está fazendo, porque cada palavra importada traz uma teoria embutida. Adotar o vocabulário do adversário sem examinar o que ele carrega é como aceitar um presente sem abrir a caixa.
É por isso que este curso desarma termos técnicos na hora em que eles aparecem, e por isso a STAN 002 abre com uma nota de rodapé sobre a palavra «abstraçãoA operação de tirar da imagem de uma coisa concreta aquilo que vale para todas as da mesma espécie. Recolher, e não esvaziar.». O vocabulário é onde as escolas se contrabandeiam umas para dentro das outras.
E aqui vale citar uma frase de Rudolf Allers que Echavarría usa para enquadrar a questão, porque ela é uma regra intelectual honesta: todo sistema filosófico tem problemas que só a ele pertencem, e que são inexistentes ou periféricos em outros sistemas.
Isto é um problema tomista. Não adianta dizer que não é. O que se pode perguntar — e é o que a Aula 3 faz — é quanto custa a alternativa.
Antes de ver a resposta da Aula 3, tente a sua: se você tivesse de defender esta filosofia diante daquele psicólogo, o que diria?
Não vale «mas na prática funciona»: tem de ser um argumento.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 3A resposta que custa menos
Um aluno, ouvida a acusação da aula anterior, propõe o remédio evidente: «então é só dizer que o intelecto alcança o indivíduo diretamente, e o problema acaba.» Ele tem razão: o problema acaba. Esta aula é sobre o que aparece no lugar dele.
A maneira óbvia de resolver o problema da Aula 2 é, de fato, dizer que o intelecto humano alcança sim, diretamente, o indivíduo material. É o que Escoto propôs, é o que a linha nominalista levou adiante, e resolve a objeção de Laberthonnière num parágrafo.
Só que a conta vem depois, e é maior.
Se o intelecto alcança diretamente o singular material, então o objeto próprio dele deixa de ser a natureza universal — e, perdida a especificidade do objeto, perde-se a especificidade da potênciaA capacidade de vir a ser ou de vir a fazer alguma coisa, antes de a fazer. A semente tem em potência a árvore.. O intelecto passa a fazer, com mais alcance, aquilo que os sentidos internos já faziam. E aí vem a consequência que ninguém quer assinar:
O argumento por baixo, e ele é de uma linha
A razão técnica é curta, e é o que impede a discussão de virar troca de preferências. Está num texto medieval que a escola discutiu durante séculos, o De principio individuationis:
Não é uma restrição arbitrária. Se duas faculdades diferentes tivessem, cada uma por si, exatamente o mesmo objeto, não haveria como distingui-las — e potências distinguem-se justamente pelos objetos. Admitir que o intelecto alcança o singular material por si é, tecnicamente, começar a apagar a fronteira entre ele e o sentido interno.
É a mesma conta da página anterior, dita de outro modo: o que se ganha em conforto perde-se em distinção.
A objeção não é boba, e os adversários entenderam bem o que estavam atacando. O problema é real, a solução fácil tem um preço maior, e por isso esta tradição prefere pagar o preço do rodeio.
Um cão da sua rua reconhece você e não reconhece o carteiro. Um cavalo distingue o dono de um estranho. Pergunte: o que é que você faz com uma pessoa que o cão não faz com você?
Se não houver resposta, a alternativa desta aula ficou sem preço. Se houver, você acabou de encontrar sozinho o argumento de Echavarría.
Mas «pagar o preço do rodeio» só é honesto se o rodeio existir de fato. Se o singular fosse simplesmente inalcançável, a acusação estaria certa e ponto final. A Aula 4 mostra o caminho de volta, e mostra por onde ele se completa.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 4O caminho de volta
Você vê um vulto ao longe e leva um instante para reconhecer quem é. Nesse instante você já sabia que era uma pessoa — a natureza chegou antes. O nome veio depois, e veio por outro caminho: pelo jeito de andar, pela roupa, pela hora do dia. São duas coisas, e a segunda só chegou pelo caminho de volta.
A palavra que Tomás usa para essa segunda é reflexãoVoltar-se sobre o próprio ato: em vez de olhar para a coisa, olhar para o ato de conhecer que acabou de acontecer. — «indiretamente e por uma como reflexão». E o mecanismo já foi estabelecido na STAN 001: mesmo depois de ter abstraído as espécies, o intelecto não entende em atoO que já está acontecendo, em oposição ao que apenas pode acontecer. A árvore crescida é ato; a semente era potência. senão voltando-se para as imagens.
É nessa volta que o singular reaparece. O intelecto entende a natureza pela espécie; e, ao voltar-se para o fantasmaA imagem que fica na cabeça depois de os sentidos terem trabalhado — o retrato interno de uma coisa concreta. Não tem nada de assombração: é o termo técnico para a imagem sensível guardada. de onde tirou a espécie, encontra ali de novo aquilo que tinha deixado de considerar — este rosto, esta cena, este João.
