A dupla reflexão e o experimentum
Como se chega a conhecer uma pessoa por dentro, inclusive quando essa pessoa é você. Chega-se reparando no que se faz, vez após vez, até a experiência ganhar forma, e não olhando para dentro. E o que você sente pela pessoa entra na conta.
Aula 1Não há janela para dentro
Alguém lhe pergunta: «o que é que você está sentindo agora?» E você fica parado, procurando. Vale a pena parar um instante e observar: o que exatamente você faz nesse momento de procura?
A imagem que a nossa cultura costuma oferecer é a de um olhar para dentro — como se houvesse um cômodo interno, iluminado, e bastasse virar a cabeça para ver o que há nele. É essa imagem que sustenta boa parte do vocabulário psicológico contemporâneo: entrar em contato consigo, escutar-se, olhar para dentro.
Esta tradição sugere que esse cômodo, na verdade, não existe. E ela diz isso de um jeito bem preciso:
O argumento vem direto da STAN 002: só é conhecível o que está em atoO que já está acontecendo, em oposição ao que apenas pode acontecer. A árvore crescida é ato; a semente era potência.. E o intelecto humano, considerado na sua essência, é pura potênciaA capacidade de vir a ser ou de vir a fazer alguma coisa, antes de a fazer. A semente tem em potência a árvore. — «assim como a matéria prima se comporta no gênero das coisas sensíveis», diz Tomás, e por isso se chama possível. Uma potência pura não tem o que oferecer ao olhar. Ela não se ilumina de dentro, sozinha.
Então como é que você sabe que tem uma mente? Você a flagra trabalhando. Percebe que está entendendo alguma coisa, e nesse mesmo ato percebe que há em você aquilo que entende:
Vale medir o alcance disso com um caso bem comum. Alguém acorda de mau humor e passa a manhã tentando descobrir por quê. Olha para dentro, e não acha nada. Ao meio-dia lembra-se de que sonhou com o pai. A informação não estava guardada num cômodo à espera de ser encontrada: ela voltou por um ato — a lembrança — e foi nesse ato que a pessoa se flagrou.
É por isso que o conselho de «prestar mais atenção a si mesmo» costuma render tão pouco quando é dado assim, solto, sem mais contexto. Atenção a quê? Não há objeto à espera. Há atos, e eles acontecem quando acontecem — a maior parte enquanto a pessoa está ocupada com outra coisa. Quem quer conhecer-se acaba tendo de fazer algo um pouco diferente do que a frase sugere: em vez de se olhar, agir e reparar.
Isso já muda bastante coisa. Mas a distinção que vem a seguir muda ainda mais, porque separa duas operações que a palavra «autoconhecimento» junta e que, na prática, não têm muito a ver uma com a outra.
Escolha uma coisa que você tem certeza de saber sobre si mesmo — que é impaciente, que é generoso, que não guarda mágoa. Agora responda: como é que você ficou sabendo?
Se a resposta for «eu sei porque sou eu», guarde-a por um instante. A Aula 2 mostra o que ela vale.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 2Dois conhecimentos de si, e só um é fácil
Duas perguntas parecem a mesma coisa, mas não são. A primeira: «você está pensando agora?» A segunda: «o que é pensar?»
A primeira você responde sem hesitar, e responderia mesmo se nunca tivesse aberto um livro na vida. A segunda ocupa gente há dois mil e quinhentos anos, e as respostas nem sempre concordam entre si. As duas são perguntas sobre a sua mente, feitas a você, sobre o que está acontecendo dentro de você neste instante — e uma é praticamente de graça, e a outra é uma ciência inteira.
Tomás continua o mesmo artigo distinguindo esses dois modos, e é uma das distinções mais úteis que este curso vai oferecer:
E então explica o que custa cada um:
Consciência não é «sentir por dentro» — e a língua comum confunde os dois
Antes de avançar, vale a pena esclarecer uma palavra, porque ela pode atrapalhar tudo o que vem a seguir se ficar como está.
Em português, «ter consciência de» e «sentir por dentro» costumam funcionar como sinônimos. Soriano observa que não são bem a mesma coisa, e a distinção que ele faz é exatamente a que esta disciplina precisa:
Traduzindo: um cão sente as próprias modificações. Sente fome, sente medo, e não confunde uma com a outra. Isso é senso íntimoA percepção que o animal tem dos próprios estados: sentir que sente. É sensitiva, e não intelectual., e é sensitivo. O que ele não faz é voltar-se sobre o próprio ato e reconhecer-se como aquele que sente. Isso é consciência, e pertence ao intelecto.
