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A verdade como adequação

STAN 006 · Bloco 1 — Gnoseologia

O que está dizendo quem diz que uma frase é verdadeira. A resposta é modesta e exigente ao mesmo tempo: verdadeiro é o que confere com a coisa, e quem investiga tem de aceitar a hipótese de estar enganado.

Aula 1O lavrador e o filósofo

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Duas pessoas discutem se choveu de madrugada. Uma diz que sim, ouviu na telha. A outra diz que não, saiu às sete e a rua estava seca.

Repare no que elas fazem a seguir, porque é a coisa mais banal do mundo, e é justamente o assunto desta disciplina inteira. Elas não resolvem a discussão olhando uma para a outra, nem medindo quem parece mais convencido. Vão até a janela. Procuram a poça no canteiro, o guarda-chuva encostado, o vizinho que passou de madrugada e talvez tenha visto. Quando dizem «é verdade que choveu», estão apontando para fora de si mesmas.

Não resolvem olhando um para o outro. Nem medindo quem está mais convencido. Vão à janela — e o critério está lá fora, na poça, não em nenhum dos dois.

É só isso. E é basicamente tudo o que a palavra «verdade» quer dizer nesta tradição: o ajuste entre o que se diz e o que de fato há. O resto desta disciplina é destrinchar essa frase simples até ela render as consequências que traz consigo — e são muitas, algumas até um pouco incômodas.

Mas há um risco logo na entrada, e vale a pena mencioná-lo: o de sair daqui com um vocabulário afiado e pouco contato de fato com a realidade. A advertência vem de um padre catalão do século dezenove, que escreveu um dos melhores livros populares já feitos sobre pensar direito.

«Para bem pensar, busque-se conhecer a verdade, isto é, a realidade das cousas […] Um lavrador, um modesto artista que conheçam bem os objectos de sua profissão, pensam e fallam melhor sobre estes objectos do que um philosopho que, revestindo sua ignorância de formulas abstractas, pretende ensinar o que ignora.» Jaime Balmes, O Critério, cap. I, § I · tradução portuguesa, Porto, 1877
A régua está na primeira página porque o critério é se quem fala conhece a coisa de que fala a coisa O lavrador conhece os objetos do seu ofício O filósofo reveste a ignorância de fórmulas fórmulas «…pensam e falam melhor sobre estes objectos» Balmes, O Critério, cap. I, § I
A régua desta disciplina está na primeira página dela. O critério é se quem fala conhece a coisa de que fala. A elegância da fórmula não conta. Um curso de gnoseologia que produza gente capaz de discutir teoria do conhecimento e incapaz de examinar um caso concreto falhou pela própria régua que ensina.

O exemplo que ele usa é propositalmente humilde. Um lavrador que conhece bem a sua terra fala melhor sobre a terra do que um filósofo que fala de terra em geral — e não porque o lavrador saiba mais palavras, mas porque ele conhece aquelas terras específicas, de perto. Volte às duas pessoas da janela: quem vai ganhar a discussão sobre a chuva é quem foi olhar de verdade, e não necessariamente quem argumenta melhor.

Guardada essa advertência, vamos então à definição — que é, provavelmente, a mais famosa da filosofia ocidental, e também uma das mais repetidas sem muito cuidado:

Adaequatio rei et intellectus. A verdade é a adequação da coisa com o intelecto.

Quase todo mundo já ouviu essa frase alguma vez. Quase ninguém parou para perceber o que ela realmente compromete. Ela diz que a verdade é uma relação — e uma relação não mora em nenhum dos dois lados sozinha, isoladamente. Não está na coisa, que simplesmente é o que é, sem mais; e não está numa cabeça que simplesmente pensa o que pensa, por si só. Ela está no ajuste entre as duas.

A Aula 2 mostra onde essa relação, de fato, se aloja — e a resposta é um pouco menos óbvia do que parece à primeira vista.

Antes de seguir

Lembre-se de uma discussão sua que acabou sem chegar a um acordo. Não precisa refazê-la mentalmente: responda só isto — o que exatamente teria de acontecer no mundo para você reconhecer que estava errado?

Se você conseguir dizer claramente o quê, a discussão era sobre um fato concreto. Se não conseguir, provavelmente era sobre outra coisa, e vale a pena descobrir sobre o quê exatamente. Guarde essa resposta: ela vai voltar na Aula 4.

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Aula 2A verdade termina dentro; o bem termina fora

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Você tem fome e há um pão em cima da mesa. Duas coisas diferentes acontecem ao mesmo tempo: você quer o pão, e você sabe que há um pão ali.

Cada uma dessas coisas aponta para um lado diferente. O querer só se satisfaz quando o pão estiver, de fato, na sua mão — quer dizer, ele termina lá fora, na própria coisa. O saber, por outro lado, já terminou: você já sabe, e o pão continua exatamente onde estava antes. Nada nele mudou por causa disso.