Falta a peça que diz como essa volta se completa, e Tomás dá-a no comentário ao De Anima, na mesma página em que trata do vulto reconhecido:
A frase fecha um circuito que atravessa as quatro disciplinas até aqui. A reflexão do intelecto sobre o fantasma não se faz sozinha: precisa da imaginativaA potência que guarda as imagens depois de o sentido ter passado. É por ela que você consegue rever mentalmente uma cara que não está à sua frente., que guarda a imagem, e da cogitativaA potência que, no homem, capta o significado das coisas concretas — que aquele cão é perigoso, que aquela pessoa é a sua mãe. Tomás também lhe chama razão particular. — aquela quarta potência interna da STAN 001, a razão particularOutro nome da cogitativa. Chama-se razão porque compara; chama-se particular porque compara casos concretos, e não ideias gerais., sensitiva e com órgão. E a última oração diz por que ela consegue: no seu ponto mais alto, o sentido já participa alguma coisa do intelecto.
Vale ainda registrar uma frase da mesma questão que costuma passar batida e que interessa diretamente a quem trabalha com gente. Ao responder a uma objeção sobre a escolha, Tomás escreve:
Pense num conselho correto que você já deu e que não adiantou nada. Depois num conselho que mudou alguma coisa em alguém.
Compare os dois e responda: o que o segundo tinha que o primeiro não tinha? A frase de Tomás sobre o universal e o particular está logo abaixo, e é bom chegar nela com a sua resposta já pronta.
Quer dizer: saber o que é bom em geral não move ninguém. Entre o princípio universal e o ato há sempre uma apreensão particular, e ela é sensitiva. É a razão técnica pela qual conselhos corretos não mudam vidas, e pela qual toda formação séria precisa passar por casos, cenas e exercícios — e não por doutrina bem enunciada.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 5Vejo-o mexer-se, e digo que o vejo vivo
Alguém atravessa a rua à sua frente e você diz, sem pensar duas vezes, que viu uma pessoa viva. Mas a vida não tem cor, não tem cheiro e não faz barulho. O que os seus olhos captaram foi um corpo colorido se mexendo.
Responda antes de continuar: o que exatamente entrou pelos seus olhos quando essa pessoa passou, e o que você soube dela sem que os olhos o tivessem entregado?
Tudo o que esta disciplina disse até aqui é verdadeiro e é indigesto. «O intelecto conhece o universal, o sentido conhece o singular» é uma frase que se repete durante anos sem entrar. Tomás resolve-a com a cena que você acabou de viver, e resolve-a numa linha:
Repare no verbo que ele mantém: vejo. Não «concluo», não «infiro». A vida chega junto com a cor, no mesmo instante, sem passo intermédio que se possa cronometrar — e no entanto quem a capta não é o olho.
E logo a seguir, na mesma página, Tomás desce ao caso ainda mais fino, que é o desta disciplina inteira: e quando o que se apreende é este homem, e não homem?
É a cogitativa da Aula 4 a fazer o seu trabalho numa cena de rua. E é aqui que se responde à pergunta com que a disciplina abriu — o que é que a sua inteligência alcança quando você olha para João.
Quem conhece não é o sentido nem o intelecto
A resposta de Tomás desloca a pergunta inteira. Enquanto se perguntar qual das duas potências alcança a pessoa, não há saída: uma alcança o universal, a outra o singular, e nenhuma das duas alcança João. A saída está em notar quem é o sujeito de que se fala.
Étienne Gilson faz desta frase o eixo do capítulo em que expõe o realismoA posição de que as coisas existem fora da nossa cabeça e podem ser conhecidas como são. É a deste curso. tomista pelo lado positivo, e tira dela a consequência que interessa a quem atende: «é o homem inteiro que conhece as coisas particulares, na medida em que pensa o que percebe».
Duas potências não fazem uma ponte entre si. Um sujeito faz — e o sujeito é o homem, não o olho e não o intelecto. Enquanto a pergunta for «qual das duas alcança João», ela não tem resposta. Formulada como «como é que este homem conhece aquele homem», tem.
O que isso muda para quem atende
Fica a conclusão prática, e ela é a razão de esta disciplina existir dentro de uma faculdade de psicologia.
Conhecer uma pessoa é um trabalho de duas mãos. Não se reduz a aplicar categorias, e também não as dispensa por uma intuição misteriosa. De um lado está o repertório de naturezas: o que é a tristeza, o que é a ira, o que é um hábito. Do outro está a percepção deste caso, que não se deduz de nenhuma delas.
Quem só tem o primeiro lado encaixa a pessoa num tipo e chama isso de diagnóstico. Quem só tem o segundo acumula impressões e nunca sabe do que está falando. A tradição diz que os dois são necessários e que eles não são a mesma faculdade — e que a segunda tem um nome, um órgão e um modo próprio de se educar.