A confusão entre essas duas coisas é a causa de boa parte do que hoje se chama trabalho de autoconhecimento. Prestar atenção às próprias sensações é útil, e é uma competência real — mas é senso íntimo aperfeiçoado, ainda não é bem consciência. E o inverso também acontece: existe gente que se conhece muito bem em conceito, e que quase não repara no que sente.
E o mesmo vale para tudo o que há dentro de você
O artigo seguinte da mesma questão estende essa regra, e é aqui que ela deixa de ser uma curiosidade filosófica e passa a valer para a vida de qualquer um. A pergunta é se conhecemos os hábitos da alma — a fé, a coragem, a mesquinharia, o que quer que seja — pela essência deles.
A resposta é não, e pelo mesmo motivo de antes: um hábito é «o meio entre a potência pura e o ato puro», e, na medida em que ainda não é ato, também não é diretamente conhecível. Logo:
E o exemplo com que Tomás responde à primeira objeção é de uma clareza que quase dispensa comentário:
Aplique isso a qualquer coisa da sua própria vida. Ninguém sabe que é generoso olhando para dentro e encontrando lá uma generosidade guardada; sabe porque se flagrou dando. Ninguém sabe que perdoou porque inspecionou o próprio coração; sabe porque notou que já não busca o troco. E — o lado mais incômodo dessa ideia — ninguém sabe que tem um vício a não ser notando os atos dele. Quem não olha para os próprios atos não tem, sobre si, informação nenhuma; tem apenas uma opinião a respeito de si, que é outra coisa bem diferente.
Flagra-se em ato.
A estrutura da aula anterior se repete aqui, e Tomás a repete de propósito: perceber que tenho um hábito se dá «pela presença mesma dele»; saber o que ele é exige «perquirição atenta». Os dois autoconhecimentos aparecem de novo, agora no plano do caráter.
E a primeira coisa que a mente conhece não é ela mesma
Falta um dado que fecha esta aula e que costuma surpreender bastante. Tomás compara três intelectos, e a comparação diz muito sobre o lugar que ocupamos entre eles.
O intelecto divino é o seu próprio entender. O intelecto do anjo não é o seu entender, mas o primeiro objeto dele é a própria essência: o anjo começa por si mesmo. E o humano:
Quer dizer: nós começamos pelo mundo. A primeira coisa que a inteligência humana conhece não é ela mesma — é a pedra, a árvore, o rosto do outro. O autoconhecimento vem depois, e vem por dentro desse contato com o mundo. Uma espiritualidade que peça para alguém fechar-se em si mesmo para se encontrar está, de certo modo, pedindo que se comece pelo fim — e por um fim que, nesta antropologia, não existe isoladamente.
Volte à coisa que você disse saber sobre si, no fim da Aula 1. Ela era do primeiro tipo, ou do segundo? Ou seja: você a flagrou num ato seu, ou é uma explicação que você tem sobre si mesmo?
Explicações sobre si pertencem ao segundo tipo — e, no segundo tipo, a frase é de Tomás, muitos já se enganaram.
A consequência disso vale para o curso inteiro, e para qualquer conversa sobre psicologia. Ter uma alma não dá a ninguém autoridade automática sobre a natureza da alma — do mesmo modo que ter um estômago não dá autoridade automática sobre digestão. O primeiro conhecimento é gratuito e é de todos. O segundo exige trabalho, e nele se pode errar.
Tomás cita Agostinho para dizer como o segundo conhecimento se constrói, e a frase é bonita: que a alma «não procure considerar-se como ausente, mas cure de se discernir como presente». Quer dizer: que não tente se olhar de fora, como quem examina um objeto qualquer. Que se distinga das outras coisas a partir de onde ela já está.
Falta agora entender que movimento é esse. A Aula 3 mostra que, na verdade, são dois.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 3A reflexão é dupla
Você reconhece uma música na rua e leva dois segundos para lembrar de onde a conhece. Nesses dois segundos, acontecem duas coisas ao mesmo tempo, e vale a pena separá-las, porque a disciplina inteira depende disso.
Uma: você percebe que está lembrando — que há alguém ali fazendo força para lembrar, e esse alguém é você. Outra: você volta à cena de onde a música veio — o carro do seu tio, o verão, a estrada. Nenhuma das duas voltas é a própria música.
