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Os Apotegmas: leitura de casos

STAN 503 · Bloco 5 — os Padres do Deserto

Aula 1Uma palavra, para um homem, num dia

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Quem lê a coleção dos ditos dos Padres do Deserto de ponta a ponta acaba topando com um problema. Um abba diz que o monge deve fugir dos homens. Outro conta que a virtude se aprende servindo aos irmãos. Um manda jejuar com rigor; outro repreende quem jejua demais. Se alguém tentar montar uma doutrina somando esses ditos, vai encontrar um texto que se contradiz a cada duas páginas.

A tentação, nesse ponto, é escolher um lado e chamar de "o ensinamento do deserto". Isso acontece muito, e é a origem da maior parte do que circula por aí como espiritualidade dos Padres.

A contradição desaparece quando se entende o que esses textos são. A tradutora inglesa da coleção alfabética avisa logo no prefácio, e é bom ler devagar:

These sayings preserve the unstructured wisdom of the desert in simple language. These are records of practical advice given out of a long life of experience in monastic and ascetic discipline. For this reason they are not always consistent with one another and they always need to be read within the context in which they were given.Benedicta Ward, prefácio a The Sayings of the Desert Fathers, p. xx — tradução nossa: «não são sempre consistentes entre si, e precisam sempre ser lidas dentro do contexto em que foram dadas»
Dois homens, o mesmo problema aparente Um que se poupa Um que já se castiga e chama isso de prudência e chama isso de fervor O mesmo abba, no mesmo deserto «Jejua com rigor» «Come, e para com isso» Os dois ditos estão certos. Somados fora do contexto, viram uma contradição que nunca existiu.
Quem lê a coleção de ponta a ponta encontra um texto que parece se contradizer a cada duas páginas. A tentação, nesse ponto, é escolher um lado e chamar de «o ensinamento do deserto», e é daí que sai a maior parte do que circula por aí. A tradutora avisa no prefácio: os ditos «não são sempre consistentes entre si, e precisam sempre ser lidas dentro do contexto em que foram dadas». Uma palavra, para um homem, num dia.

A palavra — apotegma, em grego, que quer dizer sentença ou dito — era dita a um homem específico, num dia específico, para um estado específico. Um irmão chegava, pedia uma palavra, e o ancião respondia àquele homem. Não estava legislando. Estava fazendo um diagnóstico e prescrevendo.

Uma pesquisadora portuguesa que estudou os fundamentos filosóficos desses textos põe isso de forma seca:

Nos Ditos dos Padres não há teorização, nem argumentação para defender determinada tese, nem sequer existe exegese bíblica.Patrícia Calvário, Fundamentos filosóficos dos Apotegmas dos Padres do Deserto, p. 5

Sem teoria, sem argumento, sem comentário da Escritura. O que sobra é caso. E é por isso que este bloco tem uma disciplina só para eles: Evágrio e Cassiano são onde a teoria se constrói; os apotegmas são onde ela se testa e onde ela apanha. As duas coisas fazem falta, e fazem falta separadamente.

Há uma consequência de método que vale guardar para a vida inteira, e não só para este curso. Quando alguém lhe apresentar uma frase de Padre do Deserto como se fosse um princípio geral, a pergunta certa é: dita a quem? Quase sempre a resposta muda o sentido. E quando não houver resposta — quando a frase circular solta, sem nome de abba, sem situação — desconfie: provavelmente não é do deserto.

Três coleções, e este curso vinha usando uma

Falta dizer uma coisa que muda a escala do assunto. Os ditos não chegaram até nós num livro. Chegaram em três arrumações diferentes do mesmo material, feitas por gente diferente, em séculos diferentes, com critérios diferentes — e cada uma responde a uma pergunta.

A Alfabética arruma por autor: todos os ditos de Antão juntos, depois os de Arsênio, e assim por diante. É a que este curso vinha usando, e é a melhor para conhecer um homem. Foi por ela que a Aula 2 vai poder mostrar Arsênio dizendo duas coisas que parecem opostas.