Dois erros simétricos, e como cada um se parece com competência
Vale descrever os dois erros por dentro, porque nenhum deles se apresenta como erro.
O primeiro erro tem cara de rigor. Quem só opera com universais é rápido, é coerente e usa vocabulário exato. Ouve dez minutos e já nomeia o quadro. O problema aparece devagar: as pessoas que ele atende começam a se parecer umas com as outras, e o que ele diz sobre cada uma poderia ser dito sobre qualquer uma. Ele está descrevendo a categoria e chamando isso de descrever a pessoa. E como a categoria é verdadeira, nada no que ele diz é falso — só não é sobre ninguém.
O segundo erro tem cara de sensibilidade. Quem só opera com particulares acompanha cada caso com atenção genuína e recusa toda generalização, muitas vezes por razões nobres — «cada pessoa é única». O problema também aparece devagar: sem universais não há como comparar, e sem comparação não há aprendizado. Ele atende há vinte anos e tem vinte anos de primeira sessão. E, o que é pior, não tem como saber quando o caso está fora do alcance dele, porque reconhecer um limite exige reconhecer um tipo.
A doutrina desta disciplina é o que permite nomear os dois. Um perdeu a volta; o outro nunca saiu do particular. E o remédio é ter as duas operações inteiras, sabendo qual é qual. O meio-termo não resolve.
Olhe pela janela até passar alguém. No instante em que passar, responda: o que exatamente entrou pelos seus olhos, e o que você disse sobre a pessoa sem que os olhos o tivessem entregado?
Faça a lista das duas colunas. A primeira sai depressa. A segunda é maior do que parece, e é dela que vive qualquer trabalho com gente.
Falta agora saber como a segunda se educa — porque ela se educa, e não por leitura. É a disciplina seguinte.
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Aula particular — R$ 180/horaSínteseO que estas cinco aulas eram, juntas
Esta disciplina foi, do começo ao fim, o exame de uma acusação. A tese foi enunciada sem amaciar, o adversário falou na melhor versão dele, pesou-se o custo das duas saídas, e só então veio a resposta.
A tese: o intelecto não alcança o indivíduo material diretamente. A acusação: então esta filosofia não pensa gente. A conta: a alternativa perde a distinção entre a inteligência humana e a do animal. A resposta: há um caminho de volta, e ele passa por duas potências sensitivas. E a cena de Tomás, no fim, para que tudo isso deixe de ser uma discussão entre potências e volte a ser alguém que atravessa a rua e que você diz ver vivo.
O que fica valendo
Uma regra sobre conselhos. «A razão universal do intelecto prático não move senão mediante uma apreensão particular da parte sensitiva.» É a explicação técnica de por que dizer a alguém o que é certo quase nunca produz mudança: falta o particular pelo qual o universal move.
Uma cautela contra dois erros simétricos. O clínico que só tem universais encaixa pessoas em tipos; o que só tem particulares nunca sabe do que fala. A tradição diz que são duas faculdades, e que as duas se educam.
E a razão pela qual a ponte aguenta. A cogitativa é sensitiva e tem órgão, e mesmo assim se chama razão particular. Tomás explica a aparente contradição numa oração: no seu ponto mais alto, a virtude sensitiva participa alguma coisa da intelectiva, porque no homem o sentido se junta ao intelecto. Tirar essa oração é o modo mais rápido de perder a disciplina inteira.
O fechamento
O fechamento é um fichamento: escreva, com as suas palavras e citando a fonte, por que a solução «o intelecto alcança o singular diretamente» custa mais caro do que parece. E, se quiser ir além, descreva uma pessoa que você conhece bem usando apenas universais, e repare no que fica de fora.
ProvaCinco perguntas antes de seguir
Não é para pegar ninguém: cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quem acerta quatro das cinco destranca a disciplina seguinte na Sala de Aula. Quem não acertar volta às aulas que as explicações apontarem e refaz, quantas vezes quiser.
Ementa
O problema do singular
- Código
- STAN 004
- Bloco
- 1 — Gnoseologia
- Aulas
- 5 e uma síntese
- Narração
- 28 min
- Pré-requisito
- STAN 003
- Regime
- Sem prazo
O que a disciplina trata
O intelecto humano não conhece o singular material direta e primariamente, e sim por uma reflexão sobre a imagem. A acusação histórica de que a doutrina desconhece o indivíduo, e o levantamento dessa acusação feito por Echavarría.
O custo da alternativa: o que se perde ao dizer que o intelecto alcança o indivíduo em cheio. O caminho de volta ao singular, pela conversão às imagens, pela cogitativa e pela imaginativa. A regra de que o universal prático só move mediante uma apreensão particular. E a frase que resolve a pergunta deslocando-a: não são o sentido ou o intelecto que conhecem, mas o homem por ambos.