A palavra «reflexãoVoltar-se sobre o próprio ato: em vez de olhar para a coisa, olhar para o ato de conhecer que acabou de acontecer.» aparece desde a disciplina anterior e ainda não tinha sido bem aberta. Abre-se agora, e dentro dela estão exatamente essas duas coisas.
Um texto medieval chamado De principio individuationis, atribuído por alguns a Tomás e provavelmente escrito por Thomas de Sutton, faz essa distinção com bastante precisão:
Traduzindo a arquitetura da ideia: quando você entende alguma coisa, pode voltar sobre o próprio ato — e aí encontra quem age, isto é, você mesmo. Ou pode voltar pelo caminho de onde o conceito veio — e aí encontra a cena concreta de onde ele foi colhido. Duas voltas, dois achados diferentes. E as duas terminam no singularEste caso concreto, e não outro: esta pessoa, esta dor, este rosto. O contrário de universal., que é o ponto central aqui: o singular não é alcançado pela via direta, mas ainda assim é alcançado.
Soriano diz a mesma coisa em português, e junta as duas voltas num só ato:
É um ato só, com duas faces. E é por isso que, na experiência do dia a dia, ninguém sente que está fazendo duas coisas ao mesmo tempo: é preciso um esforço de análise para perceber que são, de fato, duas.
Lembre-se de um cheiro que lhe traz alguma coisa de volta. Deixe a lembrança vir naturalmente. Depois separe as duas voltas: o que você encontrou do lado de quem lembra, e o que encontrou do lado da cena em si?
As duas terminam em algo singular, e é preciso um pouco de esforço para ver que são realmente duas.
Neste ponto, a disciplina fica um pouco delicada, e a Aula 4 serve justamente para segurar esse ponto.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 4Onde a reflexão para
Há uma frase que costuma aparecer nesta altura de qualquer curso assim, e que soa tão bem que quase ninguém para para examiná-la de perto: «no fundo, tudo se conhece por reflexão».
Ela encaixa perfeitamente em tudo o que foi dito até aqui, e mesmo assim não é bem verdadeira. Se ela passar sem exame, esta disciplina inteira corre o risco de virar idealismoA posição de que só alcançamos as nossas próprias representações. O mundo lá fora fica sendo hipótese. com vocabulário tomista — e o aluno pode sair daqui achando que aprendeu Tomás quando, na verdade, aprendeu outra coisa bem diferente.
O aviso vem de Cajetano, comentando um artigo da Suma sobre a verdade, e ele avisa justamente que a leitura mais óbvia do texto não é a correta:
Você olha o relógio e vê que são três horas. Pergunte-se: para saber que é verdade que são três horas, você precisou primeiro voltar-se sobre o seu próprio ato de olhar?
Responda com honestidade antes de ler a resposta de Cajetano. É nessa pergunta que cabe boa parte da diferença entre esta tradição e o idealismo.
Esse aviso é raro justamente porque Cajetano não está corrigindo um adversário externo: está dizendo que o próprio texto de Tomás, lido do jeito mais natural, pode levar ao equívoco. É um comentador avisando que a superfície da letra pode enganar quem lê rápido demais. Um curso que só repetisse a letra ao pé da linha acabaria passando esse equívoco adiante, com a melhor das intenções.
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Aula particular — R$ 180/horaAula 5O experimentum, e por que analisar não basta
Todo mundo conhece alguém assim. Uma enfermeira de trinta anos de casa que olha para o paciente e diz «este vai piorar hoje à noite», e acerta — e que, se você perguntar como ela sabe, apenas encolhe os ombros. Um mecânico que identifica o barulho antes mesmo de abrir o capô. Uma professora que já sabe qual criança vai chorar no recreio.
Antes do nome técnico, arrisque a sua própria explicação: o que é que a enfermeira tem, que um manual não tem? E a pergunta que separa as respostas fáceis das boas: bastaria ela ter visto muitos pacientes ao longo da carreira?
Nada disso é adivinhação, e nada disso está escrito num manual. Chegamos à peça que este bloco inteiro estava preparando: se o particular não pode ser objeto de ciência — porque ciência é do universalO que vale para todos os casos de uma espécie. «Homem» é universal; «este homem» não é. —, então como é que essas pessoas sabem o que sabem?