A Anônima reúne os ditos cujo autor se perdeu — e são muitos. Ficou a última a ser publicada por inteiro: só em 2013, em Cambridge, John Wortley editou o texto grego completo com tradução inglesa em página de frente, setecentos e sessenta e seis ditos, citados por número (N.1, N.22). É uma coleção que a maior parte do que se escreve sobre o deserto ainda não usa.

E a Sistemática arruma por assunto. Traduzida para o latim no século sexto pelos diáconos romanos Pelágio e João, ela é conhecida como Verba Seniorum, e o seu Livro V vem dividido em dezoito libelos com título: do progresso dos Padres, da quietude, da compunção, da continência, do discernimento, de não se dever julgar ninguém, de se dever viver sobriamente, da hospitalidade e da misericórdia com alegria

O mesmo material, três arrumações Alfabética — por autor Anónima — sem nome de abba Sistemática — por assunto «quem era este homem?» · a que este curso usa 766 ditos · edição completa do grego só em 2013 18 libelos com título — a ordem que eles se deram Nenhuma é a original: as três recortam o mesmo material.
A terceira é a que mais interessa a um curso. Quando os antigos arrumaram os ditos por assunto, deixaram escrito o que eles próprios consideravam serem os temas — e a lista não é a que um leitor moderno faria. Da quietude vem antes de da compunção, e o discernimento vem só no décimo lugar, depois de quatro libelos sobre desapego. Isso deixa de ser recorte de quem escreve e passa a ser a ordem que a tradição se deu.
Uma cautela sobre a Sistemática. A edição corrente é a reimpressão de Migne, de 1849, do texto que Rosweyde fixou em 1615. Serve para localizar e conferir a estrutura, não para citar o latim. Para citação, a edição de referência hoje é a de Jean-Claude Guy, nas Sources Chrétiennes.

A próxima aula pega quatro apotegmas de verdade e mostra o que muda quando eles são lidos como caso.

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Aula 2Quatro casos, lidos como casos

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Arsênio era um homem da corte imperial, tutor dos filhos do imperador, culto, latinista e helenista. Largou tudo e foi para o deserto. E o dito que abre a coleção com o nome dele é este:

Arsênio, foge dos homens e serás salvo.Apotegmas, Arsênio 1 — Ward, p. 9

Lido como princípio geral, isso é uma catástrofe: manda todo mundo se isolar. Lido como caso, muda inteiramente. É a resposta dada a um cortesão, cuja vida inteira era feita de relações de poder, aparência e influência — a um homem cuja doença específica era o mundo dos homens. E há um segundo dito, logo depois, que completa a prescrição: foge, cala-te, reza sempre. Três verbos, para aquele homem.

O melhor de Arsênio, porém, vem mais adiante, quando alguém lhe pergunta como é possível que camponeses egípcios analfabetos alcancem virtudes que ele, com toda a sua formação, não alcança:

Fui de fato ensinado em latim e grego, mas não conheço nem o alfabeto deste camponês.Apotegmas, Arsênio 6 — Ward, p. 10 (tradução nossa)

Um homem que sabia duas línguas clássicas dizendo que não sabe o abecedário do vizinho iletrado. Não é modéstia de fachada: é a constatação de que o saber que ele tinha e o saber que ele precisava eram de ordens diferentes. Para uma faculdade, esse dito é um espinho, e é bom que seja.

O terceiro caso é o mais estranho, e é ótimo para o método. Um irmão pede a Macário uma palavra sobre como progredir. Macário manda que ele vá ao cemitério e insulte os mortos. O irmão vai, insulta, volta. Macário pergunta se os mortos responderam. Não responderam. No dia seguinte, manda-o voltar e elogiar os mortos. Ele elogia, volta. Os mortos também não responderam. E aí vem a palavra:

Torna-te um homem morto.Apotegmas, Macário, o Egípcio, 23 — Ward, p. 32 (tradução nossa)

Macário podia ter dito as quatro palavras no primeiro dia, e não disse. O irmão precisou fazer o percurso — insultar, elogiar, constatar o silêncio duas vezes — para entender uma coisa que cabe em quatro palavras. É a razão de os apotegmas serem contados, e não enunciados.

