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O problema do singular

STAN 004 · Bloco 1 — Gnoseologia

A pessoa à sua frente é única, e a sua inteligência trabalha com o que há de comum entre as pessoas. Como é que ela chega, então, a esta, com nome e rosto? Sem resposta a essa pergunta não há clínica possível.

Aula 1O intelecto não alcança João

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Uma pessoa está sentada à sua frente. Chame-a de João. Ela tem um rosto que você reconheceria numa multidão, uma história que ninguém mais teve, um jeito de calar que é dele e de mais ninguém.

Agora a pergunta desta disciplina, e ela é incômoda: o que é que a sua inteligência alcança quando você olha para João?

A resposta da tradição que este curso estuda é dura, e é preciso ouvi-la sem amaciar:

«O nosso intelecto não pode conhecer o singular, nas coisas materiais, direta e primariamente. […] Por onde, o nosso intelecto não conhece diretamente senão o universal. — Porém, indiretamente e por uma como reflexão, pode conhecer o singular.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 86, a. 1, Solução · trad. Alexandre Correia

O motivo já foi estabelecido nas duas disciplinas anteriores, e agora ele cobra. O princípio pelo qual esta coisa é esta e não outra é a matéria individual. O intelecto entende abstraindo a espécieNão é «tipo» nem «categoria». Aqui é o nome técnico da forma da coisa tal como ela fica dentro de quem conhece — aquilo por meio do qual você conhece a laranja, e não uma segunda laranja dentro da cabeça. justamente dessa matéria. Logo, o que ele alcança nunca é este; é sempre tal.

E Tomás não deixa a coisa em abstrato — dá o exemplo, que é dele, e é o que salva a doutrina de parecer absurda:

«Intelige diretamente o universal em si, pela espécie inteligível; indiretamente, porém, o singular, do qual são os fantasmas. E, assim, forma a proposição — Sócrates é homem.»

Olhe a proposição com atenção, porque ela é a disciplina inteira em quatro palavras. «Sócrates» vem de um lado: da imagem, do sentido, do particular. «Homem» vem do outro: da espécie inteligívelO que o intelecto tira da imagem e passa a ter dentro de si: aquilo que vale para todos os casos, e não só para este., do universalO que vale para todos os casos de uma espécie. «Homem» é universal; «este homem» não é.. E o verbo «é» é o lugar onde os dois se encontram. Não há nenhuma frase humana que não faça esse movimento.

Onde a frase nasce porque «Sócrates» vem de um lado e «homem» vem do outro o intelecto os sentidos homem justiça doença este rosto esta dor esta voz Sócrates é homem a proposição, que nenhuma coluna faz sozinha Só a esquerda: muitas naturezas e ninguém. Só a direita: rostos que não se sabe dizer o que são.
Duas colunas, e nenhuma frase se faz com uma só. Quem tivesse apenas a coluna da esquerda saberia muitas naturezas e não conheceria ninguém; quem tivesse apenas a da direita reconheceria rostos e não poderia dizer o que eles são. A inteligência humana trabalha juntando as duas — e é essa junção que a Aula 4 vai destrinchar.

Mas antes é preciso encarar o problema de frente, porque ele é sério e tem quem o levante há setecentos anos. É a Aula 2.

Antes de seguir

Descreva alguém que você conhece muito bem, mas usando palavras que serviriam para outra pessoa também: generoso, ansioso, calado, teimoso.

Leia o que saiu e responda: alguém que conhecesse essa pessoa reconheceria a descrição? E o que ficou de fora?

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Aula 2A acusação, e ela é justa como pergunta

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Imagine que você leva essa doutrina a um psicólogo de consultório e a enuncia como ela é. Ele vai parar você na terceira frase: «espere. Você está dizendo que a inteligência humana não alcança a pessoa que está sentada na minha frente?»

É uma objeção justa, e é a mais séria que se faz a esta filosofia. Se o indivíduo material não é diretamente inteligível, então a inteligência humana, na sua operação própria, não alcança pessoa nenhuma. E daí sai uma acusação que atravessa a história da filosofia como um rio: esta doutrina não serve para pensar gente.

Ela não é nova nem vem de fora. Martín Echavarría, que fez o levantamento, chama-lhe, com uma expressão de Canals, a lenda negra do tomismo: desde o escotismo, o ocamismo e o suarismo — e, mais recentemente, desde o personalismo — acusa-se esta posição de negar o conhecimento intelectual do singularEste caso concreto, e não outro: esta pessoa, esta dor, este rosto. O contrário de universal., «tão patente à experiência cotidiana».