A tradição tem um nome para isso, e o nome não é intuição: experimentumA competência de acertar em casos concretos, que se ganha decidindo muitas vezes e sendo corrigido. Não é a soma dos casos vistos.. E ele tem um mecanismo próprio, que vale a pena entender bem.
Não confunda com experiri, que é simplesmente perceber um caso isolado. O experimentum supõe muitas experiências, comparadas umas com as outras pela cogitativaA potência que, no homem, capta o significado das coisas concretas — que aquele cão é perigoso, que aquela pessoa é a sua mãe. Tomás também lhe chama razão particular. — aquela quarta potência interna, a razão particularOutro nome da cogitativa. Chama-se razão porque compara; chama-se particular porque compara casos concretos, e não ideias gerais. — e conservadas pela memória. De muitas lembranças de uma coisa, diz Aristóteles, o homem chega à experiência, pela qual pode agir «com facilidade e retidão».
Mas Echavarría chama a atenção para um degrau que quase todo mundo acaba pulando sem perceber:
Quer dizer: não se ganha experiência só acumulando casos na cabeça, um atrás do outro. Ganha-se decidindo, muitas vezes, e decidindo com correção quando necessário. O ponto é técnico e tem consequências importantes para o modo como se costuma formar gente: assistir a mil casos, sozinho, não produz experimentum; produzir mil julgamentos e receber correção sobre eles, sim.
O experimentum de si mesmo
E existe um caso particular deste mecanismo que fecha bem o círculo desta disciplina: o experimentum sui — a experiência de si mesmo.
Não é a percepção de si da Aula 1, nem é simplesmente a lembrança das ações passadas. É, nas palavras de Echavarría, «o conjunto orgânico de imagens e intençõesAquilo que as coisas significam para quem as percebe — perigo, utilidade, familiaridade. Não são cores nem cheiros, e no entanto se percebem., unidas a juízos intelectuais, que se foi formando de si mesmo» ao longo da vida inteira. É o retrato interno que cada um carrega consigo e a partir do qual se lê a si mesmo todos os dias — e ele foi montado por comparação, por memória e sob a influência das próprias inclinações afetivas.
Echavarría observa que isso se aproxima daquilo que os psicanalistas chamaram de «complexo do eu» — e acrescenta, com honestidade, «com todos os equívocos que isso traz». O paralelo serve para localizar o fenômeno, não para importar a teoria por trás dele.
Leia com atenção o que isso está dizendo. Se o instrumento com que a pessoa lê a própria vida é o experimentum sui, e se a formação dele depende das inclinações afetivas, então entender o próprio caso, sozinho, não conserta o instrumento por completo. Entender é operação do intelecto; o instrumento torto é sensitivo-afetivo, e se reordena por outra via — por exercício, por hábito, por uma vida bem ordenada ao longo do tempo.
O mesmo mecanismo, descrito duas vezes
Antes de fechar, vale notar algo que só fica visível quando se olha o currículo inteiro do curso. Os cinco degraus do desenho acima descrevem, peça por peça, o método de formação mais antigo que o cristianismo produziu, e que este curso estuda com mais detalhe no Bloco 7.
Muitas experiências comparadas. É o que é uma coleção de apotegmas: centenas de casos concretos, sem doutrina explícita, que às vezes até se contradizem entre si porque cada um responde a um homem diferente. Ninguém decora apotegmas de cor; frequenta-os até o próprio olhar mudar aos poucos.
A cogitativa compara as intenções. Segundo degrau: a mesma potência sensitiva que a STAN 001 já tinha nomeado entra em ação, cotejando o caso de agora com os casos já vividos, e extraindo dali a intenção — o que aquilo significa, não só o que aparece aos sentidos.
A memória as conserva. Terceiro degrau: o que a cogitativa comparou não se perde — fica guardado, não como imagem solta, mas como aquilo que o caso significou. É desse depósito que as próximas comparações vão puxar.
O exercício de preceituar retamente. É a obediência ao ancião — que, note-se, não ensina regras gerais: dá orientação sobre casos concretos. O discípulo passa anos emitindo julgamentos sobre situações concretas e recebendo correção, que é exatamente a descrição técnica do quarto degrau.
E a disposição afetiva. É a asceseO trabalho de reordenar o próprio apetite — o que se quer, e o quanto se quer. Não é informação: é treino., que reordena o apetite em vez de apenas informar, e nunca pretendeu ser outra coisa. Quem a lê como uma espécie de mortificação por mérito não entendeu bem do que se trata; ela ocupa o lugar do quinto degrau, e é a condição para que o instrumento de leitura funcione direito.