O quarto é o mais útil na prática, e vem de Agatão. Perguntado sobre o que vale mais, ele responde com uma imagem agrícola: a ascese do corpo é a folhagem; a guarda da mente é o fruto. Jejum, vigília e postura não são desprezados — são folha, e folha é necessária para a árvore. Só não se come folha.

O mesmo irmão, a mesma pergunta, dois anciãos

Falta o caso que prova o prefácio da Aula 1 — porque até aqui a inconsistência foi afirmada, e não mostrada. Ela está impressa, e está impressa em dois ditos seguidos, na mesma página.

«Um irmão perguntou a Abba Poemen: “Pode um homem manter todos os seus pensamentos sob controle, e não entregar nem um ao inimigo?” E o ancião lhe disse: “Há alguns que recebem dez e dão um.”» Apotegmas, Poemen 88 — Ward, p. 179 (tradução nossa)
«O mesmo irmão pôs a mesma pergunta a Abba Sisoés, que lhe disse: “É verdade que há alguns que não dão nada ao inimigo.”» Apotegmas, Poemen 89 — Ward, p. 179 (tradução nossa)

Veja o que o compilador fez. Um irmão pergunta se é possível não ceder nunca. Poemen responde que não — que o melhor a esperar é uma proporção. O irmão, evidentemente insatisfeito, vai perguntar a outro. E Sisoés responde que sim, que há quem não ceda nada.

As duas respostas se contradizem. E quem organizou a coleção imprimiu as duas, uma debaixo da outra, sem nota de rodapé, sem harmonização, sem escolher.

um irmão pergunta Poemen Sisoés «há alguns que recebem dez e dão um» «há alguns que não dão nada ao inimigo» A coleção imprime as duas, uma debaixo da outra, sem harmonizar e sem escolher. Apotegmas, Poemen 88 e 89.
Este é o prefácio de Ward em forma de caso. Nada aqui é acidente de cópia: o compilador registrou que o irmão foi buscar segunda opinião, e guardou a segunda opinião ao lado da primeira. ⚠️ A resposta de Sisoés está impressa na série de Poemen, como Poemen 89. Quem a citar como «Sisoés 89» manda o leitor a um lugar onde ela não está.

Uma doutrina não faz isso. Um arquivo de casos faz — porque num arquivo de casos as duas respostas podem estar certas, cada uma para o homem a quem foi dita. Poemen, que passou a vida com principiantes, dá a régua que serve a um principiante e o protege do desespero. Sisoés, que era eremita e falava do que tinha visto, diz o que também é verdade e que o outro não negaria.

Guarde este par: ele é o argumento inteiro desta disciplina em quinze linhas. E guarde a consequência prática — quando alguém lhe citar um dito do deserto como se fosse regra, a primeira pergunta é a quem foi dito.

A próxima aula é sobre o dito mais perigoso da coleção, e sobre o critério que os próprios Padres usavam para decidir a quem dar uma palavra.

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Aula 3O dito que faz mal, e a quem se dá uma palavra

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Existe na coleção alfabética, atribuído a Antão, um dito que qualquer pessoa com tendência à dúvida repetida deveria ser proibida de ler sem acompanhamento. Está aqui porque esconder seria pior:

Se lhe for possível, o monge deve dizer aos anciãos com confiança quantos passos dá e quantas gotas de água bebe na sua cela, para o caso de estar em erro sobre isso.Apotegmas, Antão 38 — Ward, p. 8 (tradução nossa)

Contar os passos. Contar as gotas de água. Para o caso de estar errado. Entregue a um escrupuloso — alguém que já vive conferindo se fez tudo direito, que já refaz a oração porque talvez não tenha valido —, isso é receita de ruína. E o pior é que soa devoto, o que faz com que ninguém o corrija.