Essa diferença, que qualquer pessoa com fome já viveu na prática sem nunca dar nome a ela, é a comparação com que Tomás abre a questão sobre a verdade — e que raramente se cita quando se fala do assunto:

«Assim como o bem designa o termo para o qual tende o apetite, assim, a verdade, o termo para o qual tende o intelecto. […] E, assim, o termo do apetite, que é o bem, está na coisa apetecível, enquanto o termo do conhecimento, que é a verdade, está no próprio intelecto.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 16, a. 1, Solução · trad. Alexandre Correia

A simetria se inverte de um caso para o outro. Quando você deseja alguma coisa, o movimento vai para fora: o desejo termina na coisa desejada, e é lá, na coisa, que o bem se encontra. Quando você conhece alguma coisa, o movimento vai para dentro: o conhecido passa a estar no conhecente, e é aí, dentro de quem conhece, que a verdade se encontra.

Por isso Tomás diz que a verdade está «principalmente no intelecto e secundariamente nas coisas» — e que as próprias coisas se dizem verdadeiras na medida em que se ordenam a um intelecto.

E aqui vem a assimetria que decide tudo

Se as coisas são verdadeiras por se ordenarem a um intelecto, surge naturalmente a pergunta: qual intelecto, exatamente? E a resposta separa esta tradição de todo relativismo com uma clareza que vale a pena conhecer bem.

Uma coisa se ordena em si mesma ao intelecto do qual o seu próprio ser depende, e se ordena por acidente ao intelecto que apenas vem a conhecê-la depois. A casa depende, em si, da cabeça do arquiteto que a projetou; para mim, que a vejo depois de pronta, ela é apenas algo cognoscível, algo que posso vir a conhecer. Logo, a verdade das coisas naturais consiste na relação delas com o intelecto divino — não com o meu intelecto individual.

Soriano expressa isso em português numa frase que, honestamente, mereceria estar em toda sala de aula:

«De sorte que as cousas são, porque Deos as conheceo ab æterno […] pelo contrario o homem as conhece, porque ellas são, e não são porque elle as conheça.» José Soriano de Souza, Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral, Pernambuco, 1871, Lição IX, § 95
Duas direções, e a segunda impede o relativismo porque o bem termina na coisa e a verdade termina no intelecto O intelecto O apetite A coisa verdade bem A coisa é medida pelo intelecto divino, que a faz; e é ela que mede o nosso, que a encontra já feita.
Duas direções, e é a segunda que impede o relativismo. Se a verdade das coisas dependesse do intelecto que as conhece, então conhecer seria fabricar, e cada cabeça faria o seu mundo. A tradição desloca essa dependência para o intelecto criador — e com isso deixa o intelecto humano na posição de quem se ajusta, e não de quem decide.

Falta agora localizar o momento exato em que a verdade de fato acontece dentro de nós. E, curiosamente, esse momento não é onde a maioria das pessoas costuma supor.

Antes de seguir

Escolha uma coisa que você quer e uma coisa que você sabe. Pergunte, de cada uma delas: onde é que ela termina, exatamente?

Depois, uma pergunta um pouco mais difícil: quando alguém diz que «quer saber a verdade», essa pessoa está querendo, ou está sabendo? As duas respostas parecem defensáveis à primeira vista, e a diferença entre elas é justamente o assunto da Aula 3.

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Aula 3A verdade acontece no juízo, e não antes

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Sete da manhã. Alguém abre a janela, vê o céu carregado de nuvens escuras, e ainda não disse nada a respeito — nem mesmo para si mesmo. Nesse instante exato, já houve verdade ali?

Ainda não, na verdade. Houve apenas visão. A verdade aparece só um segundo depois, quando a pessoa diz para si mesma vai chover — e a partir desse momento ela pode estar certa ou errada, coisa que a simples visão, sozinha, nunca conseguia ser. Foi preciso arriscar uma afirmação para que a verdade entrasse em cena.

Volte à definição vista antes: a verdade é a conformidade entre a coisa e o intelecto. Ora — e é aqui que o artigo seguinte de Tomás fica particularmente afiado — conhecer essa conformidade já é, em si, conhecer a verdade. Não basta que essa conformidade simplesmente exista; é preciso conhecê-la como conformidade, de forma explícita.

E é aí que Tomás desce os degraus dessa ideia, um a um, com cuidado.

O sentido, primeiro: a vista tem a semelhança daquilo que vê, e é verdadeira em relação ao que percebe — «contudo, não conhece a relação existente entre a coisa vista e aquilo que apreende dessa coisa». Em outras palavras: o olho não sabe que está certo. Ele simplesmente está.

O intelecto que apreende uma essência, em seguida: também não sabe, sozinho. Ele pode até conhecer a sua própria conformidade com a coisa, mas «não apreende essa conformidade quando conhece a essência de uma coisa». Entender o que é um cavalo, por exemplo, ainda não é o mesmo que afirmar algo verdadeiro sobre ele.

E então:

«Mas, quando julga estar a coisa de conformidade com a forma que dela apreendeu, então somente conhece e afirma a verdade. E isso o intelecto faz, compondo e dividindo.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 16, a. 2, Solução

Compor e dividir é juntar sujeito e predicado numa frase, ou separá-los: a neve é branca, a neve não é quente. É essa a operação própria da proposição, da frase completa. E é só ali, nesse momento, que a verdade de fato se torna conhecida.