Pense em alguma coisa que você faz bem e não sabe muito bem explicar — no trabalho, na cozinha, com uma pessoa da sua casa. Percorra os cinco degraus e responda: quantas vezes você já fez isso, e quantas vezes fez errado e foi corrigido ao longo do caminho?
O quarto degrau costuma ser justamente o esquecido.
É a razão técnica pela qual gente que se analisou por anos, e que sabe explicar-se com muita precisão, continua às vezes fazendo exatamente as mesmas coisas de antes. Essas pessoas não estão necessariamente falhando por não compreender: compreender, sozinho, não é bem o remédio para isso.
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Aula particular — R$ 180/horaSínteseO que estas cinco aulas eram, juntas
Esta é provavelmente a disciplina mais original do bloco, e a que menos se encontra em outros cursos. Ela responde a uma pergunta que a psicologia contemporânea faz o tempo todo sem chegar a formulá-la com clareza: como é que alguém conhece um caso concreto — inclusive o próprio?
A resposta foi construída em cinco movimentos. Primeiro, tirou-se a ideia da janela: a alma não se vê diretamente, ela se flagra em atoO que já está acontecendo, em oposição ao que apenas pode acontecer. A árvore crescida é ato; a semente era potência.. Segundo, separaram-se dois autoconhecimentos que a palavra junta — o que é praticamente gratuito e o que é ciência —, e ficou claro que estar dentro de si não protege ninguém de errar sobre si mesmo. Terceiro, abriu-se a palavra «reflexão», e ela tinha duas faces, uma que devolve o sujeito e outra que devolve a cena. Quarto, veio a trava importante: a reflexão alcança o singular, mas não é a condição para que exista verdade. E quinto, o mecanismo: o experimentum, com os seus cinco degraus e com a condição afetiva bem no último deles.
O que fica valendo
Uma correção ao vocabulário corrente. «Olhar para dentro» descreve mal o que realmente acontece. O que existe é flagrar-se em ato e voltar pela cena. Quem procura um cômodo interno vai procurar por muito tempo, e pode acabar chamando de profundidade o que é apenas a frustração de não achar algo que, tecnicamente, não existe daquele jeito.
Uma humildade com fundamento técnico. «Muitos erraram sobre a natureza dela.» Ter alma não dá autoridade automática sobre a alma. Isso vale tanto para o aluno quanto para o professor.
E o achado clínico do bloco. Compreender o próprio caso é operação do intelecto; o instrumento com que a pessoa se lê é sensitivo e afetivo. Por isso a mudança nem sempre vem só da análise, e por isso toda tradição séria de formação — inclusive a do deserto, que este curso estuda no Bloco 7 — trabalha por exercício e por regra de vida, e não apenas por explicação.
O fechamento
O fechamento é um fichamento: escreva, com as suas próprias palavras e citando a fonte, a diferença entre os dois autoconhecimentos vistos na Aula 2. E, se tiver disposição, descreva um caso em que você entendeu perfeitamente o que fazia de errado e continuou fazendo mesmo assim — e diga, com a Aula 5 na mão, por que só entender não foi suficiente.
ProvaCinco perguntas antes de seguir
Não é para pegar ninguém de surpresa: cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quem acerta quatro das cinco destranca a disciplina seguinte na Sala de Aula. Quem não acertar volta às aulas que as explicações apontarem e refaz, quantas vezes quiser.
Ementa
A dupla reflexão e o experimentum
- Código
- STAN 005
- Bloco
- 1 — Gnoseologia
- Aulas
- 5 e uma síntese
- Narração
- 32 min
- Pré-requisito
- STAN 004
- Regime
- Sem prazo
O que a disciplina trata
A alma não se conhece pela essência, e sim pelo ato. Os dois modos desse conhecimento: o particular, para o qual basta a presença, e o universal, que exige diligente e sutil inquisição — e a distância entre os dois explica por que se pode saber que se pensa sem saber o que é pensar.
A dupla reflexão: a que parte da origem da potência e a que parte da origem do objeto. Onde a reflexão para. A formação do experimentum pela memória e pela cogitativa, e a dependência que ele tem das inclinações afetivas de quem conhece. O experimentum sui, e por que analisar não basta.