E o problema não foi inventado por Tomás: ele o herdou. A repartição que o cria — o singular para os sentidos, o universal para o intelecto — está em Aristóteles, e Tomás recebe-a junto com o resto do aparelho.

Echavarría remete a repartição à Física I, 5, e Tomás enuncia-a numa fórmula que se repetiu por séculos:

Est enim sensus particularium,
intellectus vero universalium.
O sentido é dos particulares; o intelecto, dos universais.

Quem acusa a doutrina está acusando essa fórmula, que é anterior a ela.

Isso muda o lugar da acusação. Quem a faz não está flagrando um erro de Tomás; está recusando uma divisão de trabalho que a tradição inteira aceitava. Serve de consolo pobre, e vale registrá-lo assim mesmo: o problema é de família, e Tomás foi dos primeiros a dizê-lo com todas as letras em vez de o deixar por baixo do tapete.

A formulação mais dura é do padre Lucien Laberthonnière, e é exatamente a que um psicólogo faria. No sistema tomista, diz ele, o indivíduo «é do domínio do ininteligível, do irracional. A esse título, não deveria existir…»

A acusação vem de dentro de casa porque quem a faz é Escoto, Ockham, Suárez e o personalismo escotismo ocamismo suarismo personalismo A acusação, na versão de Laberthonnière «o indivíduo é do domínio do ininteligível, do irracional. A esse título, não deveria existir…» Para quem acompanha pessoas, é a objeção mais séria que existe: a pessoa que se atende nunca é «homem» — é sempre este homem, com este rosto e esta história.
Setecentos anos de objeção, e ela vem de dentro de casa. Escoto, Ockham, Suárez e o personalismo do século vinte não são adversários externos da tradição católica: são posições que discutiram esta com argumentos. Um curso que finja que a objeção não existe está tornando o aluno indefeso diante do primeiro leitor que a conheça.

O problema não é uma esquisitice tomista

Convém dizer de onde a dificuldade vem, porque quem a apresenta como invenção de Tomás está atacando o autor errado.

Ela é intrínseca à tradição aristotélica. Aristóteles já sustenta que o conhecimento do singular cabe aos sentidos e que ao intelecto cabe o universal — e a partir daí a pergunta «como alcanço então este homem?» fica de pé para qualquer um que o siga, tomista ou não. Tomás não criou o problema: foi, segundo os estudiosos que fizeram o levantamento, dos primeiros da tradição a enunciar a posição com clareza, em vez de a deixar implícita.

E há uma diferença entre as duas coisas que vale para o resto da vida intelectual de quem estuda aqui. Um sistema que enuncia com clareza um problema difícil fica exposto a ser atacado por causa dele. Um sistema que o deixa implícito parece não o ter. Parecer não ter um problema e não o ter são coisas diferentes, e quase toda a vantagem aparente de uma escola sobre outra, neste campo, é dessa espécie.

Rudolf Allers formulou a regra num paralelo que vale guardar: todo sistema filosófico tem problemas que só a ele pertencem, e que noutros sistemas não existem ou ficam na periferia. Allers era psiquiatra vienense, aluno da última turma de Freud, convertido ao tomismo, e é uma das figuras do Bloco 8 deste curso. Quem escolhe uma escola escolhe também a lista de problemas que vai ter de carregar. A honestidade está em conhecer a própria lista.

Usar a palavra do outro, sem se render a ela

Ao levantar a história desta discussão, Echavarría defende o direito de usar palavras que a própria tradição não tinha:

«É necessário muitas vezes inovar terminológica e conceitualmente, e adotar também a terminologia do adversário. Mas isto não implica necessariamente infidelidade à fonte.» Martín F. Echavarría, «El conocimiento intelectual del individuo material en la escuela tomista», Espíritu LXIV (2015), n.º 150, pp. 269-302. Passagem nossa do espanhol.

Duas coisas saem daqui. A primeira é uma licença: um curso desta tradição pode usar palavras que a tradição não tinha — «personalidade», «trauma», «apego» — sem por isso se estar rendendo. A segunda é uma cautela: pode, mas tem de saber o que está fazendo, porque cada palavra importada traz uma teoria embutida. Adotar o vocabulário do adversário sem examinar o que ele carrega é como aceitar um presente sem abrir a caixa.