Joseph Rickaby, jesuíta inglês, disse a mesma coisa em 1901, numa formulação que ajuda bastante a fixar a ideia:

«Uma apreensão […] não pode ser falsa […] Mas, enquanto a apreensão goza dessa imunidade contra o erro, ela tem a desvantagem correspondente de nunca conter inteiramente uma verdade […] A não ser que a mente tenha chegado ao equivalente de uma afirmação ou de uma negação, ela não se apossou completamente de uma verdadeJohn Rickaby, The First Principles of Knowledge, Londres, 1901, Parte I, cap. II, § 2, p. 16. Passagem nossa do inglês.
Onde a verdade é conhecida porque só o que se afirma pode ser verdadeiro, ou falso apreensão simples compor e dividir o juízo imunes ao erro — e por isso não carregam verdade nenhuma No terceiro degrau o intelecto afirma alguma coisa. Só o que se afirma pode ser verdadeiro, ou falso.
Os dois primeiros degraus são imunes ao erro — e é por isso que não servem. Nada que não arrisque uma afirmação pode estar errado, e nada que não possa estar errado carrega uma verdade.

Esse é o freio necessário contra uma leitura mais sentimental da verdade, e é exatamente sobre esse freio que trata a Aula 4.

Antes de seguir

Diga três coisas, nesta ordem: «chuva» · «a chuva de ontem» · «ontem choveu».

Em qual dessas três já é possível você estar errado? E o que essa mesma observação lhe diz sobre quem fala a vida toda sem nunca chegar até a terceira forma?

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Aula 4Por que «a minha verdade» não funciona

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Uma conversa difícil, das que ninguém escolhe ter de verdade. Ela chega a um ponto em que o outro respira fundo e encerra o assunto: «olha, essa é a minha verdade». E a conversa termina ali, porque parece não haver como responder a isso.

Antes de tentar responder a essa frase, vale se perguntar o que ela está realmente dizendo. Se a verdade pode ser de alguém, de quem era ela antes de essa pessoa nascer? E, se a resposta for «de ninguém», então o que é exatamente que ela está chamando de sua?

Essa frase é bem do nosso tempo, e tem boa intenção quase sempre: quem a diz costuma estar defendendo a legitimidade da própria experiência contra alguém que a está desconsiderando. O motivo, na maior parte das vezes, é bom. O que não funciona muito bem é a frase em si: dentro desta teoria, ela acaba não descrevendo nada de concreto.

E ela tem uma origem bastante respeitável, que vale a pena conhecer antes de simplesmente descartá-la. Juan José Sanguineti mostra de onde vem essa intuição. Vem, em parte, de Popper, que pede a disposição permanente de corrigir as próprias ideias diante de novas evidências. E vem também de Habermas, que pede que se dialogue sempre disposto a rever a própria posição, sob risco de o diálogo virar apenas uma tentativa de dominar o outro. Dessas duas exigências, que são boas em si mesmas, acabou-se tirando uma terceira que não decorre delas de forma necessária — a de que acreditar numa verdade forte seria a raiz do fanatismo. E Sanguineti aponta o defeito exato dessa inferência: ela mistura dois planos diferentes, o do conhecimento e o da política.

Uma sociedade em que todos respeitam a liberdade uns dos outros não se sustenta simplesmente por ninguém ter certeza de nada. Ela se sustenta, na verdade, numa convicção que é, ela mesma, uma verdade forte: a de que a pessoa ao lado não pode ser desrespeitada. Quem esvazia a ideia de verdade para tentar garantir a boa convivência acaba retirando justamente o chão de que essa convivência precisa para se sustentar.

O argumento aqui é técnico, não moral. Se a verdade é uma relação conhecida como relação — o ajuste entre o que se julga e o que a coisa efetivamente é —, então ela não pode pertencer a apenas um dos lados. Uma relação não é propriedade exclusiva de nenhum dos dois termos que ela conecta. «Minha verdade» soa, tecnicamente, um pouco como «meu entre».

E há um sintoma disso que Rickaby já tinha descrito em 1901, com uma precisão que continua valendo hoje. Ele observa que existem expressões que praticamente qualquer pessoa pode subscrever, seja qual for a opinião dela — «a força da vontade popular», «um conservadorismo prudente», «um liberalismo generoso» — e explica bem por quê: porque não são, de fato, juízos. Elas não afirmam nem negam nada de concreto; são apreensões vestidas de frase, mas sem o compromisso real de um julgamento.

Um teste curto, e serve fora da aula porque toda frase que parece profunda esconde o que está sendo afirmado a frase que parece profunda o que está sendo afirmado, de modo que possa ser negado? não houve juízo não acerta nem erra houve juízo pode acertar ou errar
Um teste curto, e serve fora da aula. Diante de uma frase que parece profunda e com a qual ninguém discorda, pergunte: o que exatamente está sendo afirmado, de modo que possa ser negado? Se não houver resposta, não houve juízo — e onde não há juízo não há verdade nem erro, só palavras trocadas.

Certeza não é verdade — e a diferença salva vidas

Há uma segunda razão, um pouco mais profunda, pela qual «a minha verdade» acaba confundindo tanto. É que essa expressão junta duas coisas que a tradição separa com bastante cuidado: a verdade, que é a relação, e a certeza, que é o estado em que a pessoa fica ao conhecer.