Apotegmas, Antão 38 «dizer aos anciãos quantos passos dá e quantas gotas de água bebe» A um escrupuloso A um negligente que já vive conferindo que nunca presta contas receita de ruína remédio útil e o pior: soa devoto, então ninguém corrige O que decide não é o dito. É quem o recebe.
O mesmo texto, dois destinos opostos. Este dito está aqui porque escondê-lo seria pior: entregue a alguém que já refaz a oração por achar que talvez não tenha valido, ele alimenta exatamente a doença que parece tratar. E como soa piedoso, quase ninguém o corrige. É a mesma regra que a disciplina anterior estabeleceu, agora aplicada à leitura da fonte.

Aqui a disciplina anterior já deu a ferramenta: quem decide é quem recebe o dito. Mas os Padres também tinham um critério próprio sobre a quem se dá uma palavra, e ele não é o que se esperaria. Um irmão suplicou três dias a Abba Teodoro por uma palavra, e não recebeu resposta. Quando lhe perguntaram por quê, ele explicou:

Ele é um traficante, que busca glorificar-se com as palavras dos outros.Apotegmas, Teodoro de Fermo 3 — Ward, p. 74 (tradução nossa)

O critério é o que a pessoa vai fazer com a palavra. Quem vai vivê-la, recebe; quem vai revendê-la, não. E isso vale duplamente para quem produz conteúdo sobre este material — o que inclui esta faculdade, e é bom que doa um pouco.

Some-se a isso uma coisa que a pesquisadora portuguesa observou sobre o que de fato se conversava entre o monge e o seu ancião, porque ela desfaz um mal-entendido grande:

A conversa entre o monge e o seu Abba centrava-se não nos pecados em si, mas nos logismoi, nos pensamentos, que podiam incluir tentações, mas também qualquer tipo de preocupação, algo em que o monge pensava ininterruptamente. Um "pensamento" podia ser simplesmente um desejo ou um sentimento, tal como, por exemplo, ter saudades de um familiar ou querer explorar o deserto.Patrícia Calvário, p. 10-11

Não era confissão. O objeto da conversa eram os pensamentos, e pensamento aqui inclui saudade da família e vontade de conhecer um lugar novo — coisas que não são pecado nenhum. Quem lê essa prática como confissão antecipada transforma um instrumento de discernimento numa contabilidade de culpas, e produz exatamente o tipo de sofrimento que Antão 38 produz.

O ancião que responde com um número menor

Há um caso que mostra o contrário de Antão 38 — um ancião diante de um homem que já está se machucando com a própria régua, e o que ele faz com a pergunta. Está em Palládio, que conheceu os dois personagens.

Evágrio — o mesmo Evágrio que sistematizou os oito pensamentos e que este bloco usa como eixo — anda contando quantas orações faz por dia. Descobre que um outro faz setecentas, e desaba:

«…faz setecentas orações. E quando soube disso desesperei de mim mesmo, porque não consigo fazer mais do que trezentas.» Palládio, História Lausíaca, p. 91 — tradução inglesa de W. K. L. Clarke, Londres, 1918. Passagem nossa.

Repare no que o ancião não faz. Não manda rezar mais. Não consola. Não discute a conta. Ele responde com o próprio número, que é menor — e desloca a pergunta:

«O santo Macário respondeu-lhe: “Tenho agora sessenta anos; faço cem orações fixas, produzo o meu alimento com o meu próprio trabalho, e dou aos irmãos as conversas que lhes são devidas, e a minha razão não me condena por ter negligenciado o meu dever. Mas se tu dizes trezentas e és condenado pela tua consciência, é claro que não as estás a rezar com pureza — ou então poderias rezar mais e não rezas.”» Palládio, História Lausíaca, p. 91 (tradução nossa)
O número nunca foi o assunto. O sintoma é a consciência que condena, e ela condena a trezentas e não condena a cem. Macário desloca a pergunta da quantidade para a relação da pessoa com o próprio ato — e faz isso baixando a própria régua diante do homem, o que lhe custa a autoridade que a comparação lhe daria.

É a mesma habilidade de Antão 38 usada ao contrário. Ali, uma medida exigente entregue a quem não a suporta produz dano. Aqui, um ancião vê que o homem já está a medir-se e tira a régua da mão dele. O dito é o mesmo instrumento; o que muda é o diagnóstico de quem o entrega.