É por isso que este curso desarma termos técnicos na hora em que eles aparecem, e por isso a STAN 002 abre com uma nota de rodapé sobre a palavra «abstraçãoA operação de tirar da imagem de uma coisa concreta aquilo que vale para todas as da mesma espécie. Recolher, e não esvaziar.». O vocabulário é onde as escolas se contrabandeiam umas para dentro das outras.

E aqui vale citar uma frase de Rudolf Allers que Echavarría usa para enquadrar a questão, porque ela é uma regra intelectual honesta: todo sistema filosófico tem problemas que só a ele pertencem, e que são inexistentes ou periféricos em outros sistemas.

Isto é um problema tomista. Não adianta dizer que não é. O que se pode perguntar — e é o que a Aula 3 faz — é quanto custa a alternativa.

Antes de seguir

Antes de ver a resposta da Aula 3, tente a sua: se você tivesse de defender esta filosofia diante daquele psicólogo, o que diria?

Não vale «mas na prática funciona»: tem de ser um argumento.

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Aula 3A resposta que custa menos

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Um aluno, ouvida a acusação da aula anterior, propõe o remédio evidente: «então é só dizer que o intelecto alcança o indivíduo diretamente, e o problema acaba.» Ele tem razão: o problema acaba. Esta aula é sobre o que aparece no lugar dele.

A maneira óbvia de resolver o problema da Aula 2 é, de fato, dizer que o intelecto humano alcança sim, diretamente, o indivíduo material. É o que Escoto propôs, é o que a linha nominalista levou adiante, e resolve a objeção de Laberthonnière num parágrafo.

Só que a conta vem depois, e é maior.

Se o intelecto alcança diretamente o singular material, então o objeto próprio dele deixa de ser a natureza universal — e, perdida a especificidade do objeto, perde-se a especificidade da potênciaA capacidade de vir a ser ou de vir a fazer alguma coisa, antes de a fazer. A semente tem em potência a árvore.. O intelecto passa a fazer, com mais alcance, aquilo que os sentidos internos já faziam. E aí vem a consequência que ninguém quer assinar:

Quem afirma a inteligibilidade direta do singular material fica sem critério para distinguir a inteligência humana das capacidades cognitivas superiores dos animais.
Nenhuma das duas posições sai de graça porque uma paga com um rodeio, e a outra com a inteligência inteira esta doutrina a alternativa paga com um rodeio: o indivíduo é alcançado, mas em segundo movimento, por reflexão sobre a imagem paga com a especificidade: se o intelecto alcança o indivíduo em cheio, deixa de se distinguir da cognição animal Nenhuma das duas sai de graça. A questão é qual das contas se prefere pagar.
Nenhuma das duas posições sai de graça. A de Tomás paga com um rodeio: o indivíduo é alcançado, mas por um segundo movimento. A alternativa paga com a especificidade da inteligência — e num tempo em que a psicologia comparada e a neurociência estão a postos, essa é uma conta que ninguém quer pagar explicitamente, embora muita gente a pague sem perceber.

O argumento por baixo, e ele é de uma linha

A razão técnica é curta, e é o que impede a discussão de virar troca de preferências. Está num texto medieval que a escola discutiu durante séculos, o De principio individuationis:

Duas potências não podem ter o mesmo objeto por si. Ora, o singular material é objeto do sentido. Logo, se for também objeto do intelecto, só o pode ser por acidente — e é isso que se dá pela reflexão.

Não é uma restrição arbitrária. Se duas faculdades diferentes tivessem, cada uma por si, exatamente o mesmo objeto, não haveria como distingui-las — e potências distinguem-se justamente pelos objetos. Admitir que o intelecto alcança o singular material por si é, tecnicamente, começar a apagar a fronteira entre ele e o sentido interno.

É a mesma conta da página anterior, dita de outro modo: o que se ganha em conforto perde-se em distinção.

A objeção não é boba, e os adversários entenderam bem o que estavam atacando. O problema é real, a solução fácil tem um preço maior, e por isso esta tradição prefere pagar o preço do rodeio.

Antes de seguir

Um cão da sua rua reconhece você e não reconhece o carteiro. Um cavalo distingue o dono de um estranho. Pergunte: o que é que você faz com uma pessoa que o cão não faz com você?