Soriano descreve os três estados possíveis do espírito diante de algo conhecido, e vale a pena conhecê-los pelo nome. Se o espírito julga sem nenhum temor de estar errado, está em certeza. Se julga temendo estar errado, está em opinião. Se conhece algo e não chega a emitir nenhum juízoO ato de afirmar ou negar alguma coisa de outra — «a neve é branca». É só aqui que faz sentido dizer que alguém acertou ou errou. sobre isso, está em dúvida.

Os três são estados de quem conhece, e não propriedades daquilo que é conhecido. E dessa constatação sai a frase que resume bem a disciplina inteira:

«A certeza não é senão um estado particular do espirito; a verdade do objecto é que causa este estado […] póde tambem acontecer que algum esteja certo do que não é verdade.» José Soriano de Souza, Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral, Pernambuco, 1871, Lição X, § 106

Estar certo e ter razão são coisas diferentes, e essa diferença tem a ver com a estrutura mesma do problema — a retórica, por si só, não muda nada disso. A certeza é medida em quem julga; a verdade é medida no ajuste com a coisa em si. Por isso a intensidade de uma convicção nunca foi, e nunca pode ser, um argumento por si só — e por isso a firmeza com que alguém sustenta uma certa leitura da própria vida não diz, sozinha, absolutamente nada sobre se essa leitura é verdadeira.

E as três certezas, que não valem o mesmo

Soriano ainda divide a certeza que nasce de um motivo intrínseco — a que ele chama de evidência — em três espécies diferentes, conforme aquilo em que o motivo se apoia. E dá um exemplo de cada uma, que são exemplos bem esclarecedores:

Três graus de firmeza, e nenhum é opinião porque exigir certeza metafísica onde só cabe a moral azeda a discussão metafísica física moral o piso da certeza abaixo desta linha: opinião metafísica — o todo é maior que a parte física — o fogo queima moral — os seus pais são os seus pais, Napoleão existiu
Três graus de firmeza, e nenhum deles é opinião. É útil ter os nomes: muita discussão azeda porque um dos lados exige certeza metafísica onde o assunto só comporta certeza moral — e a certeza moral, note-se, é a que sustenta que Napoleão existiu, que os seus pais são os seus pais e praticamente tudo o que você sabe sobre a própria vida.

Essa distinção também ajuda a explicar um vício comum em debates. Quem diz «você não pode provar isso» costuma estar, sem perceber, exigindo certeza metafísica de uma afirmação que é, por natureza, apenas de certeza moral — e, nesse padrão de exigência, praticamente nada do que qualquer pessoa sabe sobre a própria história de vida sobreviveria ao teste.

Uma precisão sobre a terceira, porque ela é a mais usada e a mais maltratada

A certeza moral é justamente a que carrega quase tudo o que se sabe na vida prática, e é também a que mais se invoca sem muito critério. José María de Alejandro dedicou-lhe um capítulo inteiro, e começa reconhecendo abertamente o problema: no campo da certeza, esse é o conceito usado de modo mais confuso e mais arbitrário. A razão está justamente no adjetivo «moral», que quase ninguém para para definir com clareza.

Ele resolve isso adotando a definição que Suárez já tinha dado, que é bem direta:

«Chama-se moral porque não é de todo infalível.» Suárez, De gratia habituali, l. 9, c. 9, n. 4, citado por José María de Alejandro, Gnoseología de la certeza, Gredos, Madrid, 1965, cap. VII (trad. nossa)

Daí sai uma distinção que vale muito a pena guardar. Há uma certeza que nasce da evidência da própria coisa, e sobre essa não há muita margem para dúvida. E há outra, um pouco menos limpa, que vem de um princípio externo — o testemunho de alguém, o costume, a autoridade de quem contou determinado fato — e que se refere a uma verdade não vista diretamente, conhecida de forma mais obscura. As duas recebem o nome de certeza. Mas não são exatamente a mesma coisa.

Isso não rebaixa em nada a certeza moral: é justamente ela que sustenta, por exemplo, que os seus pais são de fato os seus pais. Mas isso explica por que ela precisa ser discutida de um jeito diferente. Quem sustenta uma certeza moral não consegue simplesmente exibir a coisa em si; mas pode, e deve, exibir o princípio de onde essa certeza vem, e responder por ele quando questionado.

A experiência de cada pessoa continua contando, e muito. A STAN 005 acabou de dedicar cinco aulas inteiras a mostrar como o singularEste caso concreto, e não outro: esta pessoa, esta dor, este rosto. O contrário de universal. é conhecido e por que ele é tão importante. O que está sendo dito aqui é outra coisa, um pouco diferente: que a experiência de alguém é um dado, e que um dado não é, por si só, um juízo. «Eu senti isso» é verdadeiro, e é precioso. «Portanto isso é assim» já é um passo a mais, e esse passo específico é que precisa ser examinado.

Antes de seguir

Volte à discussão da Aula 1, aquela que terminou sem chegar a um acordo. Responda de novo, agora com o que você já sabe: ela parou porque faltava um fato concreto para verificar, ou porque um dos dois disse alguma coisa que simplesmente não podia ser contestada?

E a pergunta que mexe um pouco mais: alguma vez foi você quem disse aquilo.