Este caso volta em duas disciplinas deste curso: na que trata de escrupulosidade e pensamento obsessivo, e na que trata do discernimento entre o clínico e o espiritual. Quem responde a um escrupuloso com mais exigência está a alimentá-lo, e o deserto sabia disso no século quarto.

Fica dito, e vale como regra desta faculdade: nenhum apotegma é distribuído sem contexto, e os que têm potencial de dano são apresentados com o aviso junto, como este foi.

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Aula 4Gaza: quando o deserto escreve para quem tem casa

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A objeção mais séria contra tudo o que este bloco ensina é simples de formular: isso foi escrito por monges, para monges, num deserto. Quem tem esposa, filhos, chefe e prestação de carro não vive nessa ecologia, e aplicar direto seria violência.

A objeção é boa. E a resposta não é um argumento — é um arquivo.

No século seis, em Gaza, dois anciãos reclusos chamados Barsanufio e João acompanharam centenas de pessoas por escrito. Sobraram 848 cartas. Cerca de dois terços são para monges, umas cinquenta para bispos, e por volta de duzentas e dez são para leigos — gente identificada nas próprias cartas por profissão e situação: casados, doentes, um professor, um ex-soldado, um homem que tinha um servo fugitivo.

O caso mais bonito é o de um homem doente que pergunta duas coisas que hoje pareceriam absurdas: tomar banho é pecado? E posso me mostrar a um médico?

O banho não é de todo proibido para os que estão no mundo, sempre que a necessidade o exija… Quanto a mostrar-se ao médico, não só isto não é pecado, como é até humilde; pois, sendo mais fraco, precisou visitar o médico.Barsanufio de Gaza, carta 770, p. 278 (tradução nossa)

Duas coisas. A primeira: para os que estão no mundo. O ancião nomeia a diferença de estado e ajusta a exigência a ela, sem inventar uma regra nova e sem diluir a antiga. A segunda: ir ao médico é chamado de humildade, e não de fraqueza espiritual. Isso, no século seis, resolve por antecipação uma confusão que ainda hoje faz gente largar tratamento por achar que fé bastaria.

E o método deles é o que interessa mais. Nas cartas seguintes, depois de desmontar o escrúpulo do banho, os anciãos vão ao problema de verdade e o renomeiam: a angústia daquele homem não era com higiene, era vanglória — medo de perder a fama de piedoso. Primeiro se desarma a falsa culpa; depois se devolve o diagnóstico ao lugar certo.

A régua geral que eles usavam para calibrar está escrita numa frase, respondendo a um leigo com dinheiro que perguntava quanto devia dar:

Há medidas particulares, e cada um age segundo a sua própria medida. Pois uma pessoa é capaz de dar apenas parte da sua renda, enquanto outra dará o dízimo dos seus frutos, ou um quarto, ou um terço, ou até metade.Barsanufio de Gaza, carta 617, p. 207 (tradução nossa)

Medidas particulares. É a autorização, dita por dentro da tradição e com número de carta, para recalibrar sem diluir. E há ainda uma resposta a um ex-soldado, sobre trocar de vida, que termina de um jeito raríssimo em literatura espiritual: depois de expor as duas opções, o ancião escreve «escolhe a que quiseres». A decisão fica com o homem.

Fica a aula inteira em uma linha: quando alguém disser que a antropologia do deserto não serve a leigo, a resposta é mostrar as cartas.

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Aula 5Onde discordamos das nossas próprias fontes

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Esta aula faz uma coisa que curso nenhum costuma fazer: discorda de uma autora que usamos o tempo todo, e explica por quê.

A pesquisadora que melhor estudou os fundamentos filosóficos dos apotegmas, e de quem tiramos várias das melhores formulações desta disciplina, escreve uma frase sobre a acédia que este curso não aceita:

Esta doença espiritual pode ser identificada com o que actualmente se designa em psiquiatria por depressão.Patrícia Calvário, p. 14

A afirmação é tentadora, e quase todo mundo que escreve sobre o assunto a repete de alguma forma. Ela é errada, e o erro tem consequência clínica.