Se não houver resposta, a alternativa desta aula ficou sem preço. Se houver, você acabou de encontrar sozinho o argumento de Echavarría.

Mas «pagar o preço do rodeio» só é honesto se o rodeio existir de fato. Se o singular fosse simplesmente inalcançável, a acusação estaria certa e ponto final. A Aula 4 mostra o caminho de volta, e mostra por onde ele se completa.

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Aula 4O caminho de volta

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Você vê um vulto ao longe e leva um instante para reconhecer quem é. Nesse instante você já sabia que era uma pessoa — a natureza chegou antes. O nome veio depois, e veio por outro caminho: pelo jeito de andar, pela roupa, pela hora do dia. São duas coisas, e a segunda só chegou pelo caminho de volta.

A palavra que Tomás usa para essa segunda é reflexãoVoltar-se sobre o próprio ato: em vez de olhar para a coisa, olhar para o ato de conhecer que acabou de acontecer. — «indiretamente e por uma como reflexão». E o mecanismo já foi estabelecido na STAN 001: mesmo depois de ter abstraído as espécies, o intelecto não entende em atoO que já está acontecendo, em oposição ao que apenas pode acontecer. A árvore crescida é ato; a semente era potência. senão voltando-se para as imagens.

É nessa volta que o singular reaparece. O intelecto entende a natureza pela espécie; e, ao voltar-se para o fantasmaA imagem que fica na cabeça depois de os sentidos terem trabalhado — o retrato interno de uma coisa concreta. Não tem nada de assombração: é o termo técnico para a imagem sensível guardada. de onde tirou a espécie, encontra ali de novo aquilo que tinha deixado de considerar — este rosto, esta cena, este João.

Falta a peça que diz como essa volta se completa, e Tomás dá-a no comentário ao De Anima, na mesma página em que trata do vulto reconhecido:

«Se for apreendido no singular — como quando vejo algo colorido e percebo este homem ou este animal —, tal apreensão faz-se no homem pela virtude cogitativa, que também se chama razão particular. E, no entanto, esta virtude está na parte sensitiva: porque a virtude sensitiva, no que tem de mais alto, participa alguma coisa da virtude intelectiva no homem, em quem o sentido se junta ao intelectoTomás de Aquino, Comentário ao De Anima, livro II, lectio XIII (trad. nossa do latim)

A frase fecha um circuito que atravessa as quatro disciplinas até aqui. A reflexão do intelecto sobre o fantasma não se faz sozinha: precisa da imaginativaA potência que guarda as imagens depois de o sentido ter passado. É por ela que você consegue rever mentalmente uma cara que não está à sua frente., que guarda a imagem, e da cogitativaA potência que, no homem, capta o significado das coisas concretas — que aquele cão é perigoso, que aquela pessoa é a sua mãe. Tomás também lhe chama razão particular. — aquela quarta potência interna da STAN 001, a razão particularOutro nome da cogitativa. Chama-se razão porque compara; chama-se particular porque compara casos concretos, e não ideias gerais., sensitiva e com órgão. E a última oração diz por que ela consegue: no seu ponto mais alto, o sentido já participa alguma coisa do intelecto.

O caminho de volta porque é por ele que uma antropologia de universais chega a esta pessoa O intelecto O fantasma Este João a cogitativa e a imaginativa Por que a dobradiça aguenta A cogitativa é sensitiva e tem órgão. Mesmo assim chama-se razão particular — porque a virtude sensitiva, no que tem de mais alto, participa alguma coisa da virtude intelectiva.
A caixa tracejada é a dobradiça do curso inteiro. É por ela que uma antropologia de naturezas universais consegue chegar a esta pessoa. E é por isso que o erro do manual brasileiro — pôr a cogitativa do lado intelectual — não é briga de especialista: se a cogitativa for intelectiva, a caixa tracejada muda de lugar e a ponte cai.

Vale ainda registrar uma frase da mesma questão que costuma passar batida e que interessa diretamente a quem trabalha com gente. Ao responder a uma objeção sobre a escolha, Tomás escreve:

«A razão universal do intelecto prático não move senão mediante uma apreensão particular da parte sensitiva.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 86, a. 1, resposta à segunda objeção
Antes de seguir

Pense num conselho correto que você já deu e que não adiantou nada. Depois num conselho que mudou alguma coisa em alguém.