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Aula 5Duas ordens da mesma fórmula, e a origem do erro

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Você procura uma fórmula num livro e a encontra escrita de um certo jeito. Procura em outro livro e encontra praticamente ao contrário. A reação natural é achar que alguém copiou errado em algum momento.

Ninguém copiou errado, na verdade. Mas, antes de explicar por quê, decida você mesmo: quando dizemos que um pensamento é verdadeiro, quem se ajusta a quem — o pensamento à coisa, ou a coisa ao pensamento? E depois uma pergunta um pouco mais difícil: haverá algum caso em que seja o contrário?

A fórmula da adequaçãoO ajuste entre o que se pensa e como a coisa é. É a definição clássica de verdade, e o ajuste corre num sentido só: é a mente que se acerta com a coisa. circula em duas ordens diferentes, e as duas são, de fato, do próprio Tomás.

Antes de separá-las, vale fixar bem o que nenhuma das duas admite. Sanguineti resume isso numa linha:

«A adequação veritativa não é simétrica: não é a realidade que deve adequar-se à mente humana, mas é a mente humana que se deve adequar à realidade, ou seja, deixar-se medir por elaJuan José Sanguineti, Introduzione alla gnoseologia, EDUSC, Roma, 2008, cap. 7, § 1 (trad. nossa do italiano)

Uma vez guardada essa assimetria, as duas ordens deixam de parecer contraditórias entre si e passam a ser vistas como duas metades da mesma coisa.

Numa delas, adaequatio rei et intellectus — a adequação da coisa com o intelecto —, que é a que ele usa no De Veritate. Na outra, adaequatio intellectus et rei — a adequação do intelecto com a coisa —, na Suma contra os Gentios. A primeira parte da coisa; a segunda parte do intelecto, que se ajusta a ela.

Não «corrija» uma para a outra. São duas ênfases do mesmo autor, e quem trocar uma pela outra achando que está consertando um erro de cópia está apagando uma diferença deliberada. E uma cautela de leitura: a tradução portuguesa do artigo 2 achata a direção da fórmula, a ponto de a frase em português puxar contra o argumento do próprio artigo. Leia o artigo 2 pelo sentido — «a verdade está no intelecto que compõe e divide» — e não pela ordem das palavras.
Uma diferença que parece de copista e é de doutrina porque as duas ordens são de Tomás, e cada uma resolve um problema O intelecto divino A coisa A coisa O nosso intelecto mede adaequatio rei ad intellectum mede adaequatio intellectus ad rem As duas são de Tomás, e não se contradizem. A que define o nosso conhecer é a de baixo.
Uma diferença que parece de copista e é de doutrina. Quem lê depressa encontra duas fórmulas em conflito e conclui que houve engano de cópia. São duas ordens diferentes, e a diferença é a doutrina.

A verdade muda?

Há uma pergunta que sempre aparece nesse ponto da discussão, e a resposta de Tomás é mais interessante do que o simples «não» que a gente esperaria de cara.

A verdade é uma conformidade, diz ele, e toda semelhança pode variar pela mudança de um dos dois extremos envolvidos. Logo, existem exatamente dois modos de essa relação se romper:

«De um modo, a verdade varia por parte do intelecto, enquanto que da mesma coisa, existindo da mesma maneira, cada qual tem a sua opinião. De outro modo, se a coisa mudar-se, ficando a opinião a mesma. E, de ambos os modos, a mutação se faz do verdadeiro para o falso.» Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 16, a. 8, Solução

A primeira metade descreve exatamente a situação que hoje a gente costuma chamar de «cada um tem a sua verdade» — a mesma coisa, do mesmo jeito, e opiniões diferentes a respeito dela. Tomás não descreve isso como uma pluralidade de verdades diferentes. Descreve como mudança do verdadeiro para o falso — porque, se a coisa em si não mudou, as opiniões divergentes simplesmente não podem estar todas ajustadas a ela ao mesmo tempo.

E a segunda metade é a que costuma passar despercebida, e é justamente a mais útil na prática do dia a dia: a coisa também pode ter mudado. Alguém que sustenta hoje um julgamento que já foi verdadeiro há dez anos não está necessariamente mentindo, nem sendo teimoso à toa — pode estar apenas com a opinião parada no tempo, enquanto a realidade, do outro lado, seguiu mudando. É um caso bem comum dentro de famílias, e chamá-lo de má-fé costuma errar o diagnóstico.

A conclusão do artigo fecha bem a assimetria vista lá na Aula 2: a verdade do intelecto divino é imutável, porque nele não há variação de opinião nem coisa nenhuma que lhe escape. A nossa, por outro lado, é mutável — «não porque seja sujeito à mutação, mas porque o nosso intelecto se muda» ao longo do tempo.

E a origem do erro

Rickaby dedica um capítulo inteiro à origem do erro no entendimento. E o lugar exato onde ele coloca esse capítulo, dentro do livro, já diz bastante: o erro aparece primeiro como questão de teoria do conhecimento, antes de aparecer como questão moral.

Para um curso que gira bastante em torno do autoengano — e este gira, de fato, porque é para lá que o Bloco 7 vai —, essa ordem específica é a certa, e ela não é nada óbvia à primeira vista. A tentação natural é tratar o erro sempre como falha de caráter: a pessoa se engana porque quer se enganar, porque lhe convém, porque é orgulhosa. Às vezes é exatamente isso mesmo. Mas antes disso existe uma máquina cognitiva inteira que pode errar sem nenhuma culpa envolvida, e conhecer essa máquina é justamente o que permite distinguir bem os dois casos diferentes.