A acédia é descrita no corpus com traços que a depressão não tem: ataca em horário fixo, como febre que volta na mesma hora; a fadiga é seletiva — o mesmo homem que não consegue rezar levanta-se com energia se aparecer visita; e o quadro cede quando a pessoa permanece e trabalha. Depressão não escolhe horário, a fadiga não é seletiva, e insistir não a levanta. Chamar uma coisa da outra faz duas vítimas: manda o deprimido tentar mais — que é exatamente o conselho que o machuca —, e trata o acidioso como doente, tirando dele a única coisa que funciona, que é permanecer.

Dizer isso não desqualifica a autora. Ela é boa, e usamos o trabalho dela nesta mesma disciplina em quatro lugares. Mostra apenas que equivalência entre construto antigo e categoria moderna é o vício central deste campo, e que ele pega inclusive gente séria. A regra do Studium, que já foi enunciada na aula sobre o thymoeidés, vale aqui igual: descreve-se o fenômeno, diz-se que é reconhecível, e não se afirma que uma coisa é a outra.

Há uma segunda discordância, e essa é interna à tradição. A mesma tradutora inglesa que nos avisou sobre a inconsistência dos ditos escreve, no mesmo prefácio, uma frase que atinge o eixo deste bloco:

Embora as obras deles, sobretudo as de Cassiano, sejam de grande mérito e importância, não é nelas que o ensinamento simples do deserto se vê melhor.Benedicta Ward, prefácio, p. xx (tradução nossa)

Ela está dizendo que os sistematizadores — Evágrio, Cassiano, os que este bloco usa como eixo — não são o melhor lugar para encontrar o deserto. É uma objeção contra o nosso método, feita por alguém que passou a vida nesses textos, e ela fica registrada aqui sem resposta pronta. A defesa possível é que teoria e casuística servem a propósitos diferentes, e que quem quer construir uma prática precisa das duas. Mas quem der a Ward por vencida está sendo desonesto.

E o que este bloco reconhece dever aos apotegmas, para terminar: eles são, nas palavras da própria Calvário, ricos sobretudo ao nível da antropologia e da nosologia do psiquismo humano — quer dizer, do que o homem é e de como as suas doenças se classificam. Sem eles, a teoria de Evágrio e Cassiano ficaria de pé e ficaria sem chão.

Com esta disciplina o Bloco 1 se fecha. O que ele entrega: um mapa dos oito movimentos, uma prática de vigilância com as suas travas, e um método de leitura que impede tanto o moralismo quanto a equivalência fácil com a psicologia de hoje. O que ele não entrega, e é preciso dizer: a tabela completa de recalibração dos oito para a vida leiga. Gaza mostra que o caminho existe. Andar o caminho inteiro é trabalho de pesquisa que ainda está aberto.

E há uma resposta possível a Ward, que está nas margens das coleções

A objeção dela ficou de pé nesta aula, e é justo dizer o que se pode responder — sem fingir que a resposta é definitiva.

Se os sistematizadores tivessem imposto uma ordem de fora, os ditos e o sistema seriam dois corpos separados: de um lado a experiência bruta, do outro a teoria que veio depois arrumá-la. É exatamente essa a imagem que a objeção supõe.

Só que as coleções apontam umas para as outras, e apontam nas margens, em letra pequena, sem que ninguém tenha feito disso um argumento. Wortley, ao editar a Anônima, indica ao lado de cada dito o paralelo na Sistemática quando existe — «N.22/7.60» quer dizer que aquele dito é também o sexagésimo do sétimo capítulo da outra coleção. O Verba Seniorum latino traz entre parênteses as remissões às outras versões. E o primeiro dito do primeiro libelo da Sistemática é o mesmo que na Alfabética está sob o nome de Antão.

Quer dizer: não há três corpos de material, há um só, rearrumado três vezes por gente que sabia estar a rearrumar — e que deixou o rasto da operação escrito na margem. Quem arrumou por assunto não estava a inventar assuntos: estava a nomear os que já via.