Compare os dois e responda: o que o segundo tinha que o primeiro não tinha? A frase de Tomás sobre o universal e o particular está logo abaixo, e é bom chegar nela com a sua resposta já pronta.

Quer dizer: saber o que é bom em geral não move ninguém. Entre o princípio universal e o ato há sempre uma apreensão particular, e ela é sensitiva. É a razão técnica pela qual conselhos corretos não mudam vidas, e pela qual toda formação séria precisa passar por casos, cenas e exercícios — e não por doutrina bem enunciada.

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Aula 5Vejo-o mexer-se, e digo que o vejo vivo

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Alguém atravessa a rua à sua frente e você diz, sem pensar duas vezes, que viu uma pessoa viva. Mas a vida não tem cor, não tem cheiro e não faz barulho. O que os seus olhos captaram foi um corpo colorido se mexendo.

Responda antes de continuar: o que exatamente entrou pelos seus olhos quando essa pessoa passou, e o que você soube dela sem que os olhos o tivessem entregado?

Os olhos captaram um corpo colorido se mexendo. Quem olha diz que viu uma pessoa viva — e a vida não tem cor, não tem cheiro e não faz barulho.

Tudo o que esta disciplina disse até aqui é verdadeiro e é indigesto. «O intelecto conhece o universal, o sentido conhece o singular» é uma frase que se repete durante anos sem entrar. Tomás resolve-a com a cena que você acabou de viver, e resolve-a numa linha:

«Assim que vejo alguém a falar, ou a mover-se a si mesmo, apreendo pelo intelecto a vida dele — donde posso dizer que o vejo viverTomás de Aquino, Comentário ao De Anima, livro II, lectio XIII (trad. nossa do latim)

Repare no verbo que ele mantém: vejo. Não «concluo», não «infiro». A vida chega junto com a cor, no mesmo instante, sem passo intermédio que se possa cronometrar — e no entanto quem a capta não é o olho.

E logo a seguir, na mesma página, Tomás desce ao caso ainda mais fino, que é o desta disciplina inteira: e quando o que se apreende é este homem, e não homem?

«Se porém for apreendido no singular — como quando vejo algo colorido e percebo este homem ou este animal —, tal apreensão faz-se no homem pela virtude cogitativa, que também se chama razão particular, por ser comparadora de intenções individuais, assim como a razão universal é comparadora de razões universais.» Tomás de Aquino, Comentário ao De Anima, livro II, lectio XIII (trad. nossa do latim)

É a cogitativa da Aula 4 a fazer o seu trabalho numa cena de rua. E é aqui que se responde à pergunta com que a disciplina abriu — o que é que a sua inteligência alcança quando você olha para João.

Quem conhece não é o sentido nem o intelecto

A resposta de Tomás desloca a pergunta inteira. Enquanto se perguntar qual das duas potências alcança a pessoa, não há saída: uma alcança o universal, a outra o singular, e nenhuma das duas alcança João. A saída está em notar quem é o sujeito de que se fala.

«O homem conhece os singulares pela imaginação e pelo sentido, e por isso pode aplicar ao particular o conhecimento universal que está no intelecto: pois, falando com propriedade, não são o sentido ou o intelecto que conhecem, mas o homem por ambos.» Tomás de Aquino, De Veritate, q. 2, a. 6, ad 3 (trad. nossa do latim)

Étienne Gilson faz desta frase o eixo do capítulo em que expõe o realismoA posição de que as coisas existem fora da nossa cabeça e podem ser conhecidas como são. É a deste curso. tomista pelo lado positivo, e tira dela a consequência que interessa a quem atende: «é o homem inteiro que conhece as coisas particulares, na medida em que pensa o que percebe».

A troca que a frase opera

Duas potências não fazem uma ponte entre si. Um sujeito faz — e o sujeito é o homem, não o olho e não o intelecto. Enquanto a pergunta for «qual das duas alcança João», ela não tem resposta. Formulada como «como é que este homem conhece aquele homem», tem.

A pergunta estava mal posta porque quem conhece não é o olho nem o intelecto: é o homem A pergunta sem saída o sentido o intelecto a ponte que não se constrói A pergunta com saída o homem que sente e intelige num ato só João A vida que você «vê» quando alguém se mexe não entrou pelo olho, e chegou junto com a cor.
A pergunta estava mal posta, e por isso não tinha resposta. Nenhuma das duas potências alcança uma pessoa, e não há ponte a construir entre elas porque não são dois conhecedores. O conhecedor é um, e tem as duas. É a diferença entre perguntar qual instrumento toca a música e perguntar quem é o músico.