Foi exatamente o que a STAN 001 estabeleceu com Gredt: o erro não está propriamente no sentido, está na faculdade que julga depois. E é exatamente isso que esta disciplina completa: o juízo é o lugar onde há verdade, e por isso ele é também o único lugar onde pode haver erro. As duas frases são, no fundo, a mesma frase, ditas do lado de fora e do lado de dentro.

De quem é a culpa do erro?

Rickaby examina também a tese clássica de que o erro viria da vontade. Essa ideia vem de Descartes, e boa parte da tradição também a sustentou, ao menos em parte: o intelecto por si mesmo não erraria, e quem erraria seria a vontade, que apressa o assentimento antes de a evidência estar completa.

Ele concede bastante a essa tese, é verdade. A vontade decide para onde a atenção se volta e por quanto tempo; a vontade forma e reforça os hábitos intelectuais ao longo do tempo; a vontade é o que faz alguém julgar com cuidado a partir de indícios complicados — ou, ao contrário, forçar uma conclusão à pressa demais. Nada disso é pouco, de fato.

Mas ele recusa que a explicação se esgote inteiramente aí:

«Embora estas várias condições sejam controladas pela vontade, elas têm influências próprias e distintas; e é esta a razão pela qual a teoria de que o erro se deve à vontade parece não estar completa, a menos que também elas recebam menção especial como fatores do todo.» John Rickaby, The First Principles of Knowledge, Londres, 1901, cap. XIV. Passagem nossa do inglês.

A resposta de Rickaby é que a vontade participa do processo, mas não o explica sozinha. Existem condições que operam por conta própria — a educação que a pessoa recebeu, o hábito já formado ao longo dos anos, a complicação natural da evidência disponível, a pressa das circunstâncias do momento — e reduzir tudo apenas à vontade seria tão incompleto quanto negar a ela qualquer papel no processo.

Para uma faculdade que vai tratar diretamente de autoengano lá no Bloco 7, esta é justamente a distinção que separa o trabalho sério do simples moralismo. Quando alguém se engana sobre a própria vida, quase sempre há uma parcela de vontade envolvida — e quase nunca é só ela, sozinha. Quem só enxerga a vontade acaba acusando demais; quem não enxerga vontade nenhuma acaba desculpando tudo. Nenhum dos dois está, de fato, olhando para o caso concreto com atenção.

E daí sai a exigência final desta disciplina, que é uma exigência sobre quem investiga: se a verdade é o ajuste do intelecto à coisa, então investigar é aceitar de antemão que a coisa pode não ser o que eu penso. Sem essa disposição, o que se faz é defesa. Investigação, já não.
Antes de seguir

Pense num erro seu do qual você ainda sinta um pouco de vergonha. Separe, com a lista de Rickaby na mão: quanto daquilo foi realmente vontade sua, e quanto veio das outras condições — o que lhe tinham ensinado, o hábito já formado, a pressa do momento, a evidência confusa que você tinha disponível?

Se a resposta for «foi tudo vontade minha», vale desconfiar um pouco. Se for «não foi nada minha», vale desconfiar também.

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SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas — e o que era o bloco

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Esta disciplina começou com um lavrador e terminou com uma exigência sobre o pesquisador, e o caminho percorrido entre os dois é, no fundo, o próprio argumento.

A verdade é uma relação entre o intelecto e a coisa, e ela termina dentro do intelecto — ao contrário do bem, que termina fora, na própria coisa. As coisas são verdadeiras por dependerem do intelecto que as criou, e não do intelecto que apenas vem a conhecê-las depois; por isso é o homem quem se ajusta à realidade, e não o contrário. Essa relação só é conhecida, de fato, no juízo, que compõe e divide — o sentido e a apreensão simplesO primeiro momento de entender: captar o que uma coisa é, sem ainda afirmar nem negar nada dela. Diante de «cavalo» não se pode estar errado, porque nada foi afirmado. não podem errar sozinhos, e por isso também não podem, sozinhos, acertar. E, como o juízo é o lugar da verdade, ele acaba sendo também o único lugar possível do erro.

1 · O lavrador e o filósofo 2 · A verdade termina dentro 3 · Só no juízo 4 · «A minha verdade» 5 · Duas ordens, e o erro definir bem não é conhecer a coisa o bem termina fora; a verdade, dentro quem não pode errar também não acerta uma relação não pertence a um dos lados o erro é gnoseológico antes de ser moral Fim do Bloco 1. A seguir, o Bloco 2 — o que é o real.
Um caminho, cinco estações — e o fim de um bloco. A terceira aula é o eixo: é ela que explica por que as duas operações imunes ao erro são justamente as que não carregam verdade nenhuma.

As seis disciplinas, um só argumento

Vale, ao final, olhar as seis disciplinas juntas, porque elas formam, na verdade, um único argumento contínuo.