Isso não derruba Ward. Ela tem razão em que a leitura corrida da Alfabética dá algo que Cassiano não dá — o gosto do caso, a estranheza, a falta de moral no fim da história. Mas enfraquece a parte forte da objeção, que é a suspeita de que o sistema veio de fora. A ordenação começou dentro, e começou cedo.

Fica registrada, então, a discordância e a resposta, e fica registrado também o que falta: nenhuma destas coleções foi lida por inteiro para este curso. Foram usados os ditos que as fontes secundárias já tinham posto em circulação. Ler as três de ponta a ponta, com a concordância na mão, é trabalho que ainda não foi feito aqui.

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SínteseO que estas cinco aulas eram, juntas

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Uma síntese não é um resumo. Resumo é a mesma lista, mais curta. Síntese é o momento em que as partes aparecem articuladas como uma coisa só.

Esta disciplina começou com um problema de leitura e terminou com uma tese sobre o que estes textos são. O caminho, de uma vez:

A Aula 1 estabeleceu o gênero: o apotegma é uma palavra dita a um homem, num dia, para um estado — não é legislação. E mostrou que o material chegou até nós em três arrumações do mesmo corpo de casos, feitas por gente que sabia estar a arrumar.

A Aula 2 parou de afirmar a inconsistência e passou a mostrá-la: o mesmo irmão, a mesma pergunta, dois anciãos, duas respostas opostas — impressas uma debaixo da outra. Nenhuma doutrina faz isso. Um arquivo de casos faz.

A Aula 3 mostrou os dois usos do mesmo instrumento: um dito exigente entregue a quem não o suporta produz dano, e um ancião que vê o homem a medir-se tira-lhe a régua da mão e responde com um número menor que o dele. O que muda é o diagnóstico de quem o entrega.

A Aula 4 mostrou que a transposição para quem tem casa já foi feita uma vez, com nome e endereço: em Gaza, por carta, a leigos, e conservada.

E a Aula 5 discordou de duas fontes que este curso usa — uma sobre a acédia, outra sobre o próprio método do bloco — e deu à segunda a única resposta que o material permite.

1 · Uma palavra, um homem, um dia 2 · O dito que corrige o dito 3 · O mesmo instrumento, dois usos 4 · Gaza, e quem tem casa 5 · Onde discordamos das fontes o gênero é caso, não legislação Poemen 88 e 89, impressos lado a lado Antão 38 fere; Macário baixa a própria régua a transposição já foi feita, e está conservada a acédia não é depressão; e a réplica a Ward A seguir, STAN 504 — Evágrio, a obra e o que sobreviveu dela.
Um caminho, cinco estações. A segunda é o eixo: sem o par Poemen 88 e 89, a tese desta disciplina fica sendo uma afirmação de prefácio. Com ele, fica sendo um fato impresso.

O que fica valendo

Uma pergunta antes de qualquer citação do deserto. Não «isto é verdade?», mas «a quem foi dito?». A maior parte do dano que estes textos causam hoje vem de ditos corretos entregues à pessoa errada — e a coleção guarda, ela mesma, o caso de um irmão que foi buscar segunda opinião.

Uma regra de método, que vale além do deserto. Quando um construto antigo e uma categoria moderna se parecem, descreve-se o fenômeno, diz-se que é reconhecível, e não se afirma que uma coisa é a outra. Foi assim que esta aula tratou a acédia, e é assim que o curso inteiro trata as aproximações com a psicologia.

E uma dívida, escrita para o aluno ver. Esta disciplina usou os ditos que as fontes secundárias já tinham posto em circulação. Nenhuma das três coleções foi lida de ponta a ponta para este curso. É a maior dívida do Bloco 7, e é desta disciplina.

O fechamento

O fechamento é um fichamento: escolha um apotegma qualquer — de qualquer coleção, de qualquer abba — e escreva, com as suas palavras, três coisas: o que ele diz, a quem lhe parece ter sido dito, e a quem ele faria mal. Ninguém corrige, porque não é isso que está em jogo.