O que isso muda para quem atende

Fica a conclusão prática, e ela é a razão de esta disciplina existir dentro de uma faculdade de psicologia.

Conhecer uma pessoa é um trabalho de duas mãos. Não se reduz a aplicar categorias, e também não as dispensa por uma intuição misteriosa. De um lado está o repertório de naturezas: o que é a tristeza, o que é a ira, o que é um hábito. Do outro está a percepção deste caso, que não se deduz de nenhuma delas.

Quem só tem o primeiro lado encaixa a pessoa num tipo e chama isso de diagnóstico. Quem só tem o segundo acumula impressões e nunca sabe do que está falando. A tradição diz que os dois são necessários e que eles não são a mesma faculdade — e que a segunda tem um nome, um órgão e um modo próprio de se educar.

Dois erros simétricos, e como cada um se parece com competência

Vale descrever os dois erros por dentro, porque nenhum deles se apresenta como erro.

O primeiro erro tem cara de rigor. Quem só opera com universais é rápido, é coerente e usa vocabulário exato. Ouve dez minutos e já nomeia o quadro. O problema aparece devagar: as pessoas que ele atende começam a se parecer umas com as outras, e o que ele diz sobre cada uma poderia ser dito sobre qualquer uma. Ele está descrevendo a categoria e chamando isso de descrever a pessoa. E como a categoria é verdadeira, nada no que ele diz é falso — só não é sobre ninguém.

O segundo erro tem cara de sensibilidade. Quem só opera com particulares acompanha cada caso com atenção genuína e recusa toda generalização, muitas vezes por razões nobres — «cada pessoa é única». O problema também aparece devagar: sem universais não há como comparar, e sem comparação não há aprendizado. Ele atende há vinte anos e tem vinte anos de primeira sessão. E, o que é pior, não tem como saber quando o caso está fora do alcance dele, porque reconhecer um limite exige reconhecer um tipo.

A doutrina desta disciplina é o que permite nomear os dois. Um perdeu a volta; o outro nunca saiu do particular. E o remédio é ter as duas operações inteiras, sabendo qual é qual. O meio-termo não resolve.

Antes de seguir

Olhe pela janela até passar alguém. No instante em que passar, responda: o que exatamente entrou pelos seus olhos, e o que você disse sobre a pessoa sem que os olhos o tivessem entregado?

Faça a lista das duas colunas. A primeira sai depressa. A segunda é maior do que parece, e é dela que vive qualquer trabalho com gente.

Falta agora saber como a segunda se educa — porque ela se educa, e não por leitura. É a disciplina seguinte.

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SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas

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Esta disciplina foi, do começo ao fim, o exame de uma acusação. A tese foi enunciada sem amaciar, o adversário falou na melhor versão dele, pesou-se o custo das duas saídas, e só então veio a resposta.

A tese: o intelecto não alcança o indivíduo material diretamente. A acusação: então esta filosofia não pensa gente. A conta: a alternativa perde a distinção entre a inteligência humana e a do animal. A resposta: há um caminho de volta, e ele passa por duas potências sensitivas. E a cena de Tomás, no fim, para que tudo isso deixe de ser uma discussão entre potências e volte a ser alguém que atravessa a rua e que você diz ver vivo.

1 · O intelecto não alcança João 2 · A acusação de sete séculos 3 · A conta da alternativa 4 · O caminho de volta 5 · Vejo-o vivo direto, só o universal — «Sócrates é homem» o indivíduo seria do domínio do ininteligível perde-se a diferença entre o homem e o animal a reflexão, com a cogitativa e a imaginativa quem conhece é o homem, não o olho nem o intelecto A seguir, STAN 005 — como se chega a conhecer esta pessoa.
Um caminho, cinco estações. A segunda dá a palavra ao adversário e a terceira paga a conta em público. Sem as duas, o aluno sai com uma tese e sem a defesa dela.

O que fica valendo

Uma regra sobre conselhos. «A razão universal do intelecto prático não move senão mediante uma apreensão particular da parte sensitiva.» É a explicação técnica de por que dizer a alguém o que é certo quase nunca produz mudança: falta o particular pelo qual o universal move.