Tudo entra pelos sentidos, e o corpo é a estrada por onde o conhecimento chega (001). Do particular se colhe o universalO que vale para todos os casos de uma espécie. «Homem» é universal; «este homem» não é., por uma atividade que a imagem sozinha jamais conseguiria fazer (002). E o que se alcança com isso é a própria coisa, não apenas a nossa representação dela, porque o conceito funciona como meio, e não como objeto (003). Mas o preço a pagar é que o indivíduo material não é alcançado de forma direta, e essa é a crítica mais séria que se costuma fazer a esta filosofia (004). Ele é alcançado de volta, por uma reflexãoVoltar-se sobre o próprio ato: em vez de olhar para a coisa, olhar para o ato de conhecer que acabou de acontecer. dupla, e conhecer este caso específico tem uma mecânica própria, com nome: o experimentumA competência de acertar em casos concretos, que se ganha decidindo muitas vezes e sendo corrigido. Não é a soma dos casos vistos., cujo último degrau é de natureza afetiva (005). E o momento em que tudo isso se transforma em verdade ou em erro é um só: o juízo (006).

É por isso que este currículo começa exatamente aqui, e não já pela psicologia propriamente dita. Toda escola de psicologia já respondeu, de um jeito ou de outro, a estas seis perguntas — quase sempre sem sequer declarar que as respondeu. As respostas desta casa estão agora escritas, com as fontes indicadas ao lado, e podem ser livremente examinadas por quem discordar delas.

O fechamento

O fechamento é um fichamento: escreva, com as suas próprias palavras e citando a fonte, por que a apreensão simples não pode ser falsa e, ao mesmo tempo, não pode conter uma verdade. E, se quiser fechar o bloco inteiro com chave de ouro, tente escrever em dez linhas o argumento das seis disciplinas, na ordem em que ele foi construído.

ProvaCinco perguntas antes de seguir

Não é para pegar ninguém de surpresa: cada resposta mostra na hora se está certa e por quê você acertou ou errou. Quem acertar quatro das cinco perguntas destranca a disciplina seguinte na Sala de Aula. Quem não acertar essa marca simplesmente volta às aulas que as explicações apontarem, refaz o que for necessário, e tenta de novo — quantas vezes quiser, sem pressa nenhuma.

Ementa

A verdade como adequação

Código
STAN 006
Bloco
1 — Gnoseologia
Aulas
5 e uma síntese
Narração
36 min
Pré-requisito
STAN 005
Regime
Sem prazo

O que a disciplina trata

O que se afirma ao chamar verdadeira uma proposição. A simetria entre o bem e a verdade: o bem termina na coisa, a verdade termina no intelecto. A verdade está no juízo, e não na apreensão simples, que não é nem verdadeira nem falsa.

A distinção entre verdade e certeza, e por que «a minha verdade» não descreve nada. A assimetria entre o conhecer divino, que faz a coisa, e o humano, que é medido por ela. As duas ordens da fórmula da adequação, ambas do mesmo autor, e a origem do erro — inclusive a parte que a vontade tem nele.

Objetivo

Que o aluno saiba o que afirma quem chama verdadeira uma proposição, e o que essa definição exige de quem investiga, incluindo a disposição de estar errado.

Metas — o que o aluno sai sabendo fazer

  1. Enunciar as duas ordens da fórmula e dizer qual delas define a verdade do conhecimento humano.
  2. Explicar por que o bem termina fora e a verdade termina dentro.
  3. Mostrar por que a apreensão simples não é nem verdadeira nem falsa, e o que se segue disso para as discussões que não são sobre juízos.
  4. Separar «isto é verdadeiro» de «eu estou certo» num caso concreto.
  5. Dizer onde a vontade entra na origem do erro, e o que isso obriga no próprio estudo.

Conteúdo programático

  • Aula 1O lavrador e o filósofo
  • Aula 2A verdade termina dentro; o bem termina fora
  • Aula 3A verdade acontece no juízo, e não antes
  • Aula 4Por que «a minha verdade» não funciona
  • Aula 5Duas ordens da mesma fórmula, e a origem do erro
  • SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas — e o que era o bloco

Como a disciplina funciona

Cada aula é um texto e a mesma coisa narrada em voz, para quem prefere ouvir; a velocidade da voz é escolhida pelo aluno. As aulas abrem em ordem, e a seguinte destranca quando ele chega na anterior. O que se explica melhor desenhado do que dito vem em esquema. Ao fim de cada aula há um exercício que pede a aplicação do que se acabou de ler a um caso do próprio aluno. A síntese fecha a disciplina e traz o fichamento, que é a página que fica depois de esquecido o resto.

A disciplina inteira pode ser baixada em PDF pelo botão no alto da página, com os esquemas e as fontes.

Verificação

A verificação tem três peças, e nenhuma delas dá nota. O exercício ao fim de cada aula, que só se responde aplicando a distinção a um caso concreto. O fichamento da síntese. E a prova de cinco perguntas que fecha a disciplina: quem acerta quatro abre a disciplina seguinte na Sala de Aula, e quem não acertar refaz quantas vezes quiser, porque cada resposta mostra na hora se está certa e por quê. Quando o exercício não sai com as palavras do aluno, o sinal é de reler a aula antes de seguir.