Objetivo
Que o aluno saiba por que a doutrina que volta o intelecto ao universal é justamente a que deixa conhecer esta pessoa, e não a que impede.
Metas — o que o aluno sai sabendo fazer
Conteúdo programático
- Aula 1O intelecto não alcança João
- Aula 2A acusação, e ela é justa como pergunta
- Aula 3A resposta que custa menos
- Aula 4O caminho de volta
- Aula 5Vejo-o mexer-se, e digo que o vejo vivo
- SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas
Como a disciplina funciona
Cada aula é um texto e a mesma coisa narrada em voz, para quem prefere ouvir; a velocidade da voz é escolhida pelo aluno. As aulas abrem em ordem, e a seguinte destranca quando ele chega na anterior. O que se explica melhor desenhado do que dito vem em esquema. Ao fim de cada aula há um exercício que pede a aplicação do que se acabou de ler a um caso do próprio aluno. A síntese fecha a disciplina e traz o fichamento, que é a página que fica depois de esquecido o resto.
A disciplina inteira pode ser baixada em PDF pelo botão no alto da página, com os esquemas e as fontes.
Verificação
A verificação tem três peças, e nenhuma delas dá nota. O exercício ao fim de cada aula, que só se responde aplicando a distinção a um caso concreto. O fichamento da síntese. E a prova de cinco perguntas que fecha a disciplina: quem acerta quatro abre a disciplina seguinte na Sala de Aula, e quem não acertar refaz quantas vezes quiser, porque cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quando o exercício não sai com as palavras do aluno, o sinal é de reler a aula antes de seguir.
Bibliografia básica
- TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 86, a. 1, e a resposta à segunda objeção. Tradução de Alexandre Correia.A tese, o «como por reflexão» e a regra do universal prático.
- ECHAVARRÍA, Martín F. «El conocimiento intelectual del individuo material según Tomás de Aquino». Espíritu, LXIII, n.º 148 (2014), pp. 347-379.O levantamento da lenda negra, a acusação de Laberthonnière e o argumento do custo da alternativa.
- TOMÁS DE AQUINO. Sentencia libri De anima, livro II, lectio XIII.A cena de quem se vê mover e se diz ver viver; a cogitativa como razão particular; e a oração que explica por que uma virtude sensitiva pode chamar-se razão.
- TOMÁS DE AQUINO. Quaestiones disputatae de Veritate, q. 2, a. 6, ad 3.«Non enim proprie loquendo sensus aut intellectus cognoscunt, sed homo per utrumque.» É o eixo da Aula 5.
Bibliografia complementar
- GILSON, Étienne. Thomist Realism and the Critique of Knowledge. Trad. Mark A. Wauck. San Francisco: Ignatius Press, 1986. Cap. 7, pp. 171-193.Original: Réalisme thomiste et critique de la connaissance, Vrin, 1939. O capítulo em que Gilson expõe o realismo tomista pelo lado positivo, e onde localiza as duas passagens de Tomás usadas na Aula 5.
- ECHAVARRÍA, Martín F. «El conocimiento intelectual del individuo material en la escuela tomista». Espíritu, LXIV (2015), n.º 150, pp. 269-302.Continuação do artigo de 2014, e não cópia dele: trata de como a escola tomista interpretou a tese, e não do que Tomás disse. É de onde vem a licença metodológica citada na Aula 3.
- MAHER, Michael. Psychology: Empirical and Rational. Londres: Longmans, 1908. Cap. V.O mesmo problema tratado num manual em inglês, para quem quiser o assunto mais devagar.
- SANGUINETI, Juan José. Introduzione alla gnoseologia. Roma: EDUSC, 2008 (1.ª ed. Le Monnier, Florença, 2003). Cap. 4, «La conoscenza di noi stessi e degli altri».O conhecimento das outras pessoas tratado como problema próprio, e não como corolário do conhecimento em geral.
As passagens latinas são citadas pela edição indicada em cada uma; a versão portuguesa é nossa onde está dito.
De onde veio cada frase
A voz antiga aparece em serifa, sempre com a referência ao lado. O que está em letra sem serifa é comentário nosso. Onde a passagem para o português é nossa, está dito na própria referência.
Onde ler a fonte, de graça
Estas obras estão em domínio público e podem ser lidas ou baixadas inteiras.
- Tomás de Aquino, Sentencia libri De anima, em latim → Corpus Thomisticum · edição Leonina
- Tomás de Aquino, De Veritate, q. 2, em latim → Corpus Thomisticum
- Suma Teológica I, qq. 84-89, em latim → Corpus Thomisticum · edição Leonina
- Maher, Psychology: Empirical and Rational → Internet Archive · edição de 1903, com paginação diferente da de 1908