Uma cautela contra dois erros simétricos. O clínico que só tem universais encaixa pessoas em tipos; o que só tem particulares nunca sabe do que fala. A tradição diz que são duas faculdades, e que as duas se educam.

E a razão pela qual a ponte aguenta. A cogitativa é sensitiva e tem órgão, e mesmo assim se chama razão particular. Tomás explica a aparente contradição numa oração: no seu ponto mais alto, a virtude sensitiva participa alguma coisa da intelectiva, porque no homem o sentido se junta ao intelecto. Tirar essa oração é o modo mais rápido de perder a disciplina inteira.

O fechamento

O fechamento é um fichamento: escreva, com as suas palavras e citando a fonte, por que a solução «o intelecto alcança o singular diretamente» custa mais caro do que parece. E, se quiser ir além, descreva uma pessoa que você conhece bem usando apenas universais, e repare no que fica de fora.

ProvaCinco perguntas antes de seguir

Não é para pegar ninguém: cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quem acerta quatro das cinco destranca a disciplina seguinte na Sala de Aula. Quem não acertar volta às aulas que as explicações apontarem e refaz, quantas vezes quiser.

Ementa

O problema do singular

Código
STAN 004
Bloco
1 — Gnoseologia
Aulas
5 e uma síntese
Narração
28 min
Pré-requisito
STAN 003
Regime
Sem prazo

O que a disciplina trata

O intelecto humano não conhece o singular material direta e primariamente, e sim por uma reflexão sobre a imagem. A acusação histórica de que a doutrina desconhece o indivíduo, e o levantamento dessa acusação feito por Echavarría.

O custo da alternativa: o que se perde ao dizer que o intelecto alcança o indivíduo em cheio. O caminho de volta ao singular, pela conversão às imagens, pela cogitativa e pela imaginativa. A regra de que o universal prático só move mediante uma apreensão particular. E a frase que resolve a pergunta deslocando-a: não são o sentido ou o intelecto que conhecem, mas o homem por ambos.

Objetivo

Que o aluno saiba por que a doutrina que volta o intelecto ao universal é justamente a que deixa conhecer esta pessoa, e não a que impede.

Metas — o que o aluno sai sabendo fazer

  1. Enunciar a tese com as suas duas ressalvas: nem direta, nem primariamente.
  2. Formular a acusação na sua forma mais forte, antes de responder a ela.
  3. Dizer o que custa a solução fácil, e em que a inteligência humana deixaria de se distinguir da sensitiva.
  4. Descrever o caminho de volta ao singular e nomear as faculdades que o percorrem.
  5. Aplicar a regra do universal prático a uma decisão concreta, do trabalho ou de casa.

Conteúdo programático

  • Aula 1O intelecto não alcança João
  • Aula 2A acusação, e ela é justa como pergunta
  • Aula 3A resposta que custa menos
  • Aula 4O caminho de volta
  • Aula 5Vejo-o mexer-se, e digo que o vejo vivo
  • SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas

Como a disciplina funciona

Cada aula é um texto e a mesma coisa narrada em voz, para quem prefere ouvir; a velocidade da voz é escolhida pelo aluno. As aulas abrem em ordem, e a seguinte destranca quando ele chega na anterior. O que se explica melhor desenhado do que dito vem em esquema. Ao fim de cada aula há um exercício que pede a aplicação do que se acabou de ler a um caso do próprio aluno. A síntese fecha a disciplina e traz o fichamento, que é a página que fica depois de esquecido o resto.

A disciplina inteira pode ser baixada em PDF pelo botão no alto da página, com os esquemas e as fontes.

Verificação

A verificação tem três peças, e nenhuma delas dá nota. O exercício ao fim de cada aula, que só se responde aplicando a distinção a um caso concreto. O fichamento da síntese. E a prova de cinco perguntas que fecha a disciplina: quem acerta quatro abre a disciplina seguinte na Sala de Aula, e quem não acertar refaz quantas vezes quiser, porque cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quando o exercício não sai com as palavras do aluno, o sinal é de reler a aula antes de seguir.