Bibliografia básica

  • TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, qq. 16-17. Tradução de Alexandre Correia.q. 16, a. 1 e a. 2. A tradução de Correia achata a direção da fórmula: a Aula 5 mostra onde.
  • TOMÁS DE AQUINO. De Veritate, q. 1, a. 1. In: Quaestiones disputatae, III. Paris, 1883.Uma das duas ordens da fórmula, em latim.
  • TOMÁS DE AQUINO. Summa contra Gentiles, I, 59.A outra ordem, do mesmo autor. As duas juntas são a Aula 5.
  • BALMES, Jaime. O Critério. Cap. I, § I. Tradução portuguesa. Porto, 1877.O lavrador e o filósofo. É a epígrafe do bloco e a régua desta disciplina.
  • SOUZA, José Soriano de. Lições de Filosofia Elementar, Racional e Moral. Recife, 1871. Lição IX, § 95; Lições X, XI e XXXV.A assimetria entre o conhecer divino e o humano numa frase só, e o tratamento da certeza e do critério.
  • SANGUINETI, Juan José. Introduzione alla gnoseologia. Roma: EDUSC, 2008 (1.ª ed. Le Monnier, Florença, 2003). Cap. 7, «La verità».A assimetria da adequação, citada na Aula 5, e a resposta à objeção de que uma verdade forte gera intolerância, usada na Aula 4.
  • DE ALEJANDRO, José María, S.J. Gnoseología de la certeza. Madrid: Gredos, 1965. Cap. VII, «Certeza moral».Um livro inteiro sobre a certeza. O capítulo VII traz a definição de Suárez usada na Aula 4 e a distinção entre a certeza que nasce da evidência da coisa e a que vem de um princípio de fora.

Bibliografia complementar

  • RICKABY, John. The First Principles of Knowledge. Londres: Longmans, 1901. Parte I, cap. II, § 2, p. 16; cap. XIV.A apreensão que não pode ser falsa, o exemplo dos termos políticos e a origem do erro no entendimento e na vontade.
  • GILSON, Étienne. Thomist Realism and the Critique of Knowledge. Trad. Mark A. Wauck. San Francisco: Ignatius Press, 1986.Original: Réalisme thomiste et critique de la connaissance, Vrin, 1939. Sobre o que se compromete quem decide começar a filosofia por uma crítica do conhecimento em vez de começar pelo ser.
  • LLANO, Alejandro. Gnoseología. 3.ª ed. Pamplona: EUNSA, 1991.Forte na verdade e no juízo, que são o assunto desta disciplina.

De onde veio cada frase

A voz antiga aparece em serifa, sempre com a referência ao lado. O que está em letra sem serifa é comentário nosso. Onde a passagem para o português é nossa, está dito na própria referência.

1266-1268
Tomás de Aquino, Suma Teológica I, qq. 16-17
q. 16, a. 1 — a simetria entre o bem e a verdade, e a ordenação ao intelecto divino. q. 16, a. 2 — o sentido não conhece a relação, e a verdade está no intelecto que compõe e divide. A tradução de Correia achata a direção da fórmula no a. 2: o sentido é que a verdade está no intelecto que compõe e divide, e a ordem das palavras em português sugere o contrário.
1256-1259
Tomás de Aquino, De Veritate, q. 1, a. 1 · Contra Gentiles I, 59
As duas ordens da fórmula da adequação, ambas do mesmo autor. O De Veritate é citado pela edição de Paris, 1883, Quaestiones disputatae III.
1845
Jaime Balmes, O Critério
Cap. I, § I — o lavrador e o filósofo. Tradução portuguesa, Porto, 1877. É a epígrafe do bloco e a régua desta disciplina.
1871
José Soriano de Souza, Lições de Filosofia Elementar
Recife. Lição IX, § 95 — a assimetria entre o conhecer divino e o humano, em português e numa frase só. Também as Lições X, XI e XXXV para a certeza, o critério e o juízo.
1965
José María de Alejandro, S.J., Gnoseología de la certeza
Gredos, Madrid, na Biblioteca Hispánica de Filosofía. Um volume inteiro sobre a certeza. O capítulo VII trata da certeza moral, traz a definição de Suárez — «chama-se moral porque não é de todo infalível» — e separa a certeza que nasce da evidência da coisa da que vem de um princípio de fora.
2008
Juan José Sanguineti, Introduzione alla gnoseologia
EDUSC, Roma; primeira edição pela Le Monnier, Florença, 2003. Sanguineti ensina filosofia do conhecimento na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma. O capítulo 7 dá a assimetria da adequação usada na Aula 5 e a resposta, na Aula 4, à objeção de que uma verdade forte gera intolerância.
1901
John Rickaby, The First Principles of Knowledge
Londres, Longmans. Parte I, cap. II, § 2, p. 16 — a apreensão não pode ser falsa e nunca contém uma verdade; e o exemplo dos termos políticos, que ninguém contesta porque não são juízos. Cap. XIV — a origem do erro no entendimento, tratada como questão gnoseológica antes de moral.

Soriano, em português, e Rickaby, em inglês, organizam esta matéria na mesma ordem (ceticismo, critérios subjetivos, objetivos, extrínsecos, critério supremo). A coincidência é útil: confirma que essa é a ordem canônica do assunto, e não uma escolha deste curso.

Onde ler a fonte, de graça

Estas obras estão em domínio público e podem ser lidas ou baixadas inteiras.