Objetivo
Que o aluno entenda como se chega a conhecer uma pessoa singular, inclusive quando essa pessoa é ele mesmo, e por que isso não se obtém só por análise.
Metas — o que o aluno sai sabendo fazer
Conteúdo programático
- Aula 1Não há janela para dentro
- Aula 2Dois conhecimentos de si, e só um é fácil
- Aula 3A reflexão é dupla
- Aula 4Onde a reflexão para
- Aula 5O experimentum, e por que analisar não basta
- SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas
Como a disciplina funciona
Cada aula é um texto e a mesma coisa narrada em voz, para quem prefere ouvir; a velocidade da voz é escolhida pelo aluno. As aulas abrem em ordem, e a seguinte destranca quando ele chega na anterior. O que se explica melhor desenhado do que dito vem em esquema. Ao fim de cada aula há um exercício que pede a aplicação do que se acabou de ler a um caso do próprio aluno. A síntese fecha a disciplina e traz o fichamento, que é a página que fica depois de esquecido o resto.
A disciplina inteira pode ser baixada em PDF pelo botão no alto da página, com os esquemas e as fontes.
Verificação
A verificação tem três peças, e nenhuma delas dá nota. O exercício ao fim de cada aula, que só se responde aplicando a distinção a um caso concreto. O fichamento da síntese. E a prova de cinco perguntas que fecha a disciplina: quem acerta quatro abre a disciplina seguinte na Sala de Aula, e quem não acertar refaz quantas vezes quiser, porque cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quando o exercício não sai com as palavras do aluno, o sinal é de reler a aula antes de seguir.
Bibliografia básica
- TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 87, a. 1. Tradução de Alexandre Correia.Os dois modos, «basta a presença» contra «diligente e sutil inquisição», e a frase de Agostinho.
- SOUZA, José Soriano de. Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral. Recife, 1871. Lição XXXIV, § 86.Um só ato reflexivo com duas faces, em português. É o mesmo autor que erra a cogitativa em STAN 001, e a cogitativa é peça desta disciplina: usar com a ressalva.
- ECHAVARRÍA, Martín F. «Experimentum, evaluación del particular e inclinación afectiva». Comunicação de congresso, c. 2003.A mecânica do experimentum e a condição afetiva. Sem referência de publicação identificada: para peso acadêmico, confirmar a edição antes de citar.
Bibliografia complementar
- CAETANO (Tomás de Vio). Commentaria à Suma Teológica I, q. 16, a. 2. In: TOMÁS DE AQUINO, Opera Omnia, tomo IV, ed. Leonina. Roma, 1888, p. 209.A trava da disciplina: o verdadeiro é conhecido diretamente, e não só reflexamente. Caetano avisa que a leitura óbvia da letra do artigo é a errada.
- THOMAS DE SUTTON [atribuído]. De principio individuationis.A atribuição é discutida. O texto chega até aqui pela transcrição de Echavarría (2015), e a aula diz onde.
- ECHAVARRÍA, Martín F. «El conocimiento intelectual del individuo material en la escuela tomista». Espíritu, LXIV (2015), n.º 150, pp. 269-302.Onde está a passagem do De principio individuationis e a distinção entre reflexão subjetiva e objetiva, que é a espinha da Aula 3.
- TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q. 16, a. 2.O artigo que Caetano comenta. Vale ler os dois lado a lado, que é como estão impressos na edição Leonina.
- SANGUINETI, Juan José. Introduzione alla gnoseologia. Roma: EDUSC, 2008 (1.ª ed. Le Monnier, Florença, 2003). Cap. 4, «La conoscenza di noi stessi e degli altri».O autoconhecimento e o conhecimento do outro no mesmo capítulo, que é como esta disciplina os trata.
De onde veio cada frase
A voz antiga aparece em serifa, sempre com a referência ao lado. O que está em letra sem serifa é comentário nosso. Onde a passagem para o português é nossa, está dito na própria referência.
Onde ler a fonte, de graça
Estas obras estão em domínio público e podem ser lidas ou baixadas inteiras.
- Suma Teológica I, qq. 84-89, em latim (edição Leonina) → Corpus Thomisticum
- Maher, Psychology: Empirical and Rational → Internet Archive · edição de 1903, com paginação diferente da de 1908
- Suma Teológica I, qq. 1-49, com o comentário de Caetano → Internet Archive · edição Leonina, Roma, 1888, em latim