Bibliografia básica

  • TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 86, a. 1, e a resposta à segunda objeção. Tradução de Alexandre Correia.A tese, o «como por reflexão» e a regra do universal prático.
  • ECHAVARRÍA, Martín F. «El conocimiento intelectual del individuo material según Tomás de Aquino». Espíritu, LXIII, n.º 148 (2014), pp. 347-379.O levantamento da lenda negra, a acusação de Laberthonnière e o argumento do custo da alternativa.
  • TOMÁS DE AQUINO. Sentencia libri De anima, livro II, lectio XIII.A cena de quem se vê mover e se diz ver viver; a cogitativa como razão particular; e a oração que explica por que uma virtude sensitiva pode chamar-se razão.
  • TOMÁS DE AQUINO. Quaestiones disputatae de Veritate, q. 2, a. 6, ad 3.«Non enim proprie loquendo sensus aut intellectus cognoscunt, sed homo per utrumque.» É o eixo da Aula 5.

Bibliografia complementar

  • GILSON, Étienne. Thomist Realism and the Critique of Knowledge. Trad. Mark A. Wauck. San Francisco: Ignatius Press, 1986. Cap. 7, pp. 171-193.Original: Réalisme thomiste et critique de la connaissance, Vrin, 1939. O capítulo em que Gilson expõe o realismo tomista pelo lado positivo, e onde localiza as duas passagens de Tomás usadas na Aula 5.
  • ECHAVARRÍA, Martín F. «El conocimiento intelectual del individuo material en la escuela tomista». Espíritu, LXIV (2015), n.º 150, pp. 269-302.Continuação do artigo de 2014, e não cópia dele: trata de como a escola tomista interpretou a tese, e não do que Tomás disse. É de onde vem a licença metodológica citada na Aula 3.
  • MAHER, Michael. Psychology: Empirical and Rational. Londres: Longmans, 1908. Cap. V.O mesmo problema tratado num manual em inglês, para quem quiser o assunto mais devagar.
  • SANGUINETI, Juan José. Introduzione alla gnoseologia. Roma: EDUSC, 2008 (1.ª ed. Le Monnier, Florença, 2003). Cap. 4, «La conoscenza di noi stessi e degli altri».O conhecimento das outras pessoas tratado como problema próprio, e não como corolário do conhecimento em geral.

As passagens latinas são citadas pela edição indicada em cada uma; a versão portuguesa é nossa onde está dito.

De onde veio cada frase

A voz antiga aparece em serifa, sempre com a referência ao lado. O que está em letra sem serifa é comentário nosso. Onde a passagem para o português é nossa, está dito na própria referência.

c. 1268
Tomás de Aquino, Sentencia libri De anima, livro II, lectio XIII
O comentário ao De Anima de Aristóteles, lido em Paris. Desta lição saem três peças da disciplina: o sensível por acidente que se apreende ad occursum rei sensatae; a cena de quem vê alguém mover-se e diz vê-lo viver; e a cogitativa como razão particular, com a oração que explica por que uma virtude sensitiva pode ter esse nome. Edição de Parma, 1866.
1256-1259
Tomás de Aquino, Quaestiones disputatae de Veritate, q. 2, a. 6, ad 3
«Non enim, proprie loquendo, sensus aut intellectus cognoscunt, sed homo per utrumque.» É o eixo da Aula 5, e o que desloca a pergunta de «qual potência alcança João» para «como este homem conhece aquele homem». Edição de Paris, 1883.
1266-1268
Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 86, a. 1
A tese, o «como por reflexão», a proposição «Sócrates é homem» e, na resposta à segunda objeção, a regra de que o universal prático só move mediante apreensão particular. Tradução de Alexandre Correia.
1939
Étienne Gilson, Réalisme thomiste et critique de la connaissance
Citado pela tradução inglesa de Mark A. Wauck, Thomist Realism and the Critique of Knowledge, Ignatius Press, San Francisco, 1986. O capítulo 7, «The Knowing Subject», pp. 171-193, é onde ele expõe o realismo tomista pelo lado positivo e localiza as duas passagens de Tomás que sustentam a Aula 5.
2014
Martín F. Echavarría, «El conocimiento intelectual del individuo material según Tomás de Aquino»
Espíritu LXIII, n.º 148, pp. 347-379. O levantamento da «lenda negra», a acusação de Laberthonnière e o argumento do custo da alternativa. A continuação está em Espíritu LXIV (2015), n.º 150, pp. 269-302.
1908
Michael Maher, Psychology: Empirical and Rational
Londres, Longmans. Capítulo V, sobre o conhecimento do singular. Manual de psicologia escolástica em inglês.

Onde ler a fonte, de